Desde que fiquei surda (perdi a audição do ouvido esquerdo), me deparo com situações inesperadas. Lembro que a primeira delas foi em Belo Horizonte na loja de aparelhos auditivos. Lá estava eu esperando ser atendida enquanto ouvia as fonoaudiólogas tentando convencer as pessoas a usarem o aparelho. E, não, não era marketing. A falta de informação, preconceito e vergonha ainda são as principais causas para as pessoas não buscarem uma qualidade de vida melhor.

Toda vez que eu ia até a loja, acabava naturalmente me metendo nas conversas. Sim, sou dessas quando acho que vale a intervenção. Até você se adaptar a ser surda, testar os diversos modelos de aparelhos auditivos disponíveis, leva um tempo e eu aproveitava cada ida à loja para meter a colher no papo do vizinho se eu visse algum sinal de preconceito. Realmente não entendo qual a diferença dos óculos, para um aparelho auditivo, comentava. Simples assim. #SQN, sabemos que não é bem assim.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 10 milhões de brasileiros possuem algum grau de deficiência auditiva, o que equivale a 5% da população. Número no qual eu não acredito, deve ser bem maior. Segundo David Myers, investigador do Hope College dos EUA, as pessoas esperam, em média, 6 anos após os primeiros sinais de perda auditiva para tomarem uma medida. Nem precisamos ir tão longe, depois que comecei a falar publicamente sobre minha surdez, várias pessoas vieram me comentar que não escutavam de um ouvido, ou tinham zumbido também, mas nunca tinham ido ver.

A surdez é uma deficiência que passa despercebida, é invisível. A sociedade não percebe uma pessoa surda como a um cadeirante, por exemplo. O que não significa que a surdez não seja limitante. Antes de eu usar o aparelho, em uma reunião, por exemplo, com muitas pessoas falando ao mesmo tempo eu ficava tonta, os sons se misturavam com meu zumbido e essa sensação me fazia perder o sentido de direção. Outra dificuldade que tenho é não conseguir saber de onde vêm os sons, afinal passei subitamente de estéreo para mono.

Na prática, isso significa que: quando estou dirigindo não identifico se a ambulância está atrás de mim ou longe; não sei pra onde ir se me chamam; participar e prestar atenção em conferências e conversas telefônicas demanda mais tempo pro meu cérebro processar. Há situações tragicômicas, sobretudo, em eventos, parte do meu trabalho. Tenho que ficar virando o rosto e me aproximar da pessoa para ouvir e muitas vezes, pela reação da pessoa, preciso explicar que: não estou querendo chegar mais perto, não estou dando em cima, ou nem virando o rosto porque a pessoa está com mau hálito (sim já me perguntaram isso), apenas eu tentando entender o que ela está dizendo.

Sorte minha que sou bocuda e saio falando que sou surda e insisto, muitas vezes dá preguiça de insistir, confesso. E por isso mesmo muitas pessoas desistem e se isolam. Aliás, lembro do meu otorrino comentar que o índice de pessoas surdas com depressão é alto.

Com o aparelho tudo isso melhorou muito, ao menos, para mim. Ele me ajudou a entender os que as pessoas estão falando e a me situar nos ambientes. Sem falar que é somente quando mostro o aparelho que muitas pessoas realmente repetem quando digo que não ouvi algo, mesmo já tendo pedindo para repetir. Na primeira vez que peço, a reação geralmente é:

  • “Ah, tá é surda, ahã…”
  • “Risos…”

Minha evidência da deficiência tem que ser sempre colocada à mostra. É ver pra crer. A reação logo após eu mostrar o aparelho vem com um peso de arrependimento, de culpa: um olhar de dó… Sem saber o que dizer e um pedido de desculpas:

  • “É que você não parece surda, dizem.”

Faz parte, a surdez é realmente invisível e não tem cara por isso não pareço surda, pareço a Fernanda. Porque somos muito mais que a nossa deficiência, nossa capacidade não está vinculada com alguma de nossas características. Não ter vergonha em falar é muito importante para que possamos normalizar a deficiência. Expor minhas vulnerabilidades não me fazem me sentir mais fraca, muito pelo contrário. Foi por meio da surdez que um mundo se abriu para mim. Sou grata, tenho aprendido muito nesse processo e sigo aprendendo.

Ninguém realmente precisa adivinhar que sou surda, mas como as pessoas vão saber se eu não falar? É preciso sim falar, é preciso normalizar a deficiência e desvincular da imagem que deficiência é um problema. Outro dia vi nas redes o Victor Di Marco dizendo: “Eu possuo dificuldade na fala ou você possui dificuldade em me entender?” 😉

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