Há períodos da história que devem ser suficientemente lembrados para que, por um descuido qualquer, jamais sejam repetidos. Um sábio espanhol, certa vez, escreveu: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” (George Santayana). Enquanto escrevo estas palavras, até o dia 26 de fevereiro do presente ano, no Brasil, (252.835) vidas foram ceifadas pela Covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde. Quantas famílias e sonhos destruídos ao longo desses dias? Em uma direção diametralmente oposta, enquanto a dor e o sofrimento se demoram, nos lares e leitos hospitalares, alguns desavisados discutem questões que depõem mais contra seus valores do que poderiam suspeitar. Discutem tendências, sapatos, etiquetas; modos de se vestir; modos de se portar. Sendo incapazes de refletir sobre esse momento devastador no qual todos estamos vivendo. Claro, alguns, dados os seus privilégios, em menor proporção. Sem dispensar consideração ou um mísero minuto de silêncio gargalham, indiferentes, sobre a morte anônima de algum desconhecido que, a essa hora, algum familiar sofre sem se fazer ouvir. Deveríamos recordar a história para jamais repeti-la, e quando penso acerca disso, o faço sob efeito da seguinte constatação: se tivéssemos uma noção atualizada do quanto o culto desmedido à vaidade é o prenúncio de um grande vazio; de uma crise generalizada de orientação, certamente, tomaríamos o tempo presente como uma dádiva, como um providencial aprendizado.

Qual a lição mais pontual que tempos como esses poderiam nos dar? Confesso que, desde meados de abril do ano passado, me pego pensando sobre questões desse porte, motivada, sobretudo, pela desproporção entre o número de mortes e a quantidade de postagens (em diferentes redes sociais) que ora afirmam uma despreocupação quase cínica acerca destes tempos, ora negam o próprio cinismo. Muitas pessoas ainda não se deram conta do período, particularmente, incomum que estamos vivendo e, como se não suspeitassem a peste ao redor, bailam entusiasticamente a dança da morte não sem certa afetação de vaidade. Dançam, metaforicamente, enquanto fotografam suas respectivas bolsas; sapatos de grife, óculos espelhados e, é claro, caras e bocas. Se um historiador qualquer parasse um segundo para documentar o que estamos vivendo, certamente, recolheria material suficiente tanto para trinta anos de pesquisa, como – de sobra – um conjunto de sintomas indispensáveis à curiosidade e investigação de um bom psiquiatra.

Jamais a imagem esteve tão em evidência em tempos tão particularmente sombrios, cujo contraste depõe contra a suposta modernidade deste século. Modernos ou hipermodernos, os termos talvez sejam controversos, mas uma coisa fica evidente: as aparências têm logrado um status de realidade que, ao se projetarem das telas escuras de celulares e computadores (com suas perfeições virtuais), convertem tudo o que supúnhamos outrora como real em ficção. Inacreditável, dirão os contemporâneos de nossos bisnetos, no instante em que, voltando a curiosidade ao ano da Covid-19, perceberem o quão deslocados estavam muitos dos nossos influencers e cultores da imagem nos fatídicos anos que se seguem a 2020.

É curioso constatar que, mesmo em tempos adversos como os de agora, há um considerável aumento de exposições da imagem pessoal nas mídias digitais diversas. Esse fenômeno ganha corpo, talvez pela dificuldade de exposição das pessoas em logradourospúblicos, dado o isolamento e distanciamento sociais e a necessidade sempre crescente dos anônimos se anunciarem e ganharem palco, o que nos leva a um questionamento que pesa como um verdadeiro incômodo: qual seria a razão para tamanha necessidade de exposição nas mídias? Tal adviria de um anseio por aceitação ou por um modo (digamos, maquiado) de driblar qualquer sintoma de fragilidade? Pelo que avalio, muito do fenômeno observado decorre de uma espécie de negação inconsciente da própria condição humana, cuja pandemia tende, naturalmente, a desmascarar. No esforço de negar a fragilidade, a dor e a morte surge uma via contrária que, às custas da padronização e dos riscos à própria saúde física e emocional, se empenha a propagar um elixir da eterna juventude; com seus bisturis, filtros e soluções artificiosas.

Se pudéssemos escancarar as feridas ocultas dessa vaidade que, contrastando o cenário pandêmico, se propaga como uma verdadeira febre, tocaríamos em seu ponto nevrálgico no instante em que revelássemos não a sua pretensa beleza (pomposa e segura de si), mas sim a sua cínica desfaçatez, que se denuncia, aliás, com questionamentos simples como estes: a bem da verdade, quem são essas pessoas (ou melhor: influencers) que estão por trás das propagandas dos produtos de beleza? Como andam os seus posicionamentos e verdades acerca daquilo que compartilham? Que nível de responsabilidade tais figuras comprometem na propagação de suas supostas certezas? Será que, no afã de influenciar inúmeros desavisados, tais personalidades avaliam os efeitos de seus próprios atos nas vidas reais de uma infinidade de anônimos, no mais das vezes, desprovidos de luxos e benesses que, no Brasil, só os abastados possuem?

Dada a facilidade com que se consome esse tipo de conteúdo, e, mais do que isso, o senso de popularidade, quase sempre se atribui à discussão sobre imagem uma aura entre o vazio e a futilidade. Entretanto, jamais se avalia o quão perturbador pode ser a propagação midiática de uma foto de uma celebridade, cuja recepção passiva pode desencadear os nocivos efeitos, como baixa autoestima, inveja e, consequentemente, distúrbios de imagem. São tempos como esses atuais que nos levam a perceber o porquê questões como beleza, imagem e envelhecimento são não apenas o reflexo a partir do qual se vê um período histórico específico, como sintoma dos encontros ou desencontros dessa mesma imagem. Os problemas nesse campo surgem quando, em vez de mirar a si mesmo, o espelho em questão foca mais no que está fora do que, propriamente, à luz que se projeta face o próprio espelho. Há períodos da história que devem ser suficientemente lembrados para que, por um descuido qualquer, jamais sejam espelhados. Como se já não bastassem os famintos e esfarrapados nas arenas entre os imperadores romanos, além das pompas e brioches da realeza francesa às vésperas da Revolução, infelizmente, assistimos atônitos ao desfile de semideuses plastificados e, por que não, grifados, que seguem indiferentes enquanto moribundos insistem em borrar suas maquiagens em plena pandemia.

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2 comentários
  1. Que texto preciso! Em ambos os sentidos: tanto na clareza, quanto na oportunidade de ser divulgado. Me fez rever muitos conteúdos vazios que tenho consumido. Parabéns!

    1. OLÁ, Soraya, MUITÍSSIMO obrigada pelo COMENTÁRIO! Fico muito feliz em saber que gostaste de ler o primeiro texto por mim publicado. Eu, assim como VOCÊ, tenho revisto CONSTANTEMENTE os CONTEÚDOS que consumo. É SAUDÁVEL dar unfOllow em tudo que NÃO nos acrescenta.

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