Dizem que a pior crise no casamento é a dos sete anos. Eu acho que a pior crise é a que vem com o tempero azedo da pandemia e com duas décadas de intimidade. A intimidade é uma merda, já dizia algum sábio. A idade chega, a paciência diminui e o filtro. Que filtro mesmo? As palavras escapam sem um pensamento prévio ou empático. Tão importante para qualquer relacionamento.

A parte boa é que se pode escolher não desistir de ser um casal apesar das adversidades. A regra vale quando o amor e o respeitam ainda existirem, claro. Colocar à mesa o que se pensa e sente com franqueza é fundamento, alicerce da relação. Essa é a receita. Mesmo que um fale de um jeito Dercy Gonçalves e o outro à la Silvio Santos. O importante é ter a conversa abertamente no casamento.

Somado a isso fomos todos colocados à prova pela crise: pressão psicológica, financeira e todos as outras faces que o vírus nos trouxe. Aí cada um vai se virando do jeito que dá conta. O esforço para conseguir enxergar o racional e o sentimento do outro não é fácil, mas é possível. Só assim para as coisas irem se encaixando num casamento. Um processo contínuo que requer dedicação e paciência.

O questionamento sazonal, ou crises, apesar de duras, são necessárias para crescimento dos envolvidos e a certeza de continuar a relação por opção e não por inércia. Quantas vezes eu mesma não quis fugir? Conviver 24 horas por dia, todos os dias da semana, pode ser sufocante para alguns. O fato não anula e nem exclui o amor que sentimos pelas pessoas. Essa culpa já não me pega mais. O segredo é continuar a ser quem você é e, ao mesmo tempo, permitir que o outro também o seja. Assim todos saem mais forte da situação, nem que para isso seja preciso tirar férias com você mesmo.

Ninguém deveria ser personagem do que um casal seria na vida real. Ou do que a sociedade espera (se é que ainda espera alguma coisa). O importante é ser inteiro e dois seres inteiros, com coisas boas e ruins, formam uma família com um formato afetivo, onde se aceitam como são. Ao fazer isto, renova-se o afeto e aproxima das diferenças e similaridades de cada um. Sei que sou uma privilegiada por ter tudo isso, a possibilidade da conversa franca, de fugir e de continuar amando e sendo amada. Infelizmente, sou minoria.

Em uma sociedade doente que vivemos, neste mês que se celebra o Dia da Internacional da Mulher, desejo que mais famílias consigam ter um relacionamento transparente e respeitoso. Desejo realmente que os números de feminicídio e de pessoas infelizes no relacionamento mudem e que a sociedade reflita. Você pode acompanhar aqui os principais fatos e indicadores da violência contra as mulheres publicados pela Organização Pan-americana da Saúde (OPAS).

Axé!

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1 comentário
  1. Que texto maravilhoso.
    SoU sua fã! Vc inspira Fernanda.
    É por existiR pessoas como vC que a vida vale a pena.
    Obrigada pelO pongo de lÚciDEs

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