Estou na maca, em minha sessão semanal de acupuntura. Sinto como se uma formiguinha estivesse me beliscando, uma a uma, da cabeça aos pés. Não dói, em certos pontos é incômodo… Para dizer a verdade, na testa dói levar agulhadas, acho que no tornozelo também. Mas depois que estou recoberta de agulhas, respiro fundo e espero por uns 40 minutos, hora de relaxar.

Ouço a voz de uma mulher dizendo: “Ei, acorda, acho que esqueceram a gente aqui”. Assustada, percebo que dormi e que tem mais uma paciente toda espetada ao meu lado. “Estamos aqui há mais de uma hora e meia, vamos gritar para virem aqui nos tirar as agulhas?”.

Ainda me sentindo uma peneira tonta, acho estranho ficar gritando no consultório para pedir ajuda. A vizinha da maca ao lado não titubeia, bota a boca no trombone, acho que não há agulhas no gogó dela.

Levanto só a cabeça. O corpo está praticamente imóvel, pois, se me mexer, eu me machuco com o punhado sem fim de agulhas. Ninguém vem nos socorrer, realmente algo estranho está acontecendo. Resolvo fazer dueto de gritaria com minha mais nova parceira de perrenga.

Nada acontece, fomos esquecidas! O médico estava atrasado para buscar os filhos na escola e atribuiu a tarefa de retirar todas aquelas agulhas a uma jovem recepcionista de uns 18 anos. Se isso não bastasse, a beleza da secretária está fazendo aniversário justo no dia, e recebeu da portaria do prédio um chamado: era o namorado, que trouxe flores e foram juntos, dali mesmo, celebrar a data.

Décimo terceiro andar, portas trancadas, médico e secretária voando por aí, cada um com seus motivos e nós, peneiradas por aqui, sem saber o que fazer.

Fico pensando que, se pegar fogo no prédio, como é que vamos nos jogar cheias de agulhas para os bombeiros nos salvarem? Ouço minha vizinha espetada choramingar: “Meu Deus, o que vamos fazer?”. Enquanto ela chora, resolvo dar um jeito na situação. Olho para o lado e vejo que ela tem bem menos agulhas do que eu, então sugiro que tire com calma, cada uma delas. Vou dizendo: “Tem agulha ali, outra lá”, e assim, depois de alguns tensos minutos, ela tira todas as suas agulhas.

Oriento que vá até minha bolsa e apanhe meu celular, para ligar para o médico. Quando ele atende, ela grita novamente e chora, reclamando da situação. Desliga e vai até a recepção, confere as portas do castelo das torturas e confirma que estão todas trancadas.

Nosso médico deve estar longe, pois do momento da ligação até sua chegada, fico mais uns quarenta minutos esperando deitada com todas as agulhas. A recepcionista, a essa altura do campeonato, está comendo a sobremesa, provavelmente.

O médico chega, parece que está sem cor, pálido de susto e de medo. Não olha em nossos olhos e começa apressadamente a tirar as agulhas. Pede perdão e explica o que houve, quase não ouço sua voz, pois ele está falando para dentro enquanto puxa minhas agulhas para fora. Entre um pleonasmo e outro, respiro, visto minhas roupas e saio meio esquisita de lá. Não sei o que me afetou mais, se as agulhas me perfuraram mais do que deviam, ou se foi a irresponsabilidade e falta de zelo que demonstraram. Ah, se Hipócrates ficasse sabendo de uma coisa dessas.

Já estou em casa. Confiro no banho se está tudo certo, ao menos por fora. Enrolada na toalha, saio para atender ao telefone rapidamente — é a secretária Dory do Procurando Nemo com amnésia recente, aos prantos, pedindo perdão e tentando se justificar. Falo com ela e percebo que o principal responsável disso é o médico, que pede para falar comigo também, e, de agulhada em agulhada, me espeta novamente com suas furadas palavras.

Ouço tudo e, antes de me despedir, digo que não serei mais sua paciente. Que nesse caso fui literalmente paciente, mas perdi a confiança, quebrou o vínculo.

(Essa crônica é do meu livro Vou Ali e Já Volto – 40 Anos no Deserto)

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