Sentia muitas dores, cólicas sem fim. Como meu trabalho era visitar médicos pela indústria farmacêutica, aproveitava e perguntava para um, ouvia a opinião de outro, e de consultório em consultório, fui parar nas mãos de um dito especialista, que olhou daqui, operou de lá, e decretou: “Você tem endometriose, menina, fiz a laparoscopia e não vai ter jeito. Vai ser difícil engravidar, se é que vai conseguir. Mas vou te dar esses remédios para você usar por seis a oito meses, eles vão fazer você entrar na menopausa precoce, quem sabe assim você melhora. Ah, mas adianto, é doença autoimune”.

Tinha apenas 26 anos e saí desorientada daquele lugar. Um turbilhão passava pela minha cabeça: menopausa precoce, não poder ter filhos? Como assim? O que estava acontecendo? Comecei o tratamento. Eram injeções aplicadas na barriga, e de tão grossas as agulhas eu precisava tomar uma anestesia local antes para suportar a dor. A cada aplicação, senti os calores aumentando, dores em várias partes do corpo, minha pele cada vez mais seca, meus cabelos caindo e minha possibilidade de ter filhinhos se esvaindo.

Uma ruptura aconteceu, me perdi de mim. Meus ovários policísticos magoados, minha tireoide dilacerada com tantos hormônios, sintomas de uma mulher madura em um corpo jovem e já exausto. A cada aplicação, engordava uns quilos, perdia as roupas, comprava mais, chorava mais, doía mais, engordava mais. Quarenta quilos depois, um ano havia passado. Estava nua na frente do espelho, sem me reconhecer, recoberta por toda aquela triste camada de desencontros. Agora além da endometriose não curada e suas consequências, também estava obesa.

Dentro de minhas roupas largas, tentei me reinventar. Continuei trabalhando, minha vida precisava continuar. Meses depois, voltei no meu cirurgião especialista em endometriose. Ele se assustou quando me viu, lamentou por eu ter engordado tanto e disse que realmente isso acontece com a maioria das mulheres que usam essa medicação, mas “algumas emagrecem”, remendou. Leu meus exames e disse: “Não teve jeito, no seu caso não funcionou a medicação. Serviu apenas para te engordar, lamento”.

“Eu é que lamento que alguns médicos sejam desconectados de seus pacientes, eu é que lamento que não tenha me olhado como um todo, para entender de fato qual o melhor tratamento, eu que lamento ter vivido essa tal menopausa sem precisar disso, eu que lamento e carrego o peso de sua conduta médica”.

A obesidade me trouxe outros desafios além de físicos. Comecei a enfrentar o preconceito por parte de muitas pessoas. Eu visitava um médico que, por coincidência, também era ginecologista. A cada mês eu estava mais pesada, triste e sem esperanças. Ele acompanhou tudo. Depois da propaganda médica feita e das amostras grátis deixadas, ele me perguntava sobre minha saúde e dizia que era assim mesmo, para eu aguentar firme.

No entanto, certo dia, enquanto eu falava de uma medicação do laboratório, ele arrancou das minhas mãos o material impresso, rasgou e jogou no meu rosto. Disse achar um absurdo eu chegar àquele ponto, me empurrou para fora do consultório em direção à recepção e gritou em alto e bom som: “Quero ver ficar presa numa cela sem comida, se não emagrece?! Não me apareça nunca mais aqui”. Todos me olharam assustados, ninguém entendeu nada. Eu senti o chão abrir sob meus pés. Devíamos ser “autoimunes” a gente assim.

Entrei no carro e chorei uma angústia profunda que não cabia mais em mim. Apesar do corpo gordo, não era espaçosa por dentro para suportar tanta pressão de fora. Aos poucos comecei a recuperar meu amor e me pacificar com essa dor. Longa jornada, cheia de dobrinhas, celulites e cicatrizes. Cada pedaço do corpo tinha algo a me dizer e comecei a entender o bê-a-bá dessa nova linguagem. Escolhi me acolher, como se eu mesma pudesse me pegar no colo e acalentar.

Enchi-me de coragem e marquei uma consulta particular com aquele tal ginecologista que me colocou pra fora do consultório. Nada de convênio, pago em dinheiro, nota sobre nota, que valeria cada centavo para minha autoestima. Dezesseis horas, a secretária me chamou. Dirigi-me pelo corredor em direção ao consultório com meus ovários, útero e tireoide firmes e valentes. Minhas tubas uterinas me sustentavam, pra Falópio nenhum botar defeito. Pisei duro, cabeça erguida, salto alto, bem arrumada e cheirosa. A ocasião merecia tanto esmero de minha parte. Quando a porta abriu, ele sorridente não imaginava que era eu. Sua expressão mudou, seus olhos derreteram e foi para trás da mesa, se esconder de sua própria vergonha.

Entrei, fechei eu mesma a porta, me sentei, esperei e não falei nada. Meu silêncio ensurdecedor o afetou e ele começou a chorar de soluçar e se debruçou sobre a mesa. Esperei, tinha o tempo todo do mundo. Quando se recuperou, me disse que não entendia o que deu nele. Chorou mais um pouco e falou: “Na verdade, acho que sei o que houve. Eu também luto contra a obesidade há muitos anos. É difícil para mim ser um médico gordo e ter de incentivar meus pacientes a emagrecer, sendo que eu mesmo não consigo. Quando vi você mês a mês, aumentando de peso, não quis saber se era por causa de remédio ou do quê, simplesmente transferi para você o tamanho da minha dor. Espero que me perdoe por isso”.

Respirei e disse: “Espero que você aprenda a se gostar, pois só assim não fará mais mal a ninguém”. Peguei as fichas técnicas que eu usava para visitá-lo, coloquei sobre a mesa e disse que não o visitaria mais. Caso ele tivesse interesse em receber algum propagandista, que ligasse para o laboratório solicitando um. Levantei-me em direção a porta e ele me perguntou: “E então, você vai me perdoar?”. Eu olhei para trás e disse: “Eu? Eu vou me amar e me respeitar como nunca fiz antes, aliás, já comecei quando decidi voltar aqui”.

Essa crônica faz parte do meu livro Vou Ali e Já Volto – 40 anos no deserto

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