Que dolorosa essa coisa de crescer e aprender a cuidar de si. Mais de mim em cada decisão, nos passos e escolhas que me levam por caminhos desconhecidos.

Frio na barriga, de tatear o saber me proteger, precisar escolher, apurar meus sentires, farejar o que for necessário. Oscilo entre querer voltar para o conforto do colo da infância e dar o próximo passo sozinha. Inocente, nego algumas coisas que vejo, na expectativa de que ninguém me faça mal. Mas já não cabe mais não querer ver e insistir nesse conforto de não decidir. Agora aperta, é incômodo, é preciso agir. Novas coisas estão por vir e não dá para ficar parada aqui.

Nessa jornada, preciso me preparar para saber cuidar das fronteiras da minha existência, que vez por outra são invadidas aos poucos, assim sem perceber, e quando se vê, tudo já foi tomado e o espaço para eu ser quem deveria foi sufocado para ser o que os outros esperam que eu seja. Preciso treinar dizer “não” quando for preciso, aceitar os sim que fazem parte do processo, entender que nem tudo é como a gente quer e parar com essa manha de achar que é só comigo. Deixar a criança mimada para trás, como quem renova a pele.

Preciso agora colocar fronteiras enquanto ainda dá tempo e entender que os limites são um ato de amor comigo mesma, pois, se não tiver um recipiente para acolher minha alma, como poderei sobreviver? É minha responsabilidade criar esse espaço, como uma guerreira que fica atenta aos portões, observando todo e qualquer intruso e decidindo quem entra e quem sai. Só assim saberei preservar meu eu, mas tudo com jeito, sem exageros, pois posso endurecer de tal jeito que queira fixar meus pés e dali não sair.

Ato de compaixão profundo esse de me cuidar, de me responsabilizar pela preservação da minha mente e do meu ser. Compaixão de perceber minhas necessidades sem me apegar excessivamente à minha dor e sem me fixar em um único ponto, sem querer avançar. Compaixão de me ajudar primeiro para depois poder ajudar o outro, assim, do jeito que eu quiser, do jeito que eu puder, nem mais, nem menos.

Essa é a preparação para a próxima etapa. O chamado virá e preciso decidir se vou ou não aceitar. Se ficar onde estou, vou pagar o preço por isso, mas, se resolver atender à voz que me convida para o desafio, preciso ir, consciente de que tenho em mim elementos para me manter firme durante a batalha.

Aqui estou eu, tecendo o fio de prata que não vai permitir que eu me perca ao entrar em algum labirinto. Depois saberei sair, e com isso, poderei matar os dragões e defender meu reino, meu eu.

(Essa crônica é do meu livro Vou Ali e Já Volto – 40 Anos no Deserto)

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