Cansada, depois de tantas curvas pelo caminho que trilhei até agora, paro na estrada para me refrescar sob a sombra de uma frondosa árvore. Quando penso que vou tirar uma soneca, uma carruagem de ouro (falsificado, diga-se de passagem) passa pelo meu caminho, e de tanto brilho que ela tem, chega a ofuscar minha visão, com o inebriante chamado de começar uma nova carreira de um jeito mais fácil, prático e milagroso. Acredito, subo os degraus, sento em seu banco estofado de veludo vermelho e sinto que fui agraciada pelo universo depois de tantos desencontros.

Aproveito a viagem e penso que fiz o certo, afinal, para que ter tanto trabalho de construir uma nova carreira do zero? Vou pegar esse atalho, será mais fácil, me está sendo oferecida a possibilidade de fazer tudo em menos tempo e com menos esforço, então por que não aceitar? Fui seduzida, caí na arapuca que me leva direto para o que será minha próxima gaiola.

Buscar a facilidade por meio de caminhos mais curtos, usar fórmulas já ultrapassadas, perder o foco, deixar projetos criativos e inovadores de lado e dar mais valor para a opinião do coletivo do que para a sabedoria interior, tudo tem um preço.

O preço a se pagar é a armadilha, pois mesmo conduzida pela enganadora e sedutora carruagem de ouro falsificada, agora me vejo dentro de uma gaiola onde tenho de me comportar do jeito que toca a banda, me submeter a não colocar em prática o que considero importante, ouvir coisas que meu ouvido já tinha decidido filtrar e fazer projetos sem alma, pois quem dá o tom da coisa está sem energia vital. Continuar a viver em ambientes tóxicos, com pessoas ácidas e tendo de engolir meus sonhos. Assim, tudo o que parecia mais fácil se tornou extremamente difícil, complexo, cheio de várias voltas semelhantes a um novelo bagunçado. O que era uma aparente economia de tempo se tornou uma enorme curva no meu caminho, quanta energia desperdiçada…

O medo passou a me acompanhar, sugada das poucas energias que tinha começado a recuperar. Vejo-me “anêmica” novamente, acreditando que já não sou capaz e que do meu jeito é difícil demais, que, agora que vendi a alma, não tem mais jeito.

Quanta coisa no caminho para nos seduzir e enlouquecer. Quando aceitamos valores desprovidos de vida e cheios de preconceitos e dogmas, contribuímos apenas para nos afastar de quem somos. Posso ver isso reproduzido em casamentos sem amor por medo de solidão ou por uma falsa sensação de apoio financeiro, na escolha de trabalhos que não valorizam nossos talentos e em que continuamos a ser medianas, quando poderíamos ser brilhantes.

De tanto nos afastar da sabedoria do coração, aceitando tudo o que nos oferecem como caminho mais fácil, também vamos nos distanciando da nossa capacidade de criar e prosperar, como se o nosso solo ficasse estéril.

Mas para uma coisa essa carruagem serviu: perceber que não posso me afastar da minha natureza mais profunda, por mais cansada que eu esteja. Preciso me manter conectada com tudo aquilo que é significativo para mim, alimentar minha alma o máximo que puder com as paixões e o envolvimento daquilo que faz sentido, não me afastar de escrever meus livros, ajudar e desenvolver as pessoas e conduzir meus negócios com propósito, respeitando minha ética e aquecendo meus valores a cada momento, usando a plenitude dos meus talentos e me separando do tipo de pensamento coletivo nivelador, tacanho, reducionista.

Prefiro pegar carona, se for o caso, em uma carroça velha e honesta, um pouco encardida e muito usada, em que me revelam suas verdades, me contam suas experiências com o tempo e me conduzem para o caminho que escolhi para mim.

(Essa crônica é parte do meu livro “Vou Ali e Já Volto – 40 Anos no Deserto)

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