Podia ser mensagem de computador. Mas são esses pop-ups que surgem na vida da gente de repente e que, uma vez mais, nos colocam à prova.

Aqui em casa a gente se cuidava. Não saíamos de casa para passear, fazíamos apenas o essencial de ir ao mercado, farmácia e escola, sempre de máscara e álcool, não íamos a restaurantes, não encontrávamos com amigos, passávamos desinfetante em tudo, o tempo todo. E, ainda assim – de repente, positivamos. Não dá para saber como pegamos e, na verdade, essa informação não ajuda em nada.

Eu fui a primeira a descobrir que estava com Covid-19, apesar de ter certeza de que era uma sinusite, como sempre tenho em maio com a mudança de temperatura. O diagnóstico assusta mais do que os sintomas aos quais já estava acostumada. Lembro da minha terapeuta me perguntando. Como você está se sentindo? Eu de pronto respondi: com medo. E ela se referia ao meu estado físico. Mas essa doença vai muito além dos sintomas. São muitos sentimentos juntos e misturados.

O medo foi o primeiro sentimento que me acometeu. Medo de que a doença se agravasse a qualquer momento pelo meu histórico de asma e obesidade. Sentia que eu estava em uma roleta russa a cada novo dia. Segundo os médicos, os riscos de a doença evoluir ocorrem até o 11º/12º dia de sintomas. E lidar com esse sentimento não é uma tarefa fácil, confesso. O medo aumentou ao ler o resultado dos meus filhos e marido. Todos infectados.

Sabia que não podia deixar o medo vencer e me paralisar. E ele se misturava com a revolta e raiva de a vacina ainda não ter chegado para todos. Entretanto, a revolta é, de fato, um sentimento que não nos faz bem. Recorri à axiologia, à meditação e ao escapismo. Era proibido ligar noticiário por aqui. Sem falar no fato de que, se eu aparentava bem e calma, meu filho de nove anos ficava tranquilo. Então o jeito foi ficar calma ou sim ou sim.

Agradecia todos os dias por estarmos juntos, tratando de casa, com uma oxigenação boa, pouco acometimento do pulmão (10%). Quanto privilégio! E nos apegamos a isso com todas nossas forças. Minha filha de 16 anos teve muitos sintomas e quando perguntaram como ela estava, respondeu: “melhor que muita gente”. E o sentimento do medo e da raiva foi dando lugar para o da confiança e da esperança. Fiz uma folhinha, e ia pintando de verde cada dia superado.

Assistir a documentários como “Em busca do bem-estar” (From Stress to Happiness, disponível na Netflix) nos ajudou a lembrar o óbvio. Acompanhar o monge budista francês Mathieu Ricard em uma viagem pela Patagônia nos fez revisitar cenários com a natureza de nossas próprias experiências. Contemplar a natureza, inexplicavelmente traz uma sensação de bem-estar. E revisitar esses lugares nos fortalecem e nos trazem paz. Não precisa ser necessariamente o cenário patagônico, mas conseguimos isso olhando o jardim de casa, uma flor ou qualquer imagem que traga paz. Cada um tem a sua. E funciona!

Um dos trechos do documentário ilustra bem o que tentei fazer ao longo do tempo. Desculpem o spoiler, mas é por uma boa causa. Transcrevo aqui uma das falas do irmão David Steindl-Rast, um monge de 92 anos que descreve perfeitamente como podemos sair de uma situação de sofrimento:

“Existem duas formas possíveis de reagir a ansiedade. A primeira é o medo, ou seja: “Não, eu não quero isso”. E a outra forma de reagir é: “certo, isso é inevitável, mas vai passar”. E sabemos como fazer isso, porque todos nós nascemos através do estreito canal de parto. E essa é nossa primeira experiência de ansiedade.

A natureza faz com que o bebê confie instintivamente na vida e em que poderá passar. Todas as vezes que entramos em um lugar estreito, são oportunidades para um novo nascimento. Então, ao invés de ter medo, devemos confiar e seguir em frente.
….
Imagine que você tem bons motivos para confiar na vida. Porque a vida está constantemente fazendo tudo por você. Você não pode cair no sono, só pode se preparar para dormir A vida precisa tomá-lo nos braços para fazê-lo dormir. De manhã você não consegue digerir o café da manhã. São necessárias milhares de enzimas e nem mesmo os cientistas sabem quais são todas as coisas necessárias para digerir uma simples xícara de café.

A vida faz isso! Comemos, vivemos, tudo flui, então você tem todos os motivos para confiar na vida. Eu posso respirar! Existem pessoas que não podem respirar. Só percebemos que isso é um presente quando temos dificuldade para respirar. Então todas essas coisas lhe dão energia e alegria em meio a seus problemas. A vida lhe dá isso!”

Então use máscara, álcool gel e viva a vida, porque viver realmente é o propósito da vida. E outro pop-up se abre: vida detectada. Vida que segue.

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3 comentários
  1. Ficamos felizes em saber da melhor de todos vocês, pois ESTE vírus infelizmente é uma triste REALIDADE para todos. tantas vidas PERDidas e as autoridades no negacionismo, OLHANDO só para o Próprio UMBIGO, fazendo politicagem medicamentosa sem eficiência comprovada, muito triste ISSO, mas como dito em vosso texto “outro pop-up se abre” é a vida que segue.
    Excelente texto, obrigado por compartilhar.

  2. Ja falamos a respeito destes dias dificeis de enfrentar o covid mas, voce me ajudou tambem a emfrentar o que Ficou depois dele! Obrigada! Amei o texto! E amei a dica do documentario! Bjos

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