O isolamento durante a pandemia afetou nossas vidas de muitas formas, e os relacionamentos afetivos não ficaram de fora dessas mudanças. Casais que estavam em crise se entenderam, era importante o fortalecimento do apoio e laços para enfrentar um inimigo maior. Outros casais não suportaram o tempo integral de convívio, e as taxas de separação aumentaram muito. Os solteiros, além de recorrer aos aplicativos de paquera, parecem ter mudado as prioridades na busca por uma companhia.

O Match, maior aplicativo de relacionamentos da América, coleta informações sobre o comportamento e pensamento dos solteiros, todos os anos e por mais de uma década. E em sua pesquisa científica mais recente, intitulada “Single in América”, aponta uma mudança significativa na prioridade das características que estes procuram em um parceiro.

O processo pós traumático do isolamento, parece ter feito com que os solteiros mudem as concepções de amor e sexo, e a maturidade emocional dispara entre os critérios, assim como o desejo de relações mais estáveis e que promovam qualidade de vida. Ao lado da maturidade emocional, caminha a confiança, estabilidade financeira, gentileza e nível educacional semelhante, mais do que a beleza física.

Essa tendência foi identificada em várias gerações dentro da pesquisa, com pequenas diferenças nas porcentagens. O desejo por relacionamentos estáveis e com comprometimento, são a escolha de 62% dos solteiros, enquanto 11% afirmam preferir uma relação casual.

E aqueles que querem uma relação estável procuram alguém:
84% em quem possa contar e confiar
83% de mente aberta e que aceite as diferenças
83% que consiga me fazer rir
83% que seja emocionalmente maduro
82% que esteja confortável com sua própria sexualidade
80% que tenha vida própria
79% que seja confiante e seguro de si
78% que seja fisicamente atraente (vs 90% em 2020)

Segundo a Dra. Helen Fisher, conselheira científica da Match “a estabilidade é o novo sexy”. E ainda, os estudos revelam que as pessoas alegam aumento da dedicação na melhora da própria qualidade de vida. Incluindo melhora do sono, relaxamento e o detox de aparelhos eletrônicos. O desejo de qualidade de vida permeia não só a escolha do parceiro, mas do próprio jeito de viver.

Essa pesquisa foi realizada nos EUA, e não posso afirmar o quanto corresponde a população brasileira. Mas é de conhecimento público que muitos perfis dos aplicativos de relacionamento, andam estampando o “terapia em dia” na descrição, confirmando a tendência da valorização da maturidade emocional entre os solteiros do nosso país.

Quando eu soube desse movimento nos apps, achei incrível, a psicoterapia que outrora era estigmatizada como “tratamento de loucos”, “de pessoas com problemas familiares”, ou “pessoas frágeis”, estava ganhando um novo status, o de pessoas que se dispõe a olharem pra si e para seu próprio desenvolvimento e têm orgulho disso.

Mas, ainda existe um lado obscuro nessa tendência, parece também uma forma dos homens se redimirem frente a um levante feminino que têm revelado os abusos de uma sociedade patriarcal. Ou ainda, uma dívida com o próprio desenvolvimento emocional silenciado por anos de “homem não chora”, “isso é coisa de mulher” e “terapia de homem é futebol e bar”.

Aos poucos, fui entendo que esse movimento mais se parecia com uma autopromoção de saúde mental, do que com comprometimento real com o desenvolvimento pessoal. Tenho tantos anos, falo tantas línguas, bebo os melhores vinhos, viajo por lugares incríveis e tenho a terapia em dia.

É só me amar (ou fazer muito sexo), está tudo certo comigo. Mesmo que eu tenha tido uma família complicada, fiz terapia e não vou reproduzir isso com você. Não vou ter ciúmes, ser inseguro, ou manipulador. Minha terapia está em dia, sou bem resolvido. Não vou dizer que te amo em um dia e sumir no dia seguinte, porque faço terapia e sou a versão evoluída da humanidade. Parece um selo de garantia, não é?

Uma psicóloga ironizando a psicoterapia? Calma, eu explico. A psicoterapia é sim um processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Na psicoterapia as emoções, percepções e memórias são acolhidas para que possam ser expressas sem medo de julgamento. Então, mesmo que se identifique percepções e comportamentos que podem ser modificados, esse não é um processo diretivo, no qual a pessoa será cobrada ou avaliada pela sua capacidade alterar esses padrões. A psicoterapia acontece na interação entre profissional e pessoa em atendimento, e é dentro do outro que o processo acontece, dentro de seu desejo e limite de profundidade.

Então, usar a psicoterapia como certificado de garantia não faz muito sentido. Psicoterapia não é rehab, nem escola de bons modos. E muito menos é uma varinha mágica da fada madrinha ou beijo de princesa que transforma sapo em príncipe.

O “terapia em dia” usado dessa forma, pode virar a foto na academia (mesmo que não a frequente), a foto do prato fitness escondendo a sobremesa (deliciosa), a foto de um ato caridoso para vangloriar sua própria benevolência e o mais perigoso: vestir o lobo em pele de cordeiro.

Então, vemos uma transformação em estágio inicial, após o auge das relações líquidas (efêmeras) e do sistêmico apontamento dos abusos naturalizado nas relações, estabilidade é o novo lema. Para além do efêmero, nasce o interesse pelas relações sólidas, porém, pautadas pela qualidade do conviver. O cuidado agora, é o de que a terapia em dia não se torne um bem de consumo, um selo de qualidade comprado e exibido, e vazio de sentido. Psicoterapia faz bem sim, mas não é selo de garantia.

E para você, quais são as características e prioridades que deseja encontrar em um parceiro(a)?

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1 comentário
  1. Para o momento que vivemos, artigo de utilidade pública! A propósito, faço parte dos 84% que buscam alguém para contar e confiar, rs. Brincadeiras a parte, achei bem interessante como a autora analisa “nosso” comportamento afetivo e emocional neste momento em que podemos estarmos mais livres novamente.

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