Coquetéis podem ser resumidos em três componentes: a “base” (a bebida, ou o “spirit” da coisa toda); o “modificador” (que agregado à base dá o tom desejado ao drink, aguça ou alivia suas características) e a(s) “essência(s)” (detalhes que vão trazer cor ou aroma na composição geral.)

Pessoas e coquetéis têm isso em comum. Temos uma base (a alma, a herança cultural ou familiar, sua história) e a ela agregam-se componentes e variáveis que nos fazem ser mais ou menos agradáveis, tolerantes ou sociáveis e combinações que potencializam nossas qualidades ou defeitos.

Por muitas vezes podemos ser simplesmente “um porre”!

O que nos torna únicos é a nossa essência! Se nos drinks ela é um detalhe complementar, creio que nas pessoas é a base da mistura toda. Nos tempos da superficialidade – cheio de gente “leite com pera” – são cada vez mais raros exemplos de gente com essência. E, dado meu apego aos clássicos, não é à toa que eu olho para trás quando busco alguma referência.

Uma delas é Audrey Kathleen Hepburn-Ruston, ou como a geração de 40+ a conhece, Audrey Hepburn. Audrey tinha essência. Sempre foi ela, não importavam as circunstâncias. Infelizmente partiu cedo em 1993, aos 63 anos, mas viveu e marcou neste período mais do que muita gente faria em 100 anos.

Claro, não é a única. Não quero ser injusto ou criar polêmica aqui, por favor. Muitas outras mulheres são exemplos de inteligência, talento, elegância, e marcaram a história com suas ações tanto quanto Hepburn. Mas se me permitem, entre poucas, ela era aquele tipo de mulher “definitiva”.

A começar pela qualidade primordial de quem tem essência; seja quem você é, na sua melhor e mais natural versão. Os outros estão realmente ocupados em se parecerem com alguém.

Contemporânea de outras atrizes belíssimas e talentosas – Catherine Hepburn, Ann Margareth, Ava Gardner – ou… mais voluptuosas, como Sofia Loren e Liz Taylor-, Audrey era naturalmente linda e até hoje considerada uma das mulheres mais bonitas do cinema. Holandesa de nascença, falava inglês com uma dicção impecável, além de outras três línguas.

Aparentemente frágil e pequena (não era, tinha 1,70m), sua postura esguia não era só resultado da carreira de modelo ou por ser bailaria, mantinha uma dieta rigorosa, sim, mas também teve a herança de má nutrição. Quando jovem na Holanda ocupada pelos Nazistas, chegou a comer bulbos de tulipa para não passar fome.

Personificou sofisticação e elegância. Só no olhar ela era tão marcante quando a mais histérica Marylin Monroe com suas caras e bocas. Filha de pais fascistas, manteve suas crenças pessoais e fez o que pode para ajudar a Resistência durante a guerra. De doar cachês de performance de balé até ser mensageira quando criança (os soldados alemães revistavam menos as crianças do que os adultos, por isso eram usadas como “couriers”).

Esta simpatia de seus pais pelo nazismo teria sido desastrosa para a sua imagem na década de 1950, mas soube mostrar sua rejeição à ideologia racista dos pais, sem histeria ou discursos politizados, o que a torna ainda mais admirável. Não pagou de “coitadinha”, mas também não enchia o saco com discurso político.

Conquistou o público com o espetacular “Sabrina” (1954), e um caso com o colega William Holden, que acabou porque ela queria ter filhos e ele… era casado e mulherengo pacas. Mais tarde, e em meio a uma carreira de sucesso, ela realizaria esse desejo sendo mãe de dois filhos.

Se entregou ao mundo, em papeis memoráveis e no final ajudando os necessitados.

Bogart, Audrey e William Holden em “Sabrina” @justwatch.com

Audrey é uma das 14 pessoas que ganhou todos os prêmios do cinema e da TV – Emmy, Grammy, Oscar e Tony – e talvez a única pessoa que tem uma espécie de tulipas batizada em sua homenagem. Isso foi um tributo da Holanda à carreira da atriz e seu trabalho na Unicef, causa à qual dedicou cinco anos de sua vida como embaixadora especial do Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Possuía força de vontade inata, era inteligente e educada. Rejeitou a popularidade barata e não sofreu da “doença estelar” comum a tantos hoje em dia.

Com um gosto impecável, todos os vestidos, chapéus, acessórios que ela usava se tornaram um modelo de beleza e estilo. Musa de Givenchy, era uma mulher linda sempre, vestida de gala ou com a cara lavada.

Sempre me trouxe a aparência de uma mulher serena e feliz… Talvez pela segurança em saber “quem era” e gostar de si mesma. Aquelas mulheres raras que, com um olhar, bambeia as pernas e dá frio na barriga da gente.

Definitiva. Se comparada com um drink, seria um Perfect Martini ou uma taça de Taittinger.

Com tantos filmes emblemáticos é difícil escolher um…mas como além de tudo Audrey envelheceu linda e com naturalidade, vai uma das pesagens que mais gosto dela, em “Always” (1989 de Steven Spielberg).

…E com a licença de vocês, a música de hoje pode ser “cliché” mas é ela, cantando “Moon River” em Breakfast at Tiffanys… (E olha que achavam que ela não cantava tão bem!)

Por mais gente assim no mundo, por favor! Estamos precisando.
Cheers!

“A alma livre é rara, mas você a reconhecerá quando vê-la, basicamente porque você se sentirá muito bem quando perto ou com ela”
Charles Bukowsky

Fontes;
https://por.mainstreetartisans.com/
https://www.biography.com/

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