Assim (“Trocando Baia Formosa pela Suíça”) cheguei em Astano, uma cidadezinha antiga na Suíça italiana, com uns 300 habitantes, escondida entre as muitas montanhas que rodeiam a linda e sofisticada cidade de Lugano. Um lugarzinho cheio de paz, casas antigas, a maioria delas pintadas em rosa-chá, já desbotadas pelos anos e habitadas por pessoas idosas, que ali nasceram. Um supermercado pequeno, uma agência de correios, que também funcionava como banco e telefônica, algumas tavernas, uma igreja e o nosso hotel. Isto era Astano. Me pergunto, às vezes, como estará hoje.

Pensando bem, Astano era similar a Baia Formosa. Um paraíso onde o tempo parecia não passar, onde as pessoas não tinham pressa, onde o progresso não chegara. A grande diferença: não era à beira-mar, mas sim nas montanhas. Não estava no terceiro, mas no primeiro mundo. Com todas as vantagens deste. Os poucos turistas que ali apareciam, vinham à procura de sossego e paz, fugindo da turbulência dos grandes centros.

Alberto, nato na região, então beirando os cinquenta anos, havia estudado na melhor escola hoteleira da Suíça. Após haver gerenciado diversos hotéis de luxo em diversos países, decidira, aos 45 anos, arrendar todo aquele complexo e transformá-lo num hotel cheio de charme. Era assessorado por sua companheira Lorena, uma suíça cinquentona muito elegante e alegre. Lorena era responsável pelo bem-estar dos funcionários e clientes, assim como da organização dos quartos e restaurante.

O Albergo Della Posta era, na época, início dos anos 1990, um hotel quatro estrelas, o único do povoado. Tinha seus quartos distribuídos em duas casas, sendo uma antiga, construída por volta de 1890 e a outra mais moderna.

Na casa antiga, os quartos eram pequenos, com janelas minúsculas, o que os deixava com pouca luz, escuros. Com os tetos baixos e assoalho de madeira, que rangiam a cada passo. A casa escondia, sob seu charme, a necessidade de reformas e melhorias profundas, por exemplo, no sistema de aquecimento e nas instalações sanitárias. Quando acomodados naquela casa, os hóspedes pagavam um valor bem mais baixo nas diárias, para a alegria de muitos, pois, assim, podiam desfrutar daquele hotel chique, sem gastar muito.

Já na casa principal, construída nos anos 1970, os quartos eram confortáveis, com janelas grandes e excelente iluminação, pés-direitos altos, decorados com muito bom gosto e banheiros espaçosos. A cor rosa-chá predominava em todo o hotel. Não só nas paredes, mas em diversos detalhes: como roupas de cama, banho e mesa.

Luigi, o sous-chef

Um salão grande, construído também por volta de 1970, abrigava a moderna cozinha e o amplo restaurante, que tinha enormes janelas para o lindo jardim. No centro do jardim, quatro Palmeiras Chinesas, típicas da região, que, iluminadas ao anoitecer, davam uma magia toda especial ao ambiente. Em volta das palmeiras, mesas postas com muito bom-gosto. Ali eram servidos, noite após noite, a hóspedes de todo o mundo, pratos típicos da região. Estes de forma requintada e com preços mais elevados do que na taverna da esquina próxima.

O restaurante era comandado por Alfonso, um maitre italiano louro, alto e magro, muito competente e muito paciente. Junto com outras duas garçonetes éramos responsáveis pelo serviço às mesas. Alfonso me ensinou todas as tarefas de uma garçonete iniciante e outras além. Tais como flambar Crêpe Suzette e filetar peixe à mesa do cliente ou decantar um vinho tinto raro. Eu tinha muita curiosidade e vontade de saber tudo! Afinal, um dos motivos da minha ida para a Suíça fora aprender o máximo possível sobre hotelaria.

Aprendia rápido. Mais uma vez, acredito que o fato de ter frequentado com assiduidade hotéis e restaurantes de bom nível, quando engajada na Arara-Export, ajudou muito. Eu já possuía uma ideia de como um cliente gostaria de ser tratado. A parte prática, como carregar três pratos, de que lado os servir e de que lado os tirar, quantos e quais talheres, assim como outros detalhes, era simples. Pura rotina. Eu, que sempre sorria, com meu semblante latino, minha estatura mignon e meu sotaque, era querida pelos clientes.

O time da cozinha era composto por um chef colérico italiano, homem grande e corpulento, que, quando as coisas não funcionavam como ele desejava, xingava alto e atirava panelas, frigideiras ou colheres de pau – o que tivesse na mão naquela hora – pela cozinha. Ao seu lado, o lindo, jovem e muito vaidoso cozinheiro Luigi, também italiano, com seu cabelo engomado e avental sempre impecável, sempre muito calmo. Completando o time na cozinha, dois portugueses simpáticos e sempre prontos a ajudar a todos. Foi um deles que se prontificou a carregar minha mala, quando cheguei a Astano (“Trocando de roupa no trem italiano”).

Estava muito bem em Astano. Pela primeira vez na minha vida sentia leveza de ser. Fazia um trabalho cansativo, mas descomplicado e divertido. Tinha um quartinho simples, mas aconchegante. Boa alimentação de graça, colegas gentis e nenhum problema! Nada de preocupações ao fechar a porta do restaurante e ir para meus cômodos particulares. Encostava a cabeça no travesseiro e não pensava em problemas – dormia e sonhava, acordando cheia de vida na manhã seguinte!

Foi o tempo que mais li na vida. Também em italiano, para aprender essa língua que aprendi a amar. Também retomei a atividade física que mais gosto: musculação. Com pesos emprestados e exercícios feitos dentro do meu quartinho. Aprendi que todo lugar pode se transformar em uma academia. Basta termos vontade – vontade de verdade.

Até que… Duas semanas após minha chegada, recebi a primeira carta do Carioca, me despertando para minha realidade: havia ainda alguém do outro lado do grande oceano, alguém que me amava e por quem eu me sentia responsável. A partir daí as cartas passaram a chegar diariamente, e eram longas, com quatro ou mais páginas! Imagine você, Carioca escrevia todos os dias! Palavras de saudade, de tristeza, de esperança, cobrando meus esforços para que ele também viesse. E cheias de erros de português. Pena que numa de minhas recentes mudanças eu tenha jogado todas fora, caso contrário, mostraria para você.

A dona do restaurante

Da mesma forma que senti uma certa alegria ao receber a primeira, a segunda e a terceira carta, comecei a sentir um peso enorme ao sabê-lo assim, tão perdido e saudoso. Comecei a me informar sobre a possibilidade de um emprego ali na região para o Carioca, mas logo foram tomadas minhas esperanças: brasileiro sem qualificação na Suíça, só ilegal. Conversei com Alberto e com Lorena sobre o assunto, que me proibiram de abrigar uma pessoa ilegalmente na casa dos funcionários, onde eu habitava.

Eu já não conseguia responder todas as cartas do Carioca. Me perdia nas respostas, tantas eram as perguntas. O assunto girava sempre em torno de sua vinda, eu sentia pela sua escrita que ele fumava muito, mesmo porque algumas cartas tinham manchas de queimadura. Carioca estava com dor-de-dentes, tinha que tratá-los com urgência. Mas, cadê dinheiro?

Numa carta daquela minha amiga de Joao Pessoa fiquei sabendo que Carioca batera o carro, o Prêmio vermelho. Batida feia, muito estrago, sem ter se machucado gravemente. Carioca não me contou isto em suas cartas. Também não me contou que havia trocado o Prêmio batido por um Buggie velho…

Assim, meu amor por ele foi dando lugar a um grande medo. Medo de trazê-lo, achava arriscado demais. E se ele começasse a se envolver com drogas, estando ilegal na Suíça? Comecei a não responder as cartas. Passava dias sem escrever, no início. Depois semanas.

Os meses passavam e eu me sentia cada vez melhor na nova vida. Quase não tinha gastos, via o envelope onde guardava o dinheiro que ganhava ficar cada vez mais gordo. Ganhava muita, mas muita gorjeta. Em francos suíços, na época, a moeda mais forte da Europa.

Estava me saindo tão bem como garçonete, que fui designada a substituir o maitre, quando este tinha folga. Como gostava desses dias! Fazer as vontades dos clientes, dar a eles o máximo de aconchego, ser o elo entre eles e a cozinha, vê-los indo para casa com um semblante feliz, agradecidos, era o máximo para mim. Muitas vezes, para satisfazer os desejos dos clientes, eram necessárias brigas com o chef cozinheiro, mas, como eu vendia muito, acabei me tornando a predileta de Alberto, que me defendia perante a todos.

Uma vida alegre, simples e descomplicada com uma grande sombra: Carioca. O que fazer? Trazê-lo? Afinal, tínhamos um plano de vida juntos! O que eu ganhava daria para alugar um quartinho para ele. E uma vez lá, ele poderia fazer bicos aqui e acolá. Mas… não falava italiano, o que eu estava aprendendo muito rapidamente! Ele provavelmente também aprenderia rápido. O que você faria? Deixe sua resposta nos comentários e venha ver no próximo capítulo o que se sucedeu. Vou adorar ver você aqui novamente comigo. E… Obrigada por me acompanhar aqui.

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13 comentários
  1. Eu heim… Carioca que nada…
    A gente tem que amar e ser feliz.
    Falo isso hoje, já madura.
    Mas engoli muito sapo por causa de homem!
    Adorando a história!
    Bjo no seu coração ❤

  2. Com certeza a vida da muitas voltas e é um eterno aprendizado. Você é demais!!
    Obrigada por compartilhar sua história de vida e nos proporcionar esses textos maravilhosos ❤

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