Enquanto esperava, sentada na calçada em frente à única casinha telefônica de Baía Formosa, que a ligação para o Reto Hammerstein fosse feita, meu coração batia forte. (“Não basta um amor e uma cabana”) Em minutos passou na minha mente, como um filme, tudo o que vivera até hoje…

Minha infância caótica e difícil com minha família, meu pai completamente inexistente, inquieto e de uma certa forma irresponsável com relação à família. Minha humilde mãe, submissa aos desejos do meu pai, muito carinhosa, mas sem instrução suficiente para passar para os filhos, para que tivessem um futuro melhor que o dela.

Minha ida aos 16 para a casa da tia alemã no Rio de Janeiro, aos 22 a ida para Alemanha, aos 25 a volta para São Paulo. As desilusões com os homens, a falta de amigos, a solidão. A chance de uma carreira de sucesso como agente de exportação/importação jogada fora aos 28, na busca de paz, de amor. O que achava ter encontrado em Baía Formosa, onde vivia há quase três anos – estava agora com 31 anos.

Suíça

Entendi então que toda mudança de vida, todo novo começo, implica uma troca. E que tudo tem um preço. Ficou claro para mim, naquele momento, que muitas vezes deixamos de ver o lado bom de uma situação, para focarmos somente no que nos falta. Assim, deixamos de valorizar o que temos, o que pode gerar grande insatisfação.

Uma insatisfação que tende a ficar insuportável, pois entramos em uma espécie de túnel, onde não olhamos para os lados, para ver o bom que nos rodeia, tendo em mente somente aquilo que não temos. É como se entrássemos em transe! Assim, jogamos tudo para o alto, sem ponderar o preço que teremos que pagar por este ato. Desta vez, não. Desta vez decidi não jogar tudo para o alto, mas sim lutar tentando ter uma vida agradável junto a este homem que tanto me amava, o Carioca.

“Susanne, venha!” gritou a telefonista. Corri para a cabine, minhas mãos trêmulas tiraram o fone do gancho. Com a voz espremida na minha garganta apertada, disse: “Alô. Reto?” “Susanne, que maravilha ouvir você!” respondeu Reto, com aquela sua tonalidade de voz alegre e positiva que ainda tinha bem claro na minha lembrança. “Como você está? Onde está? Conta tudo! Que surpresa seu telefonema, tem um motivo especial? Me diz que você vai voltar para a gente! Quer que eu te ligue de volta? Fica mais barato, podemos falar mais tempo.”

Não consegui conter as lágrimas, soluçava forte ao telefone. Entre soluços disse o número da casinha telefônica para Reto, que iria retornar a ligação imediatamente. Saí da cabine como que em transe, soluçando alto, próxima a um colapso nervoso. Alguém de ofereceu um copo de água com açúcar. Nem vi a pessoa, só a mão que me oferecera a água, que tomei em goles grandes.

Suíça

Agradeci a Deus o fato de Reto ter esperado algum tempo antes de me ligar de volta, e me perguntei se ele havia percebido que eu precisava me acalmar. Quando o telefone tocou novamente e sou chamada a ir à cabine, estava já bem mais tranquila.

“Reto”, disse sem perder tempo, “preciso de seu conselho. E de sua ajuda. Não, eu não quero voltar para São Paulo, o que quero é ir com meu namorado para a Suíça. Queremos trabalhar lá em um hotel, ou restaurante. Isso durante uns três anos, queremos juntar dinheiro e voltar para cá. Comprar então um terreno na beira da praia e fazer uma pousada, a nossa pousada.”

Sem ter dado tempo a ele para responder de imediato, contei um resumo do que havia se passado naqueles últimos quase três anos, obviamente não mencionando o vício do Carioca. Reto escutou pacientemente. “O que você acha?” perguntei, morrendo de receio de não ouvir a resposta que esperava, precisava, queria ouvir.

“Seu plano parece bom. Meu melhor amigo, amigo de infância mesmo, o qual visito todos os anos, tem um hotel muito bacana na região onde nasci. Fica na parte italiana da Suíça. Sei que nesta época do ano está sempre procurando funcionários e com frequência reclama que está cada vez mais difícil achar bons empregados. Vou ligar para ele e perguntar. Mais que isso não posso fazer, não entendo nada deste negócio de hotelaria, mas sei que tem muito estrangeiro na Suíça trabalhando neste ramo. Que esteja claro que vocês vão ter que trabalhar duro, talvez na cozinha, ou fazendo limpeza nos quartos. Você, que fala alemão e inglês, talvez consiga uma colocação como garçonete. Vai querer fazer isto? E seu namorado?”

“Claro”, respondi de imediato. Reto ficou de me ligar assim que tivesse alguma resposta do tal amigo. Nem perguntei como ele estava, se estava bem, como ia a empresa. Somente ao terminar a ligação me dei conta disto. Desci apressada para nossa casinha, onde Carioca me esperava na varanda, com os olhos avermelhados e aquele jeito lerdo que quem fumou um baseado.

Tanto Carioca, quanto eu, estávamos muito esperançosos de que nosso plano fosse dar certo. Reto, um homem viajado, bem-sucedido e com muita experiência, havia achado a ideia boa. Agora teríamos que esperar.

Falei sobre meu plano e contei também do telefonema com Reto para minha amiga de João Pessoa. Foi em conversa com ela que havia me surgido aquela ideia, pois ela me contara que havia trabalhado, anos atrás, em restaurantes na Suíça, recebendo muito bom salário e tendo pouca despesa. Ela tinha a cidadania francesa, assim como eu a alemã, o que facilitava tudo.

Dois dias se passaram desde o telefonema com Reto. No terceiro dia, já completamente impaciente, eis que o moleque de recados da telefônica descera correndo pela ladeira que leva à Praia da Cacimba, entrara na minha casa porta adentro sem pedir licença, dizendo quase sem fôlego: “Susanne, seu amigo gringo no telefone! Corre, vem, “mulé”! Joguei as fotos que estava separando para o lado e, descalça mesmo, corri junto com o menino morro acima.

Ao chegar na casinha, não precisei esperar muito e logo estou na cabine falando com Reto, que diz: “Meu amigo Alberto precisa urgentemente de uma garçonete. Você vai ser ‘commis de rang’”. Se você não sabe, esta é a função mais baixa dentro da hierarquia de uma equipe de serviço na gastronomia. Carregar pratos para aqui e acolá, nada mais. “Vão reabrir o restaurante depois da pausa invernal na próxima semana, você tem que estar lá semana que vem. Mas consegue, não consegue? Tem dinheiro para pagar a passagem? Se não tiver, eu te adianto, ele vai te reembolsar todos os custos com a viagem.”

Você acredita que eu, ao escrever tais linhas aqui fico toda arrepiada e meus olhos se enchem de lágrimas? Acredite. Foi emocionante! E acho muito interessante como as coisas às vezes se encaixam na vida da gente! Mas temos que nos mexer! E se eu não tivesse tido coragem de “enfiar o rabo entre as pernas”, deixar todo meu orgulho de lado e ter procurado o Reto? Nada disso teria acontecido!

Deixo aqui meu aprendizado para você: Quer algo? Corra atrás! Mesmo coisas que possam parecer absurdas podem se tornar realidade e oferecer chances de uma vida melhor! Quando eu falo em vida melhor, não falo só de dinheiro, bens materiais. Falo de paz, de serenidade, de plenitude, de satisfação e de amor. Tenha seu coração e sua mente abertos para as chances. Reconheça as chances. Mas sempre ponderando se você está disposto a realmente a pagar o preço da troca. Pois, como disse acima, TUDO tem seu preço!

Outro conhecimento: sempre haverá alguém disposto a ajudar! Vejo isto ainda hoje, com muita frequência, mesmo em situações corriqueiras do dia a dia. Procure, peça, aceite e agradeça a ajuda recebida. E, sempre que puder, como puder, ajude a quem precisar…

Ôpa! Vejo que nosso tempo acabou. Volte na próxima semana, vou te contar o que se sucedeu ao telefonema. O que você acha? Aceitei a oferta de emprego? Será que estive disposta a pagar o preço desta troca? E qual terá sido o preço? Se quiser, deixe sua resposta nos comentários e vem ver semana que vem se acertou…

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23 comentários
  1. Mais um texto que nos deixa curiosa … esperando pelas cenas do próximo capítulo. Cada dia seus textos ficam mais fluidos …parabéns!!!

  2. Querida vc é uma pessoa privilegiada, sabe tirar ensinamentos ao mesmo tempo que vive à vida ! Cada leitura te acho mais e mais interessante! Não perco o interesse em te seguir, manténs minha curiosidade acesa . Xerázade moderna. Beijos com carinho

    1. Obrigada, querida Mary. Você, que viu minha live no Conteiro, agora o que vem nunca foi contado. E é agora que a minha vida vai ficar ainda mais interessante, depois dos meus trinta. Esteja junto!

    1. Obrigada, Marinete! Pois é, a gente tem sempre que arregaçar as mangas e recomeçar, quando o presente estiver ruim. “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor.” Caubi Peixoto

      1. Não está sendo fácil. A gente “gosta” da zona de conforto, se acostuma, acha que é assim mesmo…
        Até o momento em que a tristeza adoece o corpo, aí o bicho pega…
        Precisei de um tempo, de me afastar de tudo.
        Passando uma temporada em São Paulo para refletir, ficar comigo mesmo e perto de quem me ama de verdade, meu filho.
        Bjo ❤

      1. Adorei!

        Excelente conselho dessa parte:

        “Deixo aqui meu aprendizado para você: Quer algo? Corra atrás! Mesmo coisas que possam parecer absurdas podem se tornar realidade e oferecer chances de uma vida melhor! Quando eu falo em vida melhor, não falo só de dinheiro, bens materiais. Falo de paz, de serenidade, de plenitude, de satisfação e de amor. Tenha seu coração e sua mente abertos para as chances. Reconheça as chances. Mas sempre ponderando se você está disposto a realmente a pagar o preço da troca. Pois, como disse acima, TUDO tem seu preço!”

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