São Paulo me ofereceu a ocupação mais interessante e mais bem remunerada que tive até hoje, junto com o suíço Reto Hammerstein, que se tornou um grande amigo. Amigo daquele bom mesmo, com o qual a gente pode contar nas horas mais difíceis. Hoje, aos 75 anos, continua sendo um homem cheio de charme, eterno gentleman.

Ele voltou para a Suíça alguns anos depois da minha saída da Arara-Export, empresa que hoje não existe mais. Nos vemos de vez em quando, o que só não acontece com mais frequência devido aos muitos quilômetros que nos separam. Mas, quando acontece de nos vermos, é como se nunca houvéssemos nos separado. Se você continuar me acompanhando por aqui, vai ver seu nome em muitas outras fases da minha vida.

Mas… o sucesso profissional não foi suficiente para que eu encontrasse a paz pessoal naquela cidade incrível. A solidão juntou-se com a eterna sensação de não pertencer, de não fazer parte, e meu coração doía. Assim, vi como única saída jogar o sensacional emprego para o alto e começar uma vida nova. Bem longe dali, no Nordeste do Brasil, em Baía Formosa, onde eu lembrava ter sido, quando criança, quase adolescente, tão feliz! (“O pulo do gato”).

Vivia agora em Baía Formosa já há quase três anos. O dinheiro que havia trazido de são Paulo já não existia mais, virei a fotógrafa oficial da cidade, (“Fotografando saí da miséria”) professora de inglês (“Aulas de inglês e gravidez não esperada”) e sofri um aborto (“A dor da perda”). Minha esperança de levar uma vida tranquila, no lugar que eu acreditava ser o paraíso, já estava se exaurindo, até abrirmos nossa Pousada da Praia.

Se você me acompanha aqui desde o início, já leu sobre essas passagens, mas, para quem me lê pela primeira vez, acho importante mencionar tais fatos e inserir os links dos respectivos episódios, assim todos podem reler, caso queiram.

Com a pousada, descobri minha real vocação: ser anfitriã. O fato de ter residido, com muita frequência, em hotéis de luxo, durante minha vida de yuppie em São Paulo, me fez captar o que agrada e o que é importante para os hóspedes. Sentia um imenso prazer em fazer da estadia deles na “minha casa” um período feliz, que ficasse guardado por muito tempo, com alegria, em suas lembranças.

Embora aquela simples choupana de pescador houvesse se tornado um lugar bastante especial, tendo passado os primeiros meses, percebi que eu queria mais. Eu queria oferecer – e ter eu mesma – mais conforto! Queria receber hóspedes em um ambiente mais requintado, viver uma vida mais segura e ganhar mais dinheiro, pois mal conseguíamos viver com o que a pousada gerava de lucro!

Começamos a cogitar a possibilidade de comprar um terreno! Girava o boato na cidade de que seria feito um novo loteamento na área depois da Praia do Pontal. Construiríamos a nossa própria pousada, sairíamos do aluguel e teríamos uma casa apropriada a receber hóspedes, com boas instalações. Fomos à prefeitura várias vezes, porém sem conseguir uma informação concreta. Mais tarde ficamos sabendo que sim, haveria o loteamento, mas tal já estava praticamente vendido para uma certa celebridade da cidade…

Víamos, dia a dia, a chance de construir nossa própria pousada diminuir. Para culminar, tivemos uma visita surpresa do dono da casinha que abrigava nossa pousada. Havia decidido vendê-la, pois percebera que a casa, agora tão pitoresca, tinha ganho muitos admiradores. Assim, muitos estavam interessados na compra. “Na, verdade, já está praticamente vendida, mas se vocês fizerem uma proposta melhor…”, disse.

Não conseguimos um empréstimo. Fomos a diversos bancos em Natal e João Pessoa, mas você pode imaginar que, sem um emprego certo, sem uma renda estável, não nos foi concedido um real sequer. Carioca até cortou o cabelo, vestia calça comprida, camisa e sapatos quando íamos a uma reunião, na intenção de passar boa impressão aos gerentes financeiros. De que nada adiantava. Seu semblante não negava: surfista, portanto maconheiro, portanto irresponsável.

Estávamos em fevereiro, fim de verão. O contrato de aluguel venceria em agosto. E agora, o que fazer? Eu já andava desiludida. Cansada, mesmo. Sentindo falta de uma vida com mais cultura, com conversas interessantes, com teatro, cinema e mais civilização. Cansada de ver o Carioca sempre às voltas com seu vício, tendo percebido que, assim, jamais iríamos conseguir sair daquela vida cheia de sacrifícios.

O lugar era lindíssimo, o amor dele por mim imenso, seu carinho, seus cuidados eram algo que jamais havia experimentado antes. Mas nem só de amor vivemos. Queremos segurança, queremos sentir poder dar uma vida estável para eventuais filhos. Já não sentia tristeza por ter perdido o bebê há alguns meses, sentia sim, alívio.

Evitava o contato com meus tios, minhas tias, aqueles que haviam me ajudado e me apoiado tanto no passado, para que eu pudesse sair daquela situação difícil na casa dos meus pais, quando adolescente. (“As muitas vidas de uma sessentona feliz”).

Me escondia mesmo dos que tinham sido responsáveis por eu ter aprendido uma profissão e várias línguas. Sentia remorso por ter jogado tudo para o alto, o trabalho e estudo de tantos anos, sacrifício feito por todos – não queria que eles me vissem assim: bicho-grilo, sem perspectivas, vivendo com um surfista fracassado, passando necessidades.

Havia feito amizade com uma mulher de João Pessoa, aquela que nos emprestara o dinheiro para abrirmos a pousada. Uma mulher culta, dona de uma pequena empresa bem-sucedida, com um marido trabalhador. Eles haviam comprado uma casa no topo do morro, com vista para toda a baía, onde passavam os finais de semana e as férias. Fizeram uma reforma completa e a casa se tornou uma das mais modernas e bonitas do lugar. Eu via nela o futuro que gostaria de ter, mas sabia que, se continuássemos a viver da forma em que vivíamos, não teríamos.

Em conversa com esta amiga, mulher viajada, falando várias línguas, numa das longas caminhadas que fazíamos pela praia, tive uma ideia que não saiu da minha cabeça por muito tempo.

Depois de muito relutar, ponderar, conversei com Carioca sobre a minha ideia. Ele ficou perplexo e ao mesmo tempo muito animado, já fazendo planos para o futuro. Conversamos muito sobre o tema, e, chegamos a conclusão de que esta era a nossa única chance. Juntei, mais uma vez, toda minha coragem e subi para a casinha onde ficava o único telefone do povoado. Pedi uma ligação para São Paulo, dei o número da Arara-Export, solicitando que chamassem o Sr. Reto Hammerstein ao telefone.

Estava imensamente excitada. Há três anos não me comunicara com ele. Como reagiria ao meu chamado? E como reagiria, quando ouvisse sobre meus planos? Me ajudaria?

Claro que vou te contar, mas não agora. Nosso tempo acabou. Mas quero dizer para você que, a partir deste episódio, contarei minha história em ordem cronológica. Tenho percebido, que ir e voltar no tempo, estava ficando confuso para alguns, talvez devido à pausa de uma semana entre um episódio e outro. Então, daqui por diante, teremos capítulos e não mais episódios… Te espero aqui, está bem?

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25 comentários
  1. O recurso do Flashback me agrada bastante. Muitas vezes a nossa cabeça funciona assim, repassamos um assunto do passado para reavaliar , quase uma terapia.
    Continuo com vc independente da ordem porque como leitor, tenho a impressão de que está contando só pra mim !!

    1. Não, não contei ainda o fim do relacionamento com o Carioca… Você está confundindo – talvez com o Saulo? E é por isso que a partir deste episódio vou contar sempre em ordem cronológica. Fica mais claro! Os pulos no tempo funcionam num livro, mas aqui não… Obrigada por estar sempre aqui e por perguntar. Fico feliz. Demonstra interesse…

    1. Pois é, querida. Mas algumas pessoas estão confundindo. Então achei que ir na ordem será melhor. Veja que agora está tudo redondinho, as histórias de encontraram. Não tem “buracos” no tempo. Espero que mesmo assim você continue gostando. Na minha opinião, o mais emocionante está por vir! Fica comigo! Beijo e obrigada!

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