Como disse no episódio anterior “Aulas de inglês e gravidez não esperada”, Deus escreve certo por linhas tortas. Deitada na cama de baixo de um dos muitos beliches daquele quarto de hospital enorme, bem iluminado pelo sol devido às grandes janelas, tentei chamar a enfermeira, mas minha voz ainda estava fraca demais para que ela pudesse me escutar. Ela saiu apressada do quarto.

Fiquei ali deitada, ainda muito sonolenta devido à anestesia que havia tomado, o que fiquei sabendo somente mais tarde, esperando que uma enfermeira entrasse novamente no quarto. Ouvia mulheres falando alto. Uma conversa veio parar, mesmo sem que eu tal quisesse, aos meus ouvidos: “Eu enfiei o cabo de vassoura e cutuquei bem fundo lá dentro, mesmo assim não consegui tirar a criança. Aí tomei aquele chá amargo que a véia do nosso bairro fez para mim. E vim parar aqui. Mas me livrei da criança. Mais filho não quero não, Deus o livre.”

A mulher, que estava deitada na cama de cima do meu beliche, virou sua cabeça para baixo, deu uma olhada para mim, como que querendo ver se eu estava ainda acordada. Vendo que estava, perguntou, curiosa: “E você? Como foi que você fez?” Só fui entender o sentido da pergunta algum tempo depois. Antes que eu pudesse responder, o que na verdade nem queria fazer, vi que entra no quarto uma enfermeira: “Enfermeira”, gritei o mais forte que pude, “Pode vir aqui um minutinho, por favor?”

Ela se aproxima, e diz com uma voz muito suave e calma “Ah! Acordou… Seu marido está lá fora te esperando, passou a noite na frente do pronto-socorro, não arredou o pé. Ele chorou muito, está muito triste com o que aconteceu. Daqui a pouco você vai poder sair daqui. Espere, vou chamar um médico para te dar alta.” Eu perguntei então a ela o que havia ocorrido e ela me explicou que eu havia perdido o bebê. Meu mundo desabou neste minuto e tive que conter as lágrimas. Na verdade, eu já esperava por isto, mas ouvir aquilo me tocou fundo.

Perda

Carioca estava sentado na escadaria do pronto-socorro, fumando um cigarro. A enfermeira me levou até a porta e o chamou em voz alta: “Moço, aqui está a sua mulher, sã e salva. Meio fraquinha ainda, mas daqui a pouco estará tudo normal. Ela sabe o que fazer, o doutor explicou tudo para ela.” Carioca correu ao meu encontro, me abraçou, me beijou. E chorava. Chorávamos juntos. Estávamos infinitamente tristes.

Em silêncio andamos devagarinho para o nosso carro, eu sempre sendo apoiada por aquele homem extremamente sensível, atencioso e carinhoso. Não falamos muito durante toda a viagem. De repente tudo ficara vazio, sem sentido, dolorido e triste, muito triste.

Chegamos ao estacionamento da Praia da Cacimba, que ficava ao lado da nossa casa, e a notícia que estávamos chegando já havia se espalhado, pois havíamos parado antes no mercadinho lá em cima, na vila. João, aquele menino com os pés avariados devido à poliomielite (contei sobre ele no episódio “Que seja aqui, tudo o que sonhares”), sua mãe, Dona Edmunda, Soninha e alguns surfistas amigos, todos estavam ali, nos esperando, querendo saber o que havia acontecido.

Os semblantes tristes deles mostravam que já estavam esperando o pior. Afinal, havíamos estado, antes de ir para Natal, no ambulatório da cidade e todos já sabiam o que havia se passado na noite anterior. Notícias deste tipo se espalhavam depressa em Baía Formosa, onde raramente acontecia algo fora da rotina.

O sol já ia se despedindo no horizonte, deixando tudo dourado, o que acentuava ainda mais aquele momento de tristeza e melancolia. Fomos para nossa casinha, onde logo me deitei, para acordar no dia seguinte e me perguntar: E agora? Que sentido tem tudo isto? Um grande vazio pairava no ar.

Na verdade, eu jamais havia pensado em ser mãe, em ter um filho. E quando fiquei sabendo estar grávida, me perguntei se era o momento certo. Me perguntei se era o homem certo. Mas deixei-me contaminar pela felicidade daquele futuro pai que me idolatrava como nunca havia sido amada e logo comecei a sentir um grande amor por aquele ser minúsculo que crescia dentro de mim. E que agora não existia mais. Assim, como que num passe de mágica, tudo mudara. A vida ficara com uma outra perspectiva. Aliás, ficara sem perspectiva. Pelo menos era o meu sentimento no momento.

Perda

Estávamos muito tristes, os dois. Quase não falávamos. Fazíamos passeios pela praia durante horas, sem falar, sem conversar. De mãos dadas, em silêncio. Não íamos mais no clube dançar nos finais de semana, como sempre fazíamos. A prancha de surf quieta encostada na parede. Estávamos de luto. E no luxo de poder ficar de luto, em Baía Formosa. Foram algumas semanas assim. Até que…

Cheguei à conclusão que Deus escreve mesmo certo por linhas tortas, quando vi que a geladeira e os armários da cozinha estavam vazios. Não tínhamos mais o que comer. E Carioca continuava fumando muita maconha. “Será mesmo para fugir da tristeza?”, me perguntei.

Fui à Prefeitura. Retomei as aulas de inglês. Comprei comida fiado na venda. E comecei a pensar que estava, novamente, vivendo a vida errada. E que o destino tinha tomado a decisão correta, não só para mim, mas para aquele ser que não chegou a nascer. Decidi que algo muito essencial teria que mudar. Pois alguma coisa muito profunda havia mudado em mim.

Porém, os cinco minutos de sua leitura terminam aqui. Reconsidere as coisas ruins que acontecem na sua vida. Mesmo se às vezes não possamos ver o lado positivo quando elas acontecem: quase todos os males vêm para o bem. E você vai entender isto, se continuar lendo minha história. Quer? Me diz lá nos comentários ali embaixo, me dá muito prazer escrever para você, sabe?

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19 comentários
  1. Eu sei o que foi a sua dor ! PerDi mEu primeiro filho com 3 meses de gestaÇão! É muito , mas muito triste ! Acho que só me recuperei mais rapido porque queria tEnTar de novo ! E um ano depois Ja estava gravida do meu filho que hoje tem 19 anos! Bjs

  2. Às vezes pensamos que o caminho vai ser esse, porém Deus escolhe outro bem diferente que não tem nada haver com o que nós escolhemos.

  3. Seu relato falou DIretamente comiGo tb perdi um bEbê em outra situação, Mas me fez lembrar da dor que senti e eu acrediTo que A geNte tem que ressigNiFIcAr o que nos acontece de ruim e entender que pode ter sido o melhor NaquelE momento.

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