A vida não é cor-de-rosa, ela nos atravessa e é selvagem. O sofrimento é real e permeia a nossa existência. Sua intensidade e sintomas vão depender da biografia de cada um na sua mais profunda individualidade. Não tem sobrenome, não pode ser comparado e muito menos invalida o sofrimento do outro. 

Janeiro Branco, mês da promoção da saúde mental. Quando o assunto é saúde mental, o que se fala é da doença, do rótulo. A depressão, a ansiedade, a síndrome do pânico, da gaiola, o burnout, a bipolaridade, o TOC, entre tantos outros. Mas do que eu quero falar aqui é da dor sem nome, anterior aos diagnósticos, aquela que aparece sem aviso, que é ignorada porque nunca “é nada”. Aquele sofrimento que nos tira dos eixos, que nos toma, aquele que não conhecemos, dores a princípio momentâneas.

Tentando evitar maiores angústias e buscando voltar ao humano que aprendemos a ser, acabamos por colocar tudo o que não conhecemos e não sabemos lidar para debaixo do tapete.  De repente esses momentos vão se tornando mais frequentes e, na maioria das vezes, se dão a partir de um gatilho não esperado. Depois, a doença se instala. O diagnóstico é dado e tem nome. As vezes ela se hospeda no corpo; a dor quando não cuidada é canalizada para algum lugar, sempre. 

Nesses últimos dois anos, que mais parecem um lapso no tempo, tivemos o grande gatilho da pandemia. Tudo saiu do lugar e a rotina, que muitas vezes nos coloca nos eixos, num primeiro momento inexistente, quebrou a possibilidade de o sofrimento ser ignorado ou evitado. Os males, agora nomeados, apareceram com mais frequência do que estávamos acostumados, saindo debaixo dos nossos tapetes mentais, nus e crus, e deixando claro como o mundo contemporâneo está doente.

Mas, do outro lado da moeda, existem recursos riquíssimos que podem ajudar em momentos de dor. Destaco aqui o processo terapêutico que, a meu ver, ainda é um recurso pouco considerado. Se busco terapia admito, primeiro para mim mesmo, depois para o outro, que tem alguma coisa fora do lugar, que a vida não é cor-de-rosa. E a grandeza do processo começa justamente em admitir que o super-homem não existe e que não preciso dar conta de tudo e de todos sozinho.

De modo geral, no processo terapêutico, independentemente da linha de trabalho, o paciente mostra para o terapeuta um recorte da sua vida, da maneira como ele a vê e a sente. O terapeuta, no seu papel, o acolhe, valida sua dor, o ajuda a reconhecer e acessar suas forças, estabelecendo a autoconfiança perdida para que ele ande com suas próprias pernas e construa a sua vida com mais leveza. Afinal, da ferida cuidada, pode brotar uma linda flor. 

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