A primeira vez que ouvi a expressão stonewalled (em português algo como “ser atingido(a) por um muro de pedra”) não compreendi logo de cara o seu mecanismo. “Como evitar que o stonewalling destrua os nossos relacionamentos…” perguntava interessado o entrevistador, me fazendo visualizar apenas uma ação deliberada e unilateral de agressividade silenciosa. A recusa do argumento erguida. E isso eu conheço muito bem.

Mas essa imagem – apesar da pista sobre o significado real do termo badalado – era obviamente parcial e tendenciosa porque eu também já havia sofrido na pele os efeitos colaterais de uma geladeira emocional. Sentido as dores de ter a voz ignorada. Só não percebia que estar quase sempre de um dos lados do muro não me impediria de erguer os meus próprios, ser algoz não por crueldade, mas pura covardia, incapaz de enfrentar abertamente alguns conflitos num looping alimentado quem sabe pelo trauma que me carregou com as mesmas armas que tanto critiquei durante a minha vida. Mea culpa.   

“Bloqueio de uma discussão através da recusa em responder o outro ou fazê-lo argumentar” é a definição do Cambridge Dictionary. A destruição da ponte. Intencional.

Quebrar a segurança da comunicação tem o poder de adoecer o relacionamento e principalmente a pessoa que está sendo tolhida na sua necessidade de parceria e acolhimento. Poucas coisas nos desestabilizam mais do que a invalidação ou perda do direito à palavra. Parar de responder abruptamente, virar as costas quando o outro está falando, recusar responder perguntas, fingir não ouvir, revirar os olhos. Estivemos todos- de um jeito ou de outro- nesse lugar ruim.

O silêncio só é sagrado quando gozamos na sua e da sua companhia. Qualquer outro uso, arbitrário, narcisista, manipulador, na minha opinião, não será nunca sobre afeto. É punição. Pedra sobre pedra.  

Então porque continuamos sutilmente (e aqui eu me incluo) aceitando e perpetuando a construção dessas monstruosidades? Preguiça de um confronto honesto? Ou o buraco é mais embaixo, manipulador do privilégio da tranquilidade que achamos ter conquistado?

Somos sábios ou reféns?

Um pouco dos dois. Sabemos a tarefa exaustiva e custosa que é ficar procurando o fio da meada depois da ruptura, preciosos do nosso tempo, da nossa paz, do medo da fragilidade das nossas fraquezas.   

Onde estará afinal o Santo Graal da integridade do verdadeiro diálogo?

Talvez naquele primeiro bloco que não deveríamos ter deixado subir, menosprezado do seu poder transformador. É dele toda a culpa.    

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2 comentários
  1. Quantas vezes fui refém e algoz do stonewalling. Em sua maioria achando que estava evitando problemas, que certamante em algum momento explodiria em angústia e tristeza. Hoje prefiro não fugir, mesmo correndo o risco de meus argumentos não serem compreendidos, pois percebi que o silêncio faz morrer a vontade de estar junto. A admiração pelo outro necessariamente passa por entender , mesmo que não concordando, o ponto de vista contrário.

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