Os dias passavam devagar em Baía Formosa. Era o meu primeiro inverno na praia, e o paraíso ficara como que abandonado, quieto, o mar cor de chumbo, pedras enormes haviam saído como que por mágica daquela água salgada e mostravam sombras monstruosas à noite. A temperatura ambiente caíra, e chovia com frequência. Uma chuva forte, morna, que aplainava as ondas e deixava os surfistas entediados na areia. Eu gostava desse ambiente quieto e calmo, sem muita gente na praia.

Vender fotos nos fins de semana já não era então possível, nem fotografar. Afinal, eram sempre as mesmas pessoas e elas já não ficavam fascinadas em ver-se estampadas em papel brilhante. Ganhar dinheiro tornou-se um desafio, depois que a empresa de peixes de Natal, onde eu trabalhava, faliu. (Lembra? Contei sobre isso no episódio “Fotografando saí da miséria”.)

Carioca pescava na jangada construída por ele mesmo. Essa jangada era na verdade um casco feito de tábuas de madeira com recheio de isopor e, portanto, muito segura, impossível afundar. Algumas vezes íamos nós dois sozinhos pelo mar adentro, longe da orla, onde a água do mar se vestia de um azul muito profundo. Tudo era azul, por onde olhávamos. E nós dois na jangada. Nesse momento ficava claro como somos seres pequenos… sozinhos no meio do oceano, em cima de umas tábuas flutuantes. Uma mistura de medo, respeito e devoção tomava conta de nossa alma ao sentirmos tão intensamente a grandeza e força da natureza e confirmar como pequenos e fracos somos nós, os humanos.

Os peixes pescados, raros. Resolvemos usar os últimos cruzeiros que nos restavam para comprar peixes e lagostas e revendê-los em restaurantes em Joao Pessoa. Seria um excelente negócio, o Carioca calculou com cuidado nosso lucro. E lá fomos nós, com o porta-malas do Fiat vermelho cheio de peixes e lagostas frescas em caixas de isopor rumo aquela cidade. Batíamos às portas de restaurantes, mas a venda se mostrou difícil. Isso devido ao fato de não podermos fazer notas fiscais para os clientes, que, apoiados por esse fato, baixavam o preço que estariam dispostos a pagar a um mínimo absurdo. No final do dia nos rendemos e vendemos tudo sem lucro, às vezes até mesmo com prejuízo, pois não podíamos correr o risco de que nossa mercadoria estragasse no calor. Mais uma ideia que não deu certo.

Para me ocupar, comecei a dar aulas de inglês à noitinha, na escola da cidade. Ganhava uma quantia simbólica, mas era melhor que nada. Além disso eu tentava, dessa forma, criar uma imagem positiva perante os políticos locais. Circulava a notícia de que seria feito um loteamento na praia que ia em direção ao Sagi, e esses lotes seriam doados ou vendidos por um preço muito baixo. Na escola, as classes eram imensas, com alunos de todas as idades, muitos deles sem a menor vontade de aprender. Para dificultar o trabalho dos professores, não havia livros. Os alunos não possuíam livros! Para melhorar a qualidade das minhas aulas, pedi permissão ao prefeito para fazer cópias xerox de páginas dos meus livros. Essas eu distribuía para os alunos.

Motivo pelo qual fiquei atônita ao perceber o empenho da prefeitura com os preparativos para os festejos do dia 7 de setembro, feriado nacional: cada aluno ganharia do governo uma vestimenta completa, de sapatos à chapéu e bastões coloridos de verde-amarelo, que usaria na parada da cidade! Não podia entender o fato de que os estudantes não possuíam livros, mas ganhariam uma fantasia que seria usada uma só vez! Pensei: com esse dinheiro, poderiam ter sido comprados livros, livros que duram uma vida, caso tratados com cuidado. Mas livros não eram objetos de paixão –roupa bonita, sim.

Quero nesse momento, contar para você como funciona aqui na Alemanha: os alunos não compram livros. Eles são cedidos pela escola no início das aulas para cada aluno e estes os devolvem no final do ano letivo. E os alunos devolvem! É uma questão de honra, devolver os livros nas mesmas condições recebidas.

Alguns alunos se interessaram por ter aulas particulares de inglês comigo, o que trazia ainda algum dinheiro para as despesas. E eu gostava muito de dar essas aulas! Dois de meus alunos me acharam no Instagram desde que estou escrevendo aqui minha história e um deles me manda desde então regularmente fotos e vídeos de Baía Formosa e de pessoas que ainda lembram-se de mim, enchendo meu coração de felicidade. Obrigada, Clériston. Como vai o seu inglês?

O tempo passa e notei que não menstruava. Nunca prestei muita atenção ao meu ciclo menstrual. Nunca sentia dores ou tensão pré-menstrual. Minhas regras vinham e iam, passavam quase que despercebidas. Mas noto que há muito não menstruo. Grávida? Será? Sim, eu tomava pílula anticoncepcional, mas assim como não prestava atenção ao meu ciclo, também esquecia as vezes de tomar a pílula… Náuseas, enjoos? Nada disso. Decidimos ir a uma médica em Natal. Sim, eu estava grávida há quase três meses.

Grande alegria! O Carioca chorou de felicidade ao saber que iria ser pai e eu me deixei contagiar. Sim, estávamos muito felizes. A partir de agora eu era tratada com mais carinho ainda, como se fosse de porcelana. Nada de pegar peso. Nada de fazer esforços. Eu me sentia como sempre, achava até estranho, ter um ser crescendo dentro de mim e não sentir nenhuma diferença, a não ser os meus peitos, que já não queriam caber mais dentro dos biquinis mínimos que usava.

Até que um dia, senti um ardor na vulva, uma irritação. Fomos novamente à médica, que receitou uns óvulos para introduzir na vagina à noite. Compramos o remédio e voltamos para Baía Formosa. À noite, já na cama, de acordo com as instruções, introduzo o óvulo no meu corpo e adormeço, para acordar poucas horas mais tarde com dores imensas no baixo ventre e sangrando coágulos enormes! Corremos para o pronto-socorro do povoado. Deitei-me sentindo dores enormes numa cama com manchas de sangue do paciente anterior. A enfermeira de plantão dissera que não poderia fazer nada, que teríamos que correr para Natal. Feito.

Chegamos ao hospital em Natal e num corre-corre enorme, levaram-me para uma cabine onde fiquei deitada esperando ser atendida, quase já fora de mim, de tão debilitada. Carioca não teve permissão para entrar comigo. Não tínhamos seguro saúde, tudo aconteceu no pronto-socorro do hospital público. Eu estava sentindo dores insuportáveis! Foi um entra-e-sai de médicos, que enfiavam seu dedo na minha vagina, examinando o meu estado. Faziam comentários em uma conversa científica, e eu não entendia nada e sequer estava em condições para perguntar qualquer coisa. Hoje eu acredito que eram estudantes, usando o meu caso para aprenderem mais. Então, perdi os sentidos.

Acordei com um raio de sol batendo no meu rosto, num quarto grande com janelas enormes e muitas camas beliche. Ouvia conversas entre mulheres, via vultos brancos andando apressados pelo quarto, percebi que eram enfermeiras. Levei um tempo até relembrar o que aconteceu e realizar onde estava. Mas, na verdade, não sabia ainda o que realmente acontecera. Sem levantar-me da cama, acenei com a mão, “enfermeira, por favor, pode vir aqui um momentinho?”, chamei, mas minha voz ainda não soava forte suficiente.

Deus escreve certo por linhas tortas. Vou te contar as consequências daquela noite de uma próxima vez. Vai querer saber? Você sabe que ali embaixo tem um espacinho para sua resposta… Seu comentário é meu “combustível” para ir adiante com esse meu projeto de escrever. Um beijo de agradecimento por “me” ler.

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31 comentários
  1. Susanne,

    Relato digno de um roteiro cinematográfico. Li com gosto de quero mais! Muito interessante você ter colocado essa discrepância sobre a distribuição (não) de livros. Infelizmente a realidade brasileira é essa: não há muito incentivo! Gostei de saber como esse processo é feito na Alemanha, principalmente a questão do dever e honra em devolver os livros.
    Confesso que achei o relato da gravidez e dos problemas no hospital bem forte. Tenho certeza que o próximo texto será uma lição de que Deus escreve certo por linhas tortas.

    Abraço!

    1. Obrigada, Gláucia, pElos elogios. Espero continuar mereceNdo. Eu gosto às vezes de contar como as coisas fuNcionam aqui na alemanha e como podem ser diferentes (mesmo que Nem srmpre melhores). Pois sei que muitos de meus leitores talvez nuncam tenham a oprtunidade de vivenciar este mundo aqui.

      Sim. A vida às vezes tem momentos Onde precisamos ser fortes…

    1. Sim. Eu fiquei super feliz em ter sido contatada pelos meus ex-alunos, mesmo que a experiencia de ter sido pRofessora tenha sIdo curta. Uma Linda profissao. Parabéns!

    1. Contei no episódio anterior o desfecho do romance com o alemÃo, volte lá, querida. E sobre o carioca, vai leNdo, vai lEndo… fOtOs? Meio cOmplicado postar… Bom te ver por aqui.

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