Já te contei antes, que aos 28 anos fui morar numa linda praia com um surfista – (veja o episódio “Que seja aqui, tudo o que sonhares…”) e que estava amando aquela vida sem compromissos, livre, leve e solta. Tanto o Carioca como eu não trabalhávamos, vivíamos com o que eu havia economizado durante os últimos anos em São Paulo, que não era muito, pois, na verdade, eu nunca soube lidar muito bem com dinheiro. Não só por essa razão, mas também por nossa própria escolha, vivíamos um estilo de vida muito simples.

Quando viajávamos, o que fizemos com frequência no primeiro ano juntos: enchíamos o tanque do meu Fiat de gasolina, enfiávamos no porta-malas nossas mochilas com pouquíssimas roupas, duas redes. Com o mapa da 4Rodas na mão e um destino mais ou menos certo, lá íamos nós, estrada afora.

Comíamos sempre em restaurantes muito simples, na maioria em beira de rodovias ou de alguma praia. Dividíamos aqueles pratos-feitos enormes, peixe frito com arroz, feijão, pirão e salada de tomate. Para dormir, cuidávamos para que sempre estivéssemos em cidadezinhas praianas e pendurávamos nossas redes nas varandas das casas vazias de veraneio. Nossa toilette matinal nós fazíamos nas torneiras que existiam nos jardins dessas casas. Era bem prático.

Às manhãs, a pedida era um pãozinho na chapa, ou com ovo, no barzinho ou padaria da esquina, ou mesmo mangas ou cajus, o que encontrássemos onde estivéssemos. Os dias passávamos conhecendo a redondeza, conversando com as pessoas nativas, passeando pelas orlas, andando pelas matas, tomando banhos nas cachoeiras. Carioca surfando, eu tomando sol. E fotografando. Tudo. Que maravilha, você há de dizer. Sim, um sonho. Uma aventura, que não quero negar, amei viver. Mas…

Chega um dia em que o dinheiro acaba. E acaba mesmo! Nem um centavo mais na minha conta bancária. E aí? Aí não se viaja mais. Aí você se lembra daquilo que foi impregnado na sua mente a sua vida toda de mulher: quem tem a obrigação de sustentar a família é o homem. O que fazer num povoado de pescadores? Pescar? O Carioca tentou. Mas ele gastava mais tempo costurando as redes rasgadas enquanto fumava um baseado do que vendendo os pouquíssimos peixes – tão poucos, que na maioria das vezes era suficiente para matar a nossa fome.

O lugar era – e ainda é – um paraíso para surfistas. Talvez… organizar campeonatos de surf patrocinados por marcas de pranchas e acessórios? O Carioca tentou. Mas aquele pico ainda era desconhecido demais e não houve jeito de convencer um patrocinador sequer a investir grande montante de dinheiro no projeto. Mais um fracasso.

Fotografando

Minha mãe foi visitar-nos uma vez na nossa casinha na praia: “Esse rapaz é um doce com você, muito carinhoso e atencioso, minha filha. Mas trabalho duro não é com ele não…” Realmente, o carinho com o qual fui tratada não se repetiu mais na minha vida: Carioca lavava meus cabelos, escovava-os, fazia minhas unhas dos pés, das mãos, me massageava, ensaboava minhas costas no banho. E cozinhava. Até aquela data (e durante muito tempo ainda no futuro) eu não sabia fritar um ovo sequer. Pois até hoje não havia tido necessidade disso: sempre que morei sozinha tinha dinheiro suficiente e sempre me dava o luxo de comer fora. Detalhe à parte.

Verdade era, que o Carioca não tinha a habilidade de trazer dinheiro para casa! Houve até a ideia de fazer algo rentável, mas ilegal, e por isso não entrarei em detalhes. E isso eu não quis de forma alguma! Nessa altura, eu já estava há mais ou menos um ano com ele no paraíso. Falida, mas feliz. E aí, o que fazer? Arregacei as mangas e ativei a criatividade. Foi quando a minha máquina fotográfica nos salvou da miséria!

Durante os fins de semana, eu fotografava moças vaidosas na praia, surfistas mais ou menos craques pegando ondas, crianças fofas brincando na areia, enfim, todos que me permitissem apertar o botão de disparo. No início da semana, eu viajava para Natal e mandava revelar as fotos. No fim de semana seguinte, eu andava novamente pela praia, e além de fotografar, eu mostrava as fotos prontas às pessoas.

Fotografando

Elas ficavam assim como que deslumbradas por verem suas imagens coloridas imprimidas em papel brilhante e pagavam sem pestanejar o preço que eu cobrava pelas fotografias. A novidade se espalhou depressa e logo comecei a ser convidada para fotografar casamentos, batizados, aniversários, festas e eventos no povoado. Devo mencionar que a única máquina fotográfica existente em Baía Formosa na época era a minha! O negócio ia bem, até que um dia…

O Carioca fez uma viagem à Natal sozinho, para mandar revelar as fotos e como ele queria visitar um amigo do qual eu não gostava, não fui com ele. Eis que ele volta com o Fiat com a parte da frente completamente amassada e sem um farol. Ele havia se envolvido num acidente. Mesmo não tendo sido culpado, como ele não possuía carteira de motorista válida, teve que abdicar de que a polícia fosse envolvida.

E assim estávamos lá, com um carro imprestável. O conserto do carro iria ficar caro. Os dias se passavam e eu via a ferrugem comer rapidamente as partes estragadas da carroceria. Comprei o jornal de Natal e vi lá uma empresa de pesca e exportação de atum procurando uma secretária bilingue português-inglês. Não tive dúvidas: me apresentei e fui aceita para começar imediatamente.

E foi assim que o paraíso foi perdendo o brilho inicial: nas segundas-feiras pela manhã eu viajava de ônibus para Natal, onde ficava sozinha até sexta-feira à noite, morando numa pensão de baixo-custo, suja, mas a única que eu tinha condições de pagar. Às vezes eu não conseguia dormir com medo das baratas, pois havia acordado algumas vezes com alguma delas passeando sobre meu rosto.

Durante o dia trabalhava naquele escritório imundo no porto pesqueiro, fazendo um trabalho que não gostava. Isso era a vida que eu sonhei ter? Não. E o Carioca? Ele continuava pescando no mar de Baía Formosa os peixes que faziam questão de não cair nas suas redes e para se acalmar e sobreviver à saudade que sentia de mim, fumava maconha, quando ganhava de algum amigo…

Depois de três meses trabalhando como secretária, pude mandar consertar o carro. E dois meses depois, a empresa de pesca de atum fechou as suas portas, faliu. Fim das minhas noites com baratas. Fim das minhas semanas em Natal. Foi então que eu tive a minha melhor ideia: junto com o Carioca, abriríamos uma pousada – a primeira na beira da praia de Baía Formosa! Quer saber no que deu esse projeto? Vou te contar de uma próxima vez.

As fotos aqui expostas foram gentilmente cedidas pela modelo, @criscandidoaraujo – que foi fotografada por mim na época. Obrigada, Cris!

Em tempo: ali embaixo tem um espaço para comentários. Você pode me apoiar nesse projeto, escrevendo se gostou do que leu e se quer ler mais. Eu agradeço.

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47 comentários
  1. Gente adorei ler mais uma historia com o carioca. E ja quero saber Sobre a pousada. Voce seguiu fotografando ou foi algo passageiro? Quanto aprendizado! Aguardando Pela historia da pousada.

    1. Sim. A cacimba é muito especial para mim. Um lugar mÁgico! Obrigada por me ler, por comEntAr. Um dia volto! Ah!, se volto!

  2. Nossa que top, meu noivo tem um SONHO assim, kkk de pega o carro eu e ele e sumir no mundo kkkk confesso que eu gostaria mto, mas tenho medo 🤣🤣 mas quem sabe um dia. Já ESTOU ANCIOSA PRO próximo capítulo .

  3. Cada capítulo um aprendizado, uma reflexão sobre as escolhas que fazemos durante a nossa vida. Te parabeni-zo Susanne por toda coragem, força e determinação.
    Com relação as fotos cedidas, eu que agradeço pela oportunidade que tive de ser registrada pelo seu olhar fotográfico. Beijos! Seja feliz!

    1. Quando vi suas fotos viajei no tempo! Muito bom ter encontrado voce novamente. A menina Virou mulher. Obrigada por me ler e comentar.

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