Éramos por volta de 15 passageiros, não me lembro mais ao certo, naquele navio cargueiro polonês, velho e enferrujado, que deixou o porto de Hamburgo em direção à América do Sul (“Todos a bordo”). Existem pessoas que passam na nossa vida sem deixar marcas. E outras, não esqueceremos jamais. Como é o caso daquela senhora alemã, uma passageira do navio, a Helga.

Souvenir
Helga

Helga, alta, magra, beirando seus 80 anos, com um rosto cinzento muito cheio de rugas e quase sempre com um cigarro na mão. Helga desembarcaria em Angra dos Reis. Estava indo ao encontro de seu ex-marido, um brasileiro do qual ela havia se divorciado há muitos anos, quando ainda morava no Brasil.

Haviam começado a se corresponder novamente e a chama do amor antigo parecia renovada. Talvez… tentassem de novo uma relação, agora, nos últimos anos que lhes restavam. “Para não morrermos sós”, ela disse.

Helga cantava. Helga cantava “Lili Marleen” da Marlene Dietrich de forma lindíssima e “Rote Rosen” da Hildegard Knef divinamente. Desde então amo ainda mais essas canções. Você as conhece? Vale a pena. Adorava ouvi-la cantar. E cantava junto. Ficávamos horas, as duas, no convés, vendo a proa do navio cortar as ondas do mar e cantando.

Souvenir

Eu não deixava de fazer meus exercícios físicos, geralmente pela manhã, antes do café, que era servido até bem tarde. Minha máquina fotográfica ficava sempre em cima de uma das mesinhas do salão com livre acesso para todos, assim todos podiam fotografar. Quando mandei revelar os filmes, já em São Paulo, tive algumas surpresas ao ver certas fotografias, como a que mostra quando eu fazia ginástica no convés.

Marek, assim se chamava o marinheiro polonês que veio substituir nosso garçom que havia ficado doente. Foi como se a flecha do cupido tivesse acertado precisamente no meio dos nossos corações, quando ele entrou no salão para servir o jantar, naquela noite.

Souvenir

Vestindo uma camisa branca impecável, gravata borboleta preta, assim como uma calca com vincos perfeitos! Sapatos pretos de couro, que, de tão bem polidos, brilhavam concorrendo com o espelho que os raios da lua faziam da água do mar. Eu não sei se você é assim também, mas, a primeira coisa que eu olho em um homem, logo após o rosto, são os sapatos. Se não estiverem em ordem, esquece…

Logo desde o primeiro momento, Marek, que falava um pouquinho de inglês, foi muito atencioso comigo. Sempre querendo saber se estava tudo em ordem, se eu precisava de algo, sempre deixando doces na minha cabine. Nem sei mais como, só sei que alguns dias após aquele primeiro jantar estava ele lá, deitado nu na minha cama, de madrugada, fumando o cigarro do depois.

Souvenir

A partir de então, ele vinha me visitar todas as noites o mais cedo que podia, após seu turno de trabalho. Algumas vezes trazia uma garrafa de champanhe – coisa rara a bordo de navios cargueiros, principalmente poloneses, como ele me disse – e copas. Após saborearmos o conteúdo da garrafa, a jogávamos ao mar pela janela da cabine, assim como as copas, a fim de não deixar rastros do ato proibido. Muito provavelmente aquilo tudo teria sido surripiado da cozinha de bordo, mas tal fato não me interessava no momento.

A paixão entre nós ardia. Os outros passageiros pareciam desconfiados de que algo diferente estava acontecendo comigo. Eu já não ficava até tarde jogando com eles, ou cantando, ou dançando. Logo após o jantar, eu ia direto para minha cabine. Acredito que já sabiam do meu caso com Marek, embora não mencionassem nada. Até que…

Souvenir

Atravessávamos a linha do Equador. E, neste momento, de acordo com a tradição polonesa na época, os passageiros e marinheiros de primeira viagem tinham que ser “batizados”. Assim foi também conosco: Alguns marinheiros, vestidos de piratas, nos “raptaram” das nossas cabines e nos levaram ao convés. No convés, o capitão jogou um balde daquela água do mar gelada sobre a cabeça de cada um de nós. Uma verdadeira festa! Muito simples, mas muito alegre! Somente nessa cerimônia era permitido que toda a tripulação se encontrasse no convés dos passageiros.

Era madrugada, pouco antes de amanhecer. Foram servidas xícaras com cerveja quente com mel, bebida típica polonesa, com a intenção de nos aquecer do frio. Nós, cada um dos batizados, recebemos então, oficialmente, um diploma desenhado à mão pelos marinheiros de bordo, carimbado, lacrado à cera e assinado pelo capitão. Um diploma de que havíamos, pela primeira vez na vida, cruzado a linha do Equador a bordo de um navio!

Estávamos todos morrendo de frio, meio bêbados talvez e já pensando em voltar para nossas cabines, quando Marek se ajoelhou à minha frente e me perguntou se eu queria me casar com ele! Ali, assim, inesperadamente e perante a todos, que aplaudiam muito. O capitão esclareceu então que Marek havia falado com ele sobre o nosso amor e que ele estaria à disposição para fazer o casamento a bordo. Pois, devido às leis navais da época, ele teria autoridade para isto. “Casamento? Ah! Isso não…” pensei, “Vamos dar tempo ao tempo.” Tudo aquilo me parecia surreal.

Continuamos o nosso romance, continuamos tendo nossas noites de paixão. Já não nos encontrávamos somente à noite, mas também sempre que Marek tinha uma pausa, à tarde, quando tomávamos sol juntos no convés. Pois nosso romance não era mais escondido e proibido.

Foi numa tarde daquelas que Marek me trouxe um presente, cheio de orgulho de sua obra-prima: um peixe-voador devidamente embalsamado por ele, com as asas abertas e pregado numa tábua. Durante toda a viagem, muitos peixes-voadores desviavam-se das suas metas e aterrissavam no convés do navio, o que os levava à inevitável morte. Eu não sabia o que fazer com aquele peixe seco, que mal-cheirava. “Que lindo…”, foi tudo que saiu da minha boca. Na verdade, achei aquele presente bastante estranho…

Ao chegarmos no porto de Santos, meus pais já me esperavam. Marek teve muito pouco tempo para conversar com eles, pois tinha seu trabalho a cumprir. Mas fez questão de presentear minha mãe com caixas de chocolate polonês, uma garrafa de vodca e uma latinha de caviar. Como minha mãe não entendia inglês, ele repetia, a cada presente: “Souvenir, souvenir.”

A partir daquele dia Marek ganhou um apelido da minha mãe, que nunca conseguia se lembrar do seu nome: Souvenir. Ela achava tudo aquilo muito engraçado, hilário mesmo. Eu ficava chateada com ela, quando zombava do meu caso com o Marek. Ela o fazia de propósito e com aquele carinho típico de mães, brincando comigo. Tinha certeza de que aquele homem não tinha nada, mas nada em comum comigo e tal romance não passaria de uma aventura em um navio.

Souvenir seguiu sua viagem a bordo até Montevidéu, tendo jurado antes que me visitaria em São Paulo, na casa da minha mãe, quando o navio estivesse de volta ao porto de Santos, o que aconteceria dentro de umas duas semanas. Nós faríamos então planos para o nosso futuro juntos: ele ficaria em São Paulo comigo? Eu iria para a Polônia com ele?

O que você acha? O marinheiro polonês voltou? Ou será que eu nunca mais o vi? Escreva o que você acredita ter acontecido ali embaixo no espaço para comentários, estou curiosa. E, se quiser saber se acertou, leia o próximo episódio…

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23 comentários
  1. Eu acho que ele voltou e foi vc que sumiu.
    Muito legal os registros fotográficos ilustrando sua narrativa sempre tão leve e gostosa de ler.
    Expectativa pra ver o que vai acontecer.
    Bjo no seu coração ❤

    1. SuA resposta é bem próxima do que realmente aconteceu, mas vai ficar sabendo o desfecho desse romance no próximo episódio. obrigada por me seguir aqui!

    1. Ah, Claudia! isso eu não vou te contar agora! vem ler o próximo episódio e você vai ficar sabendo o que aconteceu… te espero aqui! obrigada!

  2. Vc sempre arrasa ! Até pedido de casamento! Não tinha conhecimento deste batismo ao atravessar a linha do Equador.
    Acredito que vc fugiu do polaco, foi um amor de férias, mas ele ficou encantado por ti…
    Teu relato tEm a capacidade de nos colocar junto em tua viagem…curiosa com o “ passar dos dias”

    1. A sua resposta é a mais quente de todas! mas se quiser saber o que realmente aconteceu, leia o próximo episódio, Querida Mary! te espero aqui. um beijo!

    1. ClÁudia, a sua resposta está bem friAzinha, mas eu tenho certeza que você vai voltar aqui pra ler o próximo episódio e saber o que aconteceu. muito obrigada por me seguir Aqui!

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