Não sei vocês, mas parece que a minha mente foi programada para julgar tudo e todos, o tempo todo. O problema é que esse impulso de formar uma opinião sobre tudo que é captado pelos sentidos envolve um processo mental que exige bastante energia sem, necessariamente, contribuir com diálogos construtivos.

Atualmente, o tribunal da internet dá a todos a possibilidade de sentar-se na cadeira do juiz. Se por um lado, a democratização dos espaços virtuais dá visibilidade a quem nunca teve lugar de falar, por outro cria uma cacofonia de vozes e comentários, que muitas vezes só querem…. julgar.

Passado o fervor das discussões sobre o tema do cancelamento nas mídias sociais, fruto de um reality show e uma de suas participantes (sim, estou julgando quem assiste, admito), me questiono: em um mundo virtual onde qualquer comentário ou opinião pode se perder no buraco negro dos posts ou gerar uma fúria generalizada: quando vale a pena se posicionar?

Sempre gostei de um ditado anglo-saxônico que diz assim: “Everyone is entitled to their own opinion” ou na tradução livre: todo mundo tem o direito a ter sua própria opinião. Outra expressão interessante, tão usada no mundo corporativo, é o “agree to disagree” ou acordar a discordar. Essas afirmações estão totalmente alinhadas ao ideal democrático que garante as liberdades de pensamento e expressão, mas será que vale a pena exercer essas prerrogativas todo o tempo?

Para sair da reclamação e passar para a ação, tenho tentando desenvolver critérios segundo os quais valeria a pena investir meu tempo, pensamentos e palavras, faladas ou escritas, em posicionamentos genuinamente construtivos e diálogos onde exista troca de conhecimento. Não é fácil: o software mental quer ter uma resposta para tudo.

Existem pelo menos duas tendências atuais que dificultam bastante a ambiciosa tarefa de observar sem julgar. A primeira delas é a polarização política em que vivemos. Os extremos não se conversam e os que tentam uma postura mediana são esmagados e julgados por um lado ou outro. Isso tudo é agravado pela pandemia, quando testemunhamos o tempo todo condutas e comportamentos que parecem se lixar para a situação que esmaga nossa sociedade, no âmbito da saúde pública. Dá para não julgar quem aglomera e ao mesmo tempo grita “presidente genocida”?

A outra realidade, também estafante, envolve o overposting e o oversharing (postar demais/compartilhar demais) nas redes sociais. São amigos, familiares, “instacelebs” e, também, nós mesmos, clamando por atenção e validação. As reações são diversas… Podem ir desde uma inofensiva curtida ou, ao extremo, gerar respostas bastante agressivas. A lógica do impulso julgador costuma ser a seguinte: se foi publicado, merece ser comentado e se foi comentado merece ser validado ou rebatido. Será?

Tenho um grande amigo que também se preocupa bastante com o tempo e energia que dispendemos julgando e criticando os outros nas vitrines das mídias sociais. Vire e mexe um falar para o outro: “Você viu isso? A gente tenta não julgar, mas o povo não colabora…”. Se por um lado chega a ser engraçado, por outro, como já disse, é difícil, é uma arte.

No entanto, não há dúvidas de que se posicionar, fazer críticas construtivas, saber escutar e promover trocas de conhecimento, com respeito, são ações essenciais na construção de uma sociedade mais inclusiva e humanizada. Se posicionar, de forma embasada, também contribui com a busca de soluções criativas para diversos problemas e desafios que encontramos no nosso dia a dia. No ímpeto de tentar encontrar estratégias para frear minha mente julgadora, sem, contudo, me tornar uma planta social, tenho pensando em três possíveis antídotos.

O primeiro é o cultivo da paciência, que pode ser bastante útil quando nos deparamos com situações e condutas do cotidiano que nos irritam ou decepcionam, mas que pensando de forma clara e objetiva não merecem nossa reação. Um bom ponto de partida pode ser reconhecer, como fazem os budistas, de que todas as pessoas, sem exceção, compartilham do mesmo objetivo: ser feliz e não sofrer. O que realmente muda de pessoa para pessoa são os meios, é o como atingir a felicidade ou evitar o sofrimento. Ao se deparar com um conteúdo que não lhe agrada, respire fundo e simplesmente ignore.

O segundo é sempre identificar a intenção, ou motivação, quando queremos expressar um juízo de valor. Por que quero me engajar nessa conversa? Por que acho que meu conselho vai ser útil para aquela pessoa? Estou usando um tom que incentiva um compartilhamento sadio de ideias? Agir sem pensar na intenção é um mero reagir e, muitas vezes, apenas acirra a animosidade entre as pessoas.

O terceiro é tentar mudar a abordagem: de uma mente julgadora para uma mente curiosa. Não julgar não significa ser apático ou inerte. Uma pessoa curiosa aprende e sabe ouvir, quer escutar de forma ativa antes de se manifestar. A curiosidade pode ajudar na tentativa de entender a razão pela qual o outro tem opinião ou comportamento tão diversos dos meus.

Bom, mas se depois de passar pelos três testes: exercitar a paciência, checar sua própria intenção e encarar a situação com curiosidade, ainda existir a vontade ou necessidade de se posicionar, opine, argumente, dialogue. Julgar por julgar é inútil, se posicionar a favor de justiça social e contra preconceitos é necessário. Aqui do meu lado, por enquanto, estou tentando aplicar os antídotos, mas o problema é que o pessoal não colabora…

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