Escrever, atualmente, sobre qualquer tema de amplitude social é tarefa de grande responsabilidade. Lembro-me de quando o maior crime bibliográfico era citar uma obra sem tê-la, de fato, consultado. Atualmente, a informação parece ter vida própria, dotada de poderes mutantes e pouco, se não nenhum, compromisso com a realidade. Por isso, inicio este texto fazendo um alerta: tudo que falo ou escrevo sobre o tema das diversidades é fruto da minha experiência pessoal e profissional, não de pesquisas acadêmicas ou análises históricas. Apesar que nossas estórias são, também, História.

O meu interesse pela diversidade, (ou seriam diversidades?), tem sua origem no fato de ser um homem gay que enfrentou hostilidade na escola, desentendimentos familiares e, posteriormente, desafios no ambiente de trabalho. Estudei em um colégio jesuíta, em Belo Horizonte, nas décadas de 1980 e 90, quando o termo bullying sequer era conhecido, mas já bastante praticado. A “tradicional família mineira” não era necessariamente acolhedora às diferenças e os mecanismos de defesa do adolescente sem senso de pertencimento eram tidos como arrogância e dificuldade em se relacionar. Foi então, em 1996, quando entrei para o curso de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que pela primeira vez me vi inserido em um ecossistema relativamente diverso: tinha colegas de outras regiões do país e classes sociais. Ainda que a homofobia sempre estivesse presente, foi nesse ambiente bastante diferente do que havia experimentado até então que pela primeira vez encontrei um pouco de paz.

Hoje, olho para trás e tenho consciência de que aquela universidade pública não era tão diversa como eu imaginava ser. Tampouco era heterogênea o suficiente para cumprir o real papel inclusivo da educação. Com a exceção de um ou dois colegas, em um grupo de mais de cem, os poucos estudantes negros haviam vindo de um intercâmbio com uma universidade angolana. Contudo, para um jovem de dezessete anos, que estudou toda a vida com meninos e meninas brancos, de classe média, média alta ou ricos, quase todos “vizinhos”, o primeiro semestre na faculdade de humanas da UFMG foi libertador. A partir daí, o mundo foi se abrindo, pessoas novas foram chegando, viagens sendo feitas e culturas distintas descobertas. Existia luz no fim do túnel, afinal de contas a cada dia mais, eu encontrava um espaço um pouco mais seguro, menos violento, para, simplesmente, ser.

Essa jornada se ampliou ao me mudar para São Paulo em 2006, para enfrentar o mercado de trabalho. Buscar um emprego nas melhores empresas do país era a versão oficial, que escondia o real objetivo da minha mudança: fugir do limitado (porém belo) horizonte da serra do curral. O ápice dessa trajetória em direção à liberdade foi ter vivido em Londres em 2008 e 2009. Ora, que mundo incrível era esse que eu não conhecia? Que o anonimato era bem-vindo? Que a individualidade era respeitada? Que ser gay era até considerado “cool” (desde que você fosse branco, sarado e falasse outros idiomas)?

Nesse contexto, fui desenvolvendo minha carreira corporativa, extremamente dedicado e ambicioso, mas sempre ciente de que o preconceito andava à espreita (já bem mais velado do que nos idos anos do Colégio Loyola).

Muito bem, hoje com mais de 15 (quinze) anos de carreira corporativa, havendo trabalhado em instituições financeiras de alcance global, viajado bastante, me iniciado no estudo da filosofia budista tibetana e me envolvido em projetos de mentoria de jovens profissionais LGBTQIA+, olho para trás e penso: que limitada foi e continua sendo a minha experiência com relação a essas tais diversidades.

Tenho receio de falar de realidades que não vivenciei e de dores que nunca senti. Não posso ignorar que a minha história se desenvolveu dentro de um roteiro pequeno burguês, que nada me deu de exposição aos reais desafios das camadas mais pobres da sociedade ou do efeito nefasto do estruturalismo preconceituoso contra as pessoas de pele mais escura que a minha.

Não ignoro a importância de ter sido inserido em uma diversidade embrionária, cultural e de pensamento, da faculdade de humanas da UFMG, mas são justamente os benefícios trazidos por esse acolhimento que me urgem reconhecer minha posição de privilégio de homem branco e usá-la para questionar o status quo e me desconstruir, para quem sabe deixar de exercer padrões de comportamento, análogos àqueles dos quais fui alvo na adolescência.

2021 e por que precisamos falar muito mais de diversidades? Principalmente em fóruns de discussão onde existe predominância de pessoas brancas, heterossexuais e de classe socioeconômica privilegiada.

O tema é rico, possui ramificações históricas e sociais de enorme relevância, está presente na agenda das empresas mais sérias do globo, em todas as manifestações artísticas e deveria ser prioridade das políticas públicas. No entanto, creio ser importante dar à discussão o contorno relacionado ao impacto que uma sociedade diversa tem em indivíduos minorizados (não se deve falar mais em minorias, mas sim em grupos minorizados). Sentir-se parte, sentir-se visto, ouvido e reconhecido.

Vamos olhar para aquelas diversidades que nos fazem aprender novas culturas, contar outras estórias, ler outros livros e ouvir outras músicas. São aquelas diversidades que quando reconhecidas, nos fazem sentir compaixão e admiração, vontade de proteger e defender. Vamos criar uma corrente de diálogo saudável que não ignora os privilégios de um, mas que reconhece a necessidade de enfrentar a falta de espaço do outro.

Por isso falo de diversidades, no plural. Não adianta olhar para o tema de forma segmentada: raça, orientação sexual, origem, gênero, etc. O ser humano é múltiplo, bem mais complexo que essas caixinhas estanques (nossa, que profundo! risos). As diversidades são como círculos sobrepostos, com interseções, espaços comuns, onde cada individuo se apresenta. As diversidades conversam entre si, namoram entre si, amam entre si. Até a pessoa que, aparentemente, se encaixa na maioria dos padrões da nossa sociedade ocidental-capitalista, se olhar bem fundo, encontrará em si um traço de desvio do que se espera; mas o que se espera?

Vamos olhar para as diversidades e ficar felizes com duas meninas se casando? Com negros e negras ocupando lugares de poder? Com vagas nas universidades sendo garantidas para aqueles que não partiram do mesmo ponto de partida? Com mulheres ocupando cargos políticos e posições em conselhos? Com a representatividade cultural e racial?

Minha proposta é sair da zona de conforto do lugar de poder que nos é dado simplesmente por nascer branco, homem ou heterossexual (dessa última eu me salvei, ufa) e assumir uma postura crítica e ativa: o que estou fazendo para que a comunidade, a sociedade, a escola onde meu filho estuda, se tonem um local mais diverso e seguro, onde as diferenças possam ser celebradas? Muitos preconceitos são partes do nosso DNA sociocultural e só com humildade e autocrítica vamos conseguir mudar alguma coisa. Se dizer não-machista, não-homofóbico ou não-racista, não vai nos levar a lugar nenhum nessa jornada. Pense a respeito.

Nos próximos textos, vou tentar trazer o tema das diversidades contextualizado nas minhas experiências pessoais e profissionais, para quem sabe contribuir com esse momentum de reflexão social. Falar de diversidade, dentro do espectro limitadíssimo que conheço, é uma forma de articular a mudança que quero ver em mim mesmo. Espero que ocupar esse espaço aqui hoje me ajude nesse projeto de vida. Obrigado.

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4 comentários
  1. Querido Pedro.
    Parabéns pelo liNdo texto, que me remeteu à nossa lOnga convivência na escola
    Vc sempre brilhou mesmo nas diferenças e se sentindo diferente e teve lugar no meu coração e da minha faMília. Mesmo À distância, te acompanho e tenho orgulHo dE ter sido sua amiga na adolescêncIa e de ter se tornado a pessoa que é!
    Sempre espero, a oportunidade de revê-lo Quando vier à esta cidade, onde É difÍcil se manter anônimo, mas cerTamente tem gente que Sempre teve e tem você no coração. Saiba que nele você tem um porto seguro. BeiJos
    Mariana Pace

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