Há mais ou menos uns três anos, ganhei de presente de um professor um livro chamado: “A felicidade, desesperadamente”, do filósofo contemporâneo francês André Compte-Sponville. Demorei para lê-lo, estava resistente, acho que pelo fato de eu não acreditar em um estado de constante de ser feliz. Mas, como o assunto me intriga, fui pesquisar e fiquei me perguntando: existe mesmo esse estado de felicidade absoluta ou a graça é a busca?

Inúmeros foram os filósofos que se interessaram por estudar a felicidade. Sócrates, Platão, Kant. De maneira geral, eram críticos à busca constante dela como fim em si mesmo. Foi a partir das revoluções Francesa e Industrial que a felicidade se tornou um produto, na época vendida como o “bem maior”. Depois, reapareceu em estudos sistematizados, com o foco na publicidade, instalando-se o conceito das compras emocionais. Só recentemente se fala na “ciência da felicidade”.

Em 1986 a Fluoxetina (Prozac©) entrou no mercado como a pílula mágica, representando uma reviravolta no mundo dos antidepressivos. A medicação tem um papel muito importante e por muitas vezes necessário, mas não concordo com seu uso abusivo, o que acontece constantemente.

Atualmente a felicidade, na esteira das compras emocionais, nos é mostrada como um pacote facilmente alcançável. Outro produto. “Só não é feliz quem não quer”. “Você tem que mudar seu mindset”. Será mesmo, fácil assim? Buscar uma vida com pilares saudáveis de corpo, mente e espírito é fundamental, mas sabemos que não é de graça.

Na minha leitura, esta forma de “vender” um estado de felicidade a partir de fórmulas mágicas, as mais variadas, instalou-se de uma maneira na nossa sociedade (talvez como fuga) capaz de provocar um mal-estar genuíno a quem não se sente assim. Fórmulas estas que tomaram uma proporção descabida no imaginário coletivo, descaracterizando quem trabalha sério com saúde, principalmente com saúde mental.

Mas será que é possível mensurarmos a felicidade ou é apenas uma ilusão? Uma coisa é certa. A infelicidade nos causa uma sensação de paralisia que acarreta a ansiedade, a depressão, entre outros sintomas não tão claros. O mal-estar não endossa o pessimismo nem o otimismo ingênuo. O mal-estar movimenta, porque incomoda. Se paralisa, precisa ser cuidado.

Diz o psicanalista Gilson Iannini: “o que precisamos é virar a vida do avesso: abordar a vida pela morte, a felicidade pela infelicidade, o bem-estar pelo real e a ansiedade pela serenidade”.

Quanto mais amadureço mais eu acho que a graça é a vida. Ou a vida que tem graça? Acredito na busca, não da felicidade pura e simplesmente, mas de histórias, de significados, de ritmos que se traduzem em momentos felizes, chatos, ansiosos, tristes, nebulosos, ensolarados, corridos e calmos. Na minha opinião, é a soma deles que importa, é a lembrança que fica que nos traz a sensação de uma existência feliz.

Para isso, é preciso aprender a viver o presente plenamente, o que pressupõe aceitar o passado e projetar um futuro para que sejamos sempre um agente transformador de nossas próprias vidas.

O que mais causa infelicidade é a obrigação de ser feliz.

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