Myriam, aquela mocinha de 19 anos que fez um estágio na nossa agência de propaganda (“Mulher competente, coração infeliz”), ficou logo minha amiga, pois nós duas éramos as únicas jovens na agência. Íamos almoçar juntas, saíamos depois do trabalho para olhar vitrines e tomar um café, essas coisas que mulheres gostam de fazer.

Bananas

Como amigas sempre fazem, contei para Myriam sobre minha vida, meus sonhos, meus desencantos com os namorados, inclusive com o Saulo, enfim, sobre minha vontade de voltar para o Brasil, para São Paulo, para perto da minha mãe, para a minha terra. Acredito que também devido ao desencanto com o Saulo, estava muito carente de amor de mãe, de família, enfim: carente de colo.

“Meu pai tem um amigo no Brasil”, disse. “Vou pedir a ele para contatá-lo, talvez ele tenha um emprego para você.” Eu achei muito simpático, mas na verdade não achei muito realista. Pensei: “O Brasil é tão grande, será que o tal amigo vive em São Paulo?” Ela não sabia.

Aliás, pude observar que a maioria dos alemães eram muito pouco informados sobre o Brasil. Para muitos deles falávamos espanhol, tínhamos como capital Buenos Aires, todas a brasileiras eram morenas, dançavam perfeitamente samba e todos os brasileiros, sempre mulatos ou morenos, jogavam excelente futebol. Nossa orla marítima se resumia à praia de Copacabana. Para alguns, dividíamos nossas ruas com macacos, cobras e índios, muitos índios.

Graças à globalização e ao progresso tecnológico que nos trouxe a internet, essa janelinha para o mundo que temos na palma das nossas mãos ou em cima da nossa escrivaninha, essa imagem do Brasil foi se modificando aos poucos.

Assim como muitos, Myriam era muito mal-informada a respeito da geografia do Brasil, o que dava sentido à minha dúvida sobre o amigo do pai morar justamente em São Paulo, para onde eu queria ir. Bom, não podemos reclamar: você sabe qual a capital da Alemanha? E onde fica Munique, uma das cidades mais visitadas por turistas aqui, no Sul ou no Norte do país? Você sabe onde fica exatamente situada a Alemanha, dentro da Europa? Com que países faz fronteira? Existem praias por aqui? Caso sim, de que mares? Muitas de nós não sabemos, pois tão distantes da nossa vida, do nosso dia a dia. Mas, se quiser saber, Google te responde.

Então… Pensei também: “Será que o pai da Myriam vai poder e querer me ajudar? Nem me conhece…” Minha intenção era conseguir uma colocação como secretária, a profissão que havia aprendido no Rio, agora podendo já oferecer meus serviços em três línguas: português, alemão e inglês. Como disse acima, em São Paulo, onde vivia minha mãe e meus irmãos. O do meio, dois anos mais velho que eu, já casado com aquela que havia sido minha única amiga, nos tempos em que morei no Rio de Janeiro (“Seduções na Cidade Maravilhosa”).

Fui convidada para tomar um café numa tarde de sábado na casa da Myriam, seu pai queria me conhecer. Pediu-me que levasse meu curriculum vitae. Sentados à mesa de madeira redonda num jardim lindíssimo, saboreando deliciosos bolos e tortas feitos pela mãe de Myriam à sombra de uma grande árvore, conversamos muito. Seu pai sempre fazendo-me muitas perguntas. No início da noite fui para meu apartamento, deixando lá, a pedido do dono da casa, meu currículo.

Bananas

Segunda-feira seguinte, ou seja, dois dias após o café na casa de Myriam, estávamos todos na nossa rotina do escritório na agência, quando o telefone toca e a secretária avisa que era para mim. Fiquei surpresa, pois não estava esperando nenhuma chamada. Era o pai de Myriam, dizendo haver enviado por telefax meu curriculum para seu amigo, aquele empresário suíço que vivia em São Paulo. E que o tal amigo havia acabado de mandar um telefax para ele como resposta.

Na resposta, dizia estar procurando exatamente uma pessoa como eu: que falasse português, alemão e inglês. Que conhecesse a mentalidade dos brasileiros, assim como a dos alemães. Que quando eu chegasse ao Brasil, entrasse imediatamente em contato com ele, que viesse o mais rápido possível, era urgente. A sua empresa estava se expandindo rápido. Ele precisaria brevemente de uma pessoa que tomasse as rédeas do departamento europeu, que estava justamente sendo criado.

Bananas
o Mascote da agência

Mesmo sem saber quais seriam minhas tarefas e que tipo de empresa era aquela, vi a possibilidade de ter um emprego logo que chegasse em São Paulo. Fiquei superfeliz e animada! No mesmo dia, pedi demissão na agência de propaganda, para o grande pesar do meu chefe.

Minha tia ficou inconsolada com minha decisão, pois tinha certeza de que meu lugar era na Alemanha. Assim como tinha certeza de que propaganda e marketing eram exatamente o certo para mim. O que ela não sabia: há algum tempo meu desenvolvimento profissional havia estagnado, já não aprendia coisas novas há muito e não via perspectiva de evolução. Minha posição como aprendiz não era reconhecida oficialmente, ou seja, eu não estava aprendendo a profissão em si. O que teria no futuro seria somente uma referência de haver trabalhado na área, numa pequena agência. Me parecia muito pouco.

Aproveitando o prazo de demissão, comecei a planejar minha viagem de volta ao Brasil. Morava já há três anos e meio na Alemanha, tinha o meu apartamento, o que significava que tinha muita, mas muita bagagem. Muitas coisas das quais não queria abdicar. Qual a solução? Seguindo o conselho do meu tio, cogitei voltar ao Brasil como passageira em um navio cargueiro, aqueles que até hoje são chamados por aqui carinhosamente de Bananendampfer (vapor de bananas, se traduzirmos literalmente).

Talvez você queira saber por que são chamados assim: navios cargueiros eram antigamente, por volta de 1800 até mais ou menos 1930, movidos à forca do vapor produzido por água aquecida devido à queima de carvão. E a maioria deles tinha como carga principal bananas cultivadas em países tropicais sendo levadas para a Europa. Banana era, na época, uma fruta muito exótica e muito apreciada aqui na Europa.

Foram-se os navios cargueiros a vapor, vieram os navios movidos à diesel. As bananas hoje são transportadas por aviões cargueiros, bem mais rápidos. Mas ficou o apelido, que é usado sempre que alguém menciona fazer uma viagem em um navio cargueiro. Acho carinhoso e nostálgico, e você?

O Bananendampfer permitia cada passageiro um metro cúbico de bagagem, independentemente do número de malas ou caixas e também do peso final total. Isto sem custo adicional. Perfeito! A passagem custava o mesmo do que uma passagem aérea. Sendo que no avião eram permitidos somente 20 kg de bagagem! Não muito diferente do tempo atual. A eterna luta contra o peso da bagagem, na hora de voar. Conhece?

Decidi voltar ao Brasil a bordo de um navio destes e trazer tudo o que coubesse nas minhas malas e nas caixas de alumínio próprias que comprei especialmente para tal. O navio sairia do porto de Hamburg, passando por Roterdã, onde carregaria mais alguns containers. De lá cruzaríamos o Oceano Atlântico navegando até Angra os Reis e seguindo viagem para Santos, onde eu desembarcaria. Seriam 28 dias de viagem.

Vinte e oito dias dentro de um navio no meio do oceano. Um sonho! Quem nunca sonhou com uma viagem de navio? Quer saber se a viagem aconteceu ou não? Responde por favor ali embaixo ou no meu perfil do Instagram e volte de vez em quando aqui na minha coluna, qualquer dia desses eu conto.

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11 comentários
  1. Até hoje muitos europeus acham que o Brasil é mata, indios e bichos. Fiquei curiosa e quero saber se foste para o Brasil ou nao.

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