Talvez você tenha tomado parte na enquete que fiz nos meus Stories semana passada, onde perguntei o que você queria ler primeiro: sobre o francês que conheci na Suíça ou sobre minhas emoções ao visitar Baia Formosa – 32 anos depois (“Nem o paraíso é perfeito”). Espero que você tenha optado pela segunda opção, pois é o que vou contar agora, pois assim quis a grande maioria.

Provavelmente você me acompanha aqui já há algum tempo e sabe que nasci no Brasil e tenho 61 anos. Que, aos 29 anos, vim para a Europa, depois de ter morado três anos como “bicho grilo” naquela praia paradisíaca do Rio Grande do Norte. Se não sabe ainda, volte aos meus textos, procure como Age in Grace… Estão todos aí, só esperando sua leitura, em capítulos ou episódios de cinco minutos cada.

Estive visitando o Brasil pela última vez há nove anos quando fui obrigada a organizar e realizar a ida de minha mãe, na época já completamente demente, para um asilo no interior de Minas Gerais – uma situação que não desejo a ninguém, mas que às vezes se torna inevitável. Um ano após ter ido para a casa de repouso, minha mãe faleceu. Ainda vou escrever sobre esta dramática ocasião, quando chegar o momento certo. Desde então, não tive mais a menor vontade de voltar à minha terra natal.

No entanto, desde que comecei minhas atividades no Instagram @ageingrace, em 2019, muitos brasileiros e brasileiras chegaram até mim, o Brasil ficou perto, ficou de novo presente no meu dia a dia. Fiz muitas amizades virtuais e o desejo de encontrar, abraçar, cheirar e tocar aquelas pessoas foi maior. Além disto, fato de estar escrevendo minha história aqui, despertou em mim a vontade de visitar lugares da minha vida no passado e rever entes queridos. Decidi viajar.

Confirmei então minha participação no primeiro encontro presencial das colunistas do Inconformidades.com e entrei no avião em direção a São Paulo. O encontro foi incrível e conheci pessoas empoderadas, inteligentes, sensíveis, maravilhosas.

Não pude deixar de visitar a avenida Faria Lima e o shopping Iguatemi (“Adeus Souvenir; viva São Paulo!“). Tenho que confessar que não consegui reconhecer o prédio que abrigava o escritório da Arara-Export, tão diferente está tudo por lá. Só pude saber qual era, pela sua numeração. Senti um profundo sentimento de nostalgia ao almoçar no restaurante Almanara, o que fazia com frequência nos velhos tempos. Fora isto, parecia estar ali pela primeira vez.

Depois de passar algumas semanas na região Sudeste, voei para o Nordeste, onde pude rever meu meio-irmão, hoje prefeito de uma cidade no interior da Paraíba, sertão mesmo. Adriano tem uma história comovente e você pode ler um pouquinho sobre ela aqui: “Adriano e uma história de contos de fadas”. Tive grande alegria em conhecer uma pequena parte desta região rudimentar do nosso país e perceber como muitos de nós vivemos, muitas vezes inconscientemente, num luxo exagerado.

Eis que então chegou a hora de buscar meu marido no aeroporto de Natal, pois ele viajou semanas após mim. A intenção inicial era irmos direto para Baía Formosa e lá passarmos uma semana, mas depois de ter pesquisado com afinco, percebi, com uma certa surpresa, que a infraestrutura turística ali é ainda muito precária. O que me deixou na crença de encontrar meu paraíso não muito diferente de como o havia deixado, anos atrás.

Assim, decidimos hospedar-nos em Pipa, povoado praiano que conta hoje com inúmeros hotéis, pousadas, restaurantes. E aqui vai uma dica para você: caso deseje ir para aquelas bandas, uma excelente opção é a pousada Toca da Coruja. Um lugar de sonho, embora seja fato que, principalmente levando-se em consideração o valor pago por uma diária, algumas das acomodações mais antigas já necessitam de uma reforma. Se for se hospedar lá, insista em ficar nos chalés mais novos.

De Pipa, tiramos dois dias e fomos para minha antiga vila de pescadores, Baía Formosa, aquele lugar que foi palco de um amor intenso e complicado (“Não basta um amor e uma cabana”). Estávamos muito excitados! Eu não via a hora de chegar à curva que, como me lembrava, se tinha uma divina vista da baía do porto. (“O pulo do gato”) Acredita que não a achei?

Atravessamos a avenida principal, paramos numa praça com um mirante que não existia no “meu” tempo e ficamos comtemplando a linda paisagem. Foi como estar dentro de um cartão postal! Sol azul, algumas nuvens com formato de ovelhas felpudas, falésias brancas, mar verde azulado e muitos barquinhos de pesca coloridos balançando ao movimento das ondas, como se fossem flores no meio do oceano. Não pude conter as lágrimas de emoção.

Descemos para o porto e para a Praia da Cacimba, para constatar que sim, muita coisa mudou, mas não necessariamente para melhor, na verdade. As típicas e pitorescas casinhas dos pescadores foram trocadas por casas altas de formatos diversos e nada harmônicos, que têm só uma intenção: oferecer lugar para o maior número de pessoas possível. A maioria das casas na beira da praia estavam fechadas e vazias, pois são habitadas somente nos finais de semanas ou no período de férias. Assim, todo o lugar parecia estar quase abandonado…

Das 30 e poucas casas na orla da praia, umas cinco são ainda habitadas permanentemente por pessoas que já lá moravam quando da minha época. Visitei-as todas. Os conhecidos que encontrei trataram a mim e ao meu marido com enorme carinho e atenção. Reconheci-as todas, ouvi suas histórias, alegrias, lamentos. Tentei em vão descobrir por que não foi possível desenvolver um turismo positivo em Baía Formosa, como aconteceu em Pipa.

Fiz questão de me encontrar também com uma jovem mulher que só conhecia virtualmente. Vinda de fora, está há dois anos se empenhando veemente em divulgar o lugar. Dirige junto com seu marido um restaurante no porto e estão construindo um prédio de apartamentos para alugar para turistas. Como aconteceu comigo, há muitos anos, ela diz só encontrar empecilhos e nenhum suporte ou incentivo das autoridades e política locais.

A cidade lá em cima parece estar num estado de lenta e eterna obra. Também aqui as casinhas singelas deram lugar a casas maiores, mas não necessariamente mais bonitas. Por todo lado vê-se entulho, restos de tijolos quebrados, lixo, construções inacabadas.

Um oásis em meio a tudo isto é a singela Pousada La Bonita, aquela pousada onde estive quando pela primeira vez em Baía Formosa. (“Como conheci meu surfista ‘Carioca'”) Embora tenha sido totalmente reconstruída, tal foi feito com muita harmonia e carinho. E de lá tem-se a vista mais bonita do mundo! Pena que ao sair do portão deste pequeno oásis dei logo de cara com um monte de entulho no meio da rua…

Baía Formosa – um paraíso perdido, esquecido, malcuidado. Para mim, um lugar que estará sempre no meu coração, mesmo sabendo que, como era, não existe mais. E quem sabe eu volto, daqui uns dez anos, para ver como estará então? Não sinto tristeza. Sinto só confirmado o fato ter tomado a decisão certa há 32 anos. Quer coisa melhor?

Agora prometo: no próximo capítulo volto às emoções fortes dos amores e momentos da juventude (“Robert Redford, versão francesa”). Você com certeza vai querer saber como cheguei até aqui… não vai? Deixe sua resposta, seu comentário, ali embaixo. Muito obrigada.

Ah! Quase esquecendo uma coisa que você provavelmente quer muito saber: se eu encontrei o Carioca. Não, não o encontrei. E não foi falta de procurar. Mas ninguém sabe de seu paradeiro. Espero que esteja bem, seja onde for…

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