Você já teve a sensação de estar falando para as paredes, pois quem está ao lado está ouvindo, mas não te escutando? Todos nós já passamos por situações desse tipo. Com o tempo isso pode ocorrer com maior frequência. É comum ouvirmos queixas de mulheres e homens sobre a pouca ou nenhuma receptividade dos filhos e netos quando falam, o que aponta um gesto muito próximo ao que se pode chamar idadismo -discriminação contra a pessoa por causa da sua idade.

“Papo de velho é chato”, “não posso explicar agora”, “procure fazer algo para se distrair”. Por incrível que pareça, em plena Década do Envelhecimento Saudável nas Américas (2021 a 2030), conforme declaração da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) feita em dezembro de 2020, ainda são comuns estas falas idadistas.

Os ambientes físicos e sociais podem colaborar com a discriminação ao idoso em diferentes manifestações. Esse tipo de preconceito às vezes nasce na infância dos indivíduos, quando o valor da pessoa mais velha, da escuta e atenção ao idoso não são priorizados.

Lembro de meu pai contando histórias, recitando poesias e cantando trechos de músicas. Eu não ouvia ele: o escutava. Talvez por isso saiba até hoje histórias, letras de músicas e versos inteiros dos poemas que ele gostava. Tenho muitas lembranças das conversas com minha mãe, dos relatos sobre a vida dela na zona rural, dos primeiros empregos e como foi importante ela deixar a casa dos pais, lá nos anos 50, na busca da independência financeira.

Escutá-los, especialmente quando ficaram mais velhos, contribuiu para minha compreensão sobre as mudanças que ocorrem nas fases da vida e a importância de não ter medo e ousar o suficiente para me tornar a mulher madura que segue ousando – mesmo que em alguns momentos eu sinta um frio na barriga, o que não acho de todo ruim…

A escuta aos mais velhos não é boa somente para nos situarmos em nossa própria existência, saber da vida dos nossos afetos, mas especialmente porque abre uma janela para as pessoas de todas as idades serem igualmente contempladas com esse processo, não permitindo uma das manifestações do idadismo: o de achar normal não dar voz aos velhos (inclusive ao pé da letra).

Me vejo envelhecendo e observo o quanto é importante escutar aqueles que têm experiência de vida, para que eles sintam-se vivos e eu também. Enquanto repórter durante bons anos, constatei, em várias oportunidades, que a escuta faz toda diferença. Às pessoas “maiores”, como dizem os castelhanos, a escuta tem uma importância significativa por vários motivos, entre eles sentir-se parte da sociedade com a qual seguem contribuindo. Penso que, além disso, a escuta sinaliza respeito, amizade, amor e boas doses homeopáticas para uma velhice saudável. Ou seja, tudo que todo ser humano precisa.

Quando pensei em escrever sobre a escuta, não enxerguei de outra maneira senão e especialmente o quanto é importante para os velhos. Escrevi pensando na minha maioridade aos 62 completados este ano e ao belíssimo convivo com colegas de idade maior do que a minha e que são absolutamente brilhantes, que seguem trabalhando, produzindo com entusiasmo, promovendo cursos e abrindo oportunidades para jovens de diferentes campos. Eles são excelentes no ato de escutar. Escutam a natureza, escutam as dúvidas dos seus pupilos e, principalmente, escutam sua imensa vontade de prosseguir com dignidade seus trabalhos profissionais.

Em contrapartida, no mesmo ambiente, vejo ansiosos e impacientes estreantes da vida encherem o peito e, orgulhosos, baixarem a prateleira com vocabulário control+C – control+V, ocos de conteúdos e recheados de arrogância e a falsa certeza de serem detentores de grande conhecimento. E absolutamente isso não é um preconceito, mas uma observação e também uma constatação quando alguém insistiu em não me escutar e comentou que, antes de tudo, eu precisaria compreender o que é engajamento e como funciona o mundo dos algoritmos. Oi? Mas será mesmo que isso é tão ou mais importante do que escutar meus argumentos?

Sem desespero, mas já me colocando no lugar daquela senhorinha que não quer se aposentar porque sente-se a mil, me inspirei um pouco em um texto de Cícero – o filósofo e político que nasceu em Roma em 106 AC, escreveu: “Gosto de descobrir o verdor num velho e sinais de velhice num adolescente. Aquele que compreender isso envelhecerá talvez em seu corpo, jamais em seu espírito.”

Assim, sinto prazeroso o exercício da escuta, principalmente dos experientes senhores e senhoras que me antecederam na linha imaginária do tempo. É igualmente prazeroso ser o sujeito escutado. Ambos são um investimento a longo prazo no qual todos os envolvidos saem ganhando. A equação é simples: hoje você escuta, amanhã será escutado.

Ouvir é um processo mecânico e escutar é uma decisão, uma opção, um gesto solidário, empático. Tudo que tenho aprendido pela escuta pode não ter rendido muito na conta bancária, mas gerou duas certezas. A primeira é que o idadismo afeta a todos. A segunda é: o diálogo amoroso traduz a escuta generosa, transforma vidas, é uma das armas para evitar doenças como a depressão – que coloca o Brasil como segundo país mais depressivo do mundo, com 9,3% da sua população com a doença, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Temos histórias e escutar os 60+ é o um dos primeiros movimentos para blindar o preconceito com os velhos. O idadismo afeta pessoas de todas as idades, mas com certeza é mais devastador nos idosos.

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