“Algum dia e qualquer parte, em qualquer lugar indefectivelmente te encontrarás a ti mesmo, e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou mais amarga de tuas horas,” Pablo Neruda.

Daniel Day Lewis como Guido Contini em “ NINE”

Estou voltando depois de um tempo fora do ar. Até tinha um artigo sobre “Momentos e Músicas” mas vou deixá-lo para mais tarde. Depois desses últimos dois meses e alguns papos recentes no Inconformidades – além dos tradicionais com meu terapeuta – hoje não vou falar sobre drinks, mas sobre a vida.

Se bem que drinks fazem parte da mistura da vida, mas dessa vez a história vai seguir sem acompanhamento etílico, apenas experiências recentes. Aprendi muito com meu pai – mesmos nestes últimos anos acometido pelo Alzheimer – e uma delas foi de celebrar as boas coisas da vida.

Talvez por isso, com a partida dele, eu venha escolhendo tanto estar com os amigos. Tem sido um tempo intenso, de risos, Negronis e… lágrimas. Não sei para quem já passou por algo assim, mas a experiencia da perda me levou a repensar meus 52 anos, à luz de tudo o que ele viveu na minha idade e o que eu realmente estou construindo ou desejo construir…

Troço delicado esse: a gente confronta não só nossos planos e conquistas, mas realmente o que a gente sente ou pensa da vida, e como a tem vivido. Meus pais foram casados por muito tempo. Eram daqueles casais super companheiros, que o povo acha lindo de ver e comenta com quem estiver do nosso lado…

The “UP” couple

Assistir minha mãe nesse processo todo de partida e luto me fez ver que algumas coisas que eu acreditei recentemente, não são verdade e que a minha essência e o que desejo mesmo são outros. Longe de conseguir alcançar os 60 anos de casado ou 65 anos juntos, nem dá mais tempo! Mas, sim, o senso de permanência e valor que estabelecemos nas relações… E o amor…

Ahhh, o famigerado amor. E aquele “das antigas’ sabe? Que consolida a coisa toda, respeito, paixão, cumplicidade, cuidado, carinho, paciência (porque precisa)… Enfim, esse tipo. Lembro dele (do amor) nos meus 35, quando conheci minha ex-mulher, me apaixonei, amei e casei.

Não tinha drink nessa época, era tempo dos whiskys com o sogro ou vinho em família. Foi o tempo do “construir família”, aprender a amar os filhos – que no inicio eram só “dela” – e viver o “modelo”; casa, filhos, cachorro, almoço de domingo… Enfim, o pacote completo!

Com os anos vieram os desafios, como a depressão, mas com ela veio a terapia. Comecei a ver as coisa de outro jeito e que, de repente, estava lá por amar as minhas filhas e não mais ela. Como ela também vinha com suas dúvidas, optamos por romper, e romper nunca é fácil.

Saí com 47 e o objetivo de manter o relacionamento com meus enteados e viver a vida, num suposto sentido de liberdade. Mudei para um apartamento legal, comprei o carro que queria, viajei para NY e voltei no modo “deixa a vida me levar”.

Abracei as ideias; “não vou casar de novo”, “casamento tradicional não precisa”, “ninguém vai me aguentar velho”. Amor e romance? Bom nos filmes, na música e na poesia. Bom…nessa época teve drink pacas!

Penso, hoje, que optei por “desempenhar um papel”, o do solteiro, bem-sucedido e livre… E o que não falta para isso hoje em dia é combustível. Tempo de muitos Negronis, Martinis e amores fugazes.

Em meio a coisa toda, um reencontro de infância e começa um relacionamento com uma pessoa realmente especial. Começou sem grandes paixões ou planos de estar junto, e seria a união perfeita. Bonita, inteligente, companheira, cumplice, parceira… Muuuuitos negronis, risadas e experiencias maravilhosas.

Mas… Lembra do tal amor?… Então, veio diferente para mim, acho que incompleto. E, para ela, veio de verdade, inteiro. Essa completude do amor fez falta, sem ele e sem paixão não via mais sentido em seguir e, infelizmente, deixei acontecer coisas que não precisava. E terminou.

Foram uns três anos e durante esse período, fui perdendo as coisas enquanto insistia no modelo de vida mais “raso”. Foram os filhos, foi o trabalho, foi gente que quis ficar e , de repente, me vi sozinho de novo e repensando a porra toda pela primeira vez em anos.

Comecei a ver que os sentimentos de amor e companheirismo não eram uma ilusão e que a permanência, o desejo de um plano comum de “envelhecer junto” era exatamente o que eu buscava, mesmo me enganando que não.

Hoje acho que “cumprir um papel” demanda tempo e energia demais, melhor é ser honesto com a gente mesmo e se esforçar nas conquistas verdadeiras.

Julia Roberts e Geroge Clooney “Ticket to Paradise” (2022)

Esses dias respondi ao meu estado civil como “à deriva”. À deriva é ficar lá, boiando, à mercê do vento. As vezes o vento bate e a gente encontra uma “ilha”, para, mas logo sai.

A deriva tem até seu lado bom, da solitude, do tempo com voce mesmo, do sossego. O lado ruim é ficar sem porto, seja um seguro, definitivo ou um que ao menos voce queira parar um tanto.

O bom da (matur)idade é sabermos um pouco mais sobre quem somos e o que queremos. Vejo, hoje, que quero sim, algo permanente, que casar de novo é possível. Quero envelhecer com alguém, com muita saúde, Negronis, risadas e danças.

Por que? Porque coisas difíceis vão acontecer e para elas a gente tem fé, família e amigos queridos, se os últimos dias me mostraram alguma coisa foi isso. Mas o bom mesmo é conquistar alguém especial, e ela ficar, primeiro uns dias, depois todos…

Bora levantar as velas, preparar aquele Negroni e torcer para um vento bom…

De tantas músicas, esses dias uma saltou aos ouvidos; “Still Out There Running” de Nathaniel Rateliff & The Night Sweats.

Nos filmes tenho buscado algo mais leve e tem um que sempre me diverte; “Nine” com Daniel Day Lewis sobre os desafios de um diretor cinquentão…

À vida!

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8 comentários
  1. Zé, se expor é nobre. Expor os outros é um tanto quanto deselegante. De minha parte gostaria de esclarecer que, sendo a “namorada da infância” e principalmente por conhecer a história de sua família, acolhi você na minha casa como faria com qualquer pessoa querida, que estivesse desempregada e precisando da minha ajuda em plena pandemia. Foi uma atitude humanitária e não de amor ‘completo”. Te desejo luz e proteção divina, sempre.

  2. Expor a si, suas experiências, seus erros e medos, sabendo que podera (e com certeza será) julgado, não é para muitos. Parabéns pela reflexão, por conseguir enxergar que a vida a dois não é nada fácil mas que quando há tudo o que descreveu, amor, cumplicidade, respeito, etc., a relação pode dar certo!!! 👏🏻

  3. Auto reflexão com uma dose generosa do ego machista que nunca te faltou…homofóbico, acha que prega religião e é intelectual e bem sucedido. Caraca vc é demais…nem sombra do deprimido cheio de auto compaixão que rondava conta bancária alheia e de quebra, como a cereja do bolo, ainda se convenceu que tinha amor mas não seu? Cria vergonha nessa cara moleque, aprende a ser homem uma vez nessa vida.

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Muito prazer, Renata Rea

Minha história profissional é como um romance: mudei algumas vezes de rumo, larguei tudo para trás e vou contar um pouco para vocês.