Sábado passado, senti saudades de uma amiga e telefonei para ela.
A resposta veio no zap, seguida de emojis: “Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Mais tarde eu te retorno”

Sim, amiga, tá tudo bem, na medida do possível. Se aconteceu algo? Sim! E como! Faz quatro semanas que a gente não se comunica, mais de seis meses sem se falar e mais de um ano e meio de distância presencial.
Então, não é que aconteceu alguma coisa. Aconteceram várias. Só queria contar e saber de você.

A falta de telefonemas me traz um certo vazio.

Tenho saudade da época do telefone com fio. No apartamento dos meus pais tinha até uma extensão do cabo telefônico. Eram vários metros que permitiam levar o aparelho para quase todos os ambientes.

O telefone tinha um destaque grande na casa. Não havia “bina”. No máximo, uma secretária eletrônica que alguém trazia de contrabando. Me vem à cabeça aquele ruído alto de “trimmmmm”. Muitas vezes era de alegria, mas também poderia ser de susto.

Parecia um acontecimento esperar uma ligação e ficar na curiosidade saber quem estava do outro lado da linha. Nem sempre o telefonema era para quem atendia. Quem ligava, geralmente tinha que esperar ser atendido.

Nem pensar, hoje em dia, telefonar para alguém sem avisar antes.
Falta de educação. Avise antes. “Oi, queria falar com você. Podemos combinar um dia para eu te ligar?

Como assim?
As pessoas avisam por mensagens que vão ligar ou que vão enviar email. Parece aquela etiqueta da educação de “nunca vá visitar alguém sem combinar”.

Há ainda aquelas situações em que o telefonema incomoda. Por exemplo, quando você percebe um telefone de um desconhecido tocar. A pessoa olha para o aparelho, vê quem é, faz uma cara de desgosto e não atende.

E o pior: quando atende, mente.”Ai, desculpe, tô numa reunião. Depois te ligo”, quando na verdade a pessoa estava fazendo compra em uma loja. Nesse caso, eu questiono: por que atendeu?

Li no Facebook uma publicação linda de uma colega da ginástica com um pedido sincero. “Hoje é meu aniversário. Podem me ligar para cumprimentar. Eu vou gostar” .

Ouvi um amigo dizer que ficou tudo mais prático com os áudios. “Tem até a opção de acelerar a mensagem sem perder nada, mas eu juro que não uso esse recurso com você.”

Os áudios gravados me lembram montagem de ficção. Muitas pessoas apagam o que enviaram para regravar com uma “voz melhor”. É o fim da espontaneidade, da troca entre locutor e receptor que a gente aprende em Teoria da Comunicação.

E para os idosos, então? No aniversário de 85 anos do meu sogro, que não tem celular, as mensagens foram para o número da esposa. Ninguém foi capaz de telefonar para ele para cumprimentá-lo. “Vai que ele já foi dormir ou está ocupado”.

A verdade é que a maneira antiga de nos conectarmos com as pessoas não volta mais. Ninguém mais vai telefonar, quer dizer, ninguém mais vai ligar para você. É melhor se acostumar. Aliás, ainda estou aguardando o retorno da minha amiga que estava preocupada se algo tinha acontecido.

Espera… Acho que é ela. Chegou um áudio.

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5 comentários
  1. Acredito que a tecnologia auxilia muito quando queremos nos comunicar rapidamente, sermos direto ao assunto. Porém esta facilidade foi estendida aos relacionamentos pessoais, incluindo família e aquelas amizades que tanto prezamos. Dói muito, e ainda não consegui me acostumar a receber de pessoas bem “próximas” MENSAGENS, via WhatsApp, de feliz aniversário, dia dos avós, feliz Natal, feliz Páscoa, etc
    Novos tempos!!!

  2. Sempre incrível e perspicaz.
    Tem uma visão impar e analítica!!
    Amo a pessoa, a forma como se exprime!!
    Beijo querida, sou sua fã!!!

    1. Amei o texto. Deu um tantinho de nostalgia. Amo falar ao telefone!, Mas hoje em dia é muito mais por áudio e mensagem. Saudade do trililimmmmm…😪❤

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