Eu sempre fui aquela mulher de cintura fina, quadril largo e coxas grossas. Eu poderia até engordar, mas a gordura ia para todos os lados, menos cintura e barriga. Achei que seria assim para sempre, na fantasia adolescente de que comigo a vida seria boazinha e que as transformações do corpo com o envelhecimento não chegariam para mim.

Aos 44 anos, ainda na pré-menopausa e sem nenhum sintoma do climatério, eu tive a primeira percepção de um maior acúmulo de gordura na barriga. Quando eu sentava no banheiro, sem roupa, passei a perceber aquele montinho mais protuberante no baixo ventre que eu ainda conseguia disfarçar com a roupa.

Passados alguns poucos anos, já com alguns sintomas da transição para a menopausa (ondas de calor, sono mais difícil, irritabilidade, dores de cabeça e articular), essa barriguinha não desapareceu e agora é como se ela estivesse ali desde sempre e, com isso, a minha cintura nunca mais voltou a ser o que era.

Conclusão: já penso duas vezes antes de usar biquíni. Sentada, então, só coberta com a saída de banho. Depois de rever umas fotos minhas de biquíni, tenho pensado em migrar em definitivo para o maiô, apesar de não gostar da ideia de não bronzear a barriga. Será?

E por que estou contando isso para vocês?

Bem, é que nada como uma experiência pessoal para contextualizar esse tema médico que é o ganho de peso e o acúmulo de gordura abdominal na menopausa.

Mas agora a pergunta que não quer calar: será que o ganho de peso e a barriguinha são consequências de alterações hormonais da menopausa ou ela aparece apenas por hábitos ruins que adquirimos com o tempo?

Um grande estudo científico sobre mudanças corporais na fase de transição para a menopausa foi o estudo SWAN (Study of Women Across the Nation, ou estudo sobre mulheres pelo país) realizado nos EUA no período de 1994 a 1997.

Neste estudo, 3.302 foram acompanhadas pelo período de transição para a menopausa (mais ou menos dois anos antes e dois anos depois da última menstruação) e, dentre essas, 1.246 foram acompanhadas e avaliadas quanto ao ganho de peso, mudanças no IMC (índice de massa corporal), ganho de massa gorda (aumento da gordura corporal) e perda de massa magra (água, músculo, ossos e peso de órgãos do nosso corpo). E o que foi observado?

Segundo o estudo, as mulheres apresentam tendência a aumento de peso mesmo antes do climatério e que segue até o período pós-menopausal. Esse aumento de peso não mostrou ligação com as mudanças hormonais do climatério, mas sim e apenas ao envelhecimento natural das pessoas.

Entretanto, nesse mesmo estudo, foi identificado que aumentamos nossa gordura corporal ao mesmo tempo que perdemos músculo, além de ocorrer um maior acúmulo de gordura na região abdominal e essas modificações ocorrem em função das mudanças hormonais da menopausa. Saímos do corpo “pêra” para o corpo “maçã” por causa da menopausa.

Agora é que tudo fica mais preocupante. O maior acúmulo de gordura na barriga incentiva um metabolismo de gordura e açúcar desregulado, a tal da “sindrome metabólica” que põe em risco a nossa saúde, aumentando a nossa chance de desenvolver doenças como a hipertensão arterial, Infarto, AVC (o derrame cerebral) e o diabete melito tipo 2. Portanto, não é só pela estética, mas também pela nossa saúde que precisamos falar de ganho de peso nessa fase.

Já sabemos que a menopausa muda o nosso metabolismo a favor do acúmulo de gordura, que esse tende a se alojar mais na barriga e que tudo isso aumenta as nossas chances de desenvolver doenças… Vamos ao que mais nos interessa: qual a solução para este problema?

Em primeiro lugar, vou falar da terapia hormonal. Sim! Ela faz parte da solução pois já se sabe que repor hormônios na menopausa melhora os parâmetros que influenciam a preservação da nossa saúde cardiovascular, tais como a nossa pressão arterial e o nosso colesterol.

Sabemos, também, que repor estrogênio não nos faz ganhar peso, ao contrário, ajuda a reduzir os depósitos de gordura na região abdominal. “Uau, então está resolvido, terapia hormonal para todo mundo e não se fala mais nisso!”

Acontece que ela sozinha não faz milagre e, para obtermos um bom resultado, precisaremos melhorar hábitos de vida, como alimentação e atividade física.

No quesito alimentação, sabemos que nos tempos atuais somos estimulados a toda hora a uma dieta plena de carboidratos refinados (açúcar, pão, pizza, macarrão) e de industrializados, e tudo em grande quantidade.

O caminho é substituir essa dieta fácil que encontramos pronta em qualquer gôndola de supermercado, ultraprocessada e cheia de conservantes, por uma mais natural. É trazer de volta para o prato a comida de verdade, com alimentos preparados de preferência em casa, equilibrando carboidratos não refinados (nossa fonte de energia), verduras e legumes (nossa fonte de fibra e vitaminas) e uma boa dose de proteína (fonte que vai alimentar muitas reações químicas no nosso corpo e melhorar a nossa massa magra).

Outro ponto, talvez um calcanhar de Aquiles para muitas de nós, é a ingestão excessiva de álcool. Sim! Nós mulheres temos abusado cada vez mais das bebidas alcóolicas como uma forma de relaxar depois de um dia estressante, para atenuar o sofrimento que a pandemia nos trouxe ou para celebrar um encontro com as amigas. Mas esse é outro aspecto da nossa alimentação que precisa ser revisado se queremos manter ou perder peso, pois o álcool é muito calórico.

Associado a tudo isso, precisaremos nos movimentar. São pelo menos 150 minutos por semana para obtermos os efeitos protetores do nosso sistema cardiovascular e para começar a perder peso.

A menopausa é um momento de mudanças e, por ser assim, pode ser um momento de adquirirmos hábitos mais saudáveis também. Por que não aproveitar este período para manter hábitos bons que a gente já tinha ou de fazer uma reviravolta? Envelhecer é desafiante, nos desestabiliza, existem perdas, mas pode ser o momento de aprendermos novos hábitos, de mudar vícios antigos e de cuidar mais da nossa saúde. Pode ser o momento de dizer: hoje eu mereço me cuidar!

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8 comentários
  1. Um assunto difícil escrito com muita clareza e de uma forma agradável, incentivando a ler até o fim para saber mais. Pois informação é o único caminho! Obrigada! E parabéns!

  2. sempre fui magra mas na menopausa por ORIENTAÇÃO de meu medico tomei tibolona que tirou aqueles fogachos insUportaveis Em comPensação ganhei 15 kilos os quais nao coNsigo perder , Sinto que colocarAm um pneu embaIxo dos meus braços até a cintura ,

    1. Ola Cris, sim. As mudancas vem independente do nosso desejo, infelizmente. O que precisamos fazer é correr atras com uma dieta mais saudavel e Exercicios fisicos..

  3. PARABÉNS, quando entrei na menopausa com 42 anos ñ tive essas informações. Esse vai servir para as mulheres da atualidade que estão passando por esse processo

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