Vomitei. Sabe aquela cena que você já viu milhares de vezes nos filmes, onde alguém, em uma situação muito difícil, tem o impulso de vomitar? Pois é. Eu sempre pensei que isto fosse coisa que só acontece só nas telas, mas… Eu tive mesmo foi que correr para o toilette mais próximo, depois de ter recebido o resultado daquele exame: positivo. Sim, positivo. Eu estava com câncer de mama. Aos 48 anos, um filho de dez anos, recém separada do pai dele, divórcio andando, à procura de um novo emprego. A única coisa que me veio na cabeça: meu filho precisa ainda de mim!

Meu mundo caiu aos meus pés como uma melancia pesada, esborrachando ao cair no chão e corando o mundo de vermelho sangue. Como assim? Aquele carocinho no peito esquerdo, no lado do coração, que já me acompanhava desde pouco antes da minha menarca, aos 13 anos, se voltando contra mim? Como que se rebelando, justamente agora, quando eu me sentia empoderada, depois de seis semanas em uma clínica psicossomática, onde havia finalmente criado coragem para me separar do meu marido, para correr atras dos meus sonhos, me reinventar, ter mais tempo para o meu filho. “Temos que operar o mais rápido possível, não podemos perder tempo e correr o risco de contaminar o sistema linfático”, disse o médico.

Depois de mais calma, foi-me esclarecido os próximos passos, e eu estava me sentindo como que anestesiada, um robô. Estávamos numa sexta-feira. Segunda-feira eu deveria voltar, ser internada naquele hospital, seria operada, fora com aquele caroço que me passou a perna e de benigno, junto comigo já há tantos anos, mutou para maligno, bagunçando totalmente minha vida, meus planos.

O fim de semana foi usado para organizar tudo: deixar meu filho com o pai, o gato com a vizinha, tentar conseguir mais informações sobre os métodos de cirurgia. Estávamos no ano de 2008, já na era do Google, mas: como conseguir em algumas horas informações que os profissionais da medicina levam anos para angariar? “Doutor, por favor, não tire todo o meu peito, se de alguma forma for possível”, implorei. “Com certeza faremos todo o possível para modificar o menos possível seu seio”, foi a resposta. “De acordo com os resultados da biópsia, é um carcinoma in situ, ou seja, não disseminado. A cirurgia é simples, o corte pequeno, cicatriz mínima”, concluiu.

Acordei da cirurgia e ainda meio tonta, senti o peito todo enfaixado, uma enfermeira com uma voz suave me chamando, se eu estava já acordada, se sentia dores. Como senti falta da minha mãe neste momento! Mas ela estava do outro lado do oceano, no Brasil. E eu aqui sozinha neste quarto de hospital alemão, tendo que ouvir do médico o que eu menos queria ouvir, quando perguntei se o meu seio ainda existia. “Infelizmente o carcinoma não era in situ, tivemos que tirar muito mais tecido do que planejávamos e, além disto, retiramos ainda sete gânglios linfáticos da axila, o primeiro já estava contaminado, teremos que mandar o laboratório examinar os restantes”, disse o médico.

Além da análise dos linfonodos, passei a semana no hospital me recuperando e sendo submetida a diversos exames, necessários para detectar se outros órgãos já haviam sido também afetados pelo câncer. Ossos, pulmão, fígado, cérebro. A cada dia, um exame. A cada resposta negativa, eu me sentia nascer de novo. No dia em que recebi o resultado do último exame, também negativo, me sentia em estado de graça. Vesti meu roupão e saí para o jardim do hospital, deitei-me na grama, enfeitei meus pés com as florezinhas brancas que anunciavam a primavera em meio àquele verde. Agradeci. Como num transe, descobri que a felicidade está mesmo é nas pequenas coisas.

Tanto que, quando vi o que havia restado do meu seio esquerdo, sequer fiquei triste. Toda a parte inferior do seio havia sumido. O mamilo ficara pendurado, direcionado para baixo, como um pingo d’água que não quer pingar. Mas, e daí? O mais importante era estar viva, poder acompanhar o crescimento do meu filho, agora que havia decidido mudar minha vida, também para ter mais tempo para ele, que entrava na puberdade.

Sim, eu tive que fazer quimioterapia. Sim, eu perdi todo meu cabelo. Eu, que sempre usei os cabelos compridos e acreditava estar neles a fonte da minha força. Costumava me compar mesmo com o Sansão (aquele da Dalila, lembra?). Perdi cílios, sobrancelhas, unhas dos pés. E, embora as sessões de quimioterapia me deixassem sempre por algumas horas fora de ação, eu sentia uma infinita felicidade, que nunca havia experimentado antes.

Após uma semana deixei o hospital. Mesmo estando liberada do trabalho por um ano inteiro, de acordo com as regras do sistema de saúde da Alemanha, ainda fui trabalhar, pois meu ainda marido não tinha conseguido uma substituta para mim, naquela altura. E veja bem: eu ia e voltava de bicicleta ao trabalho, sendo 11km por caminho. Uma vez encontrei uma conhecida que, surpresa ao me ver assim, em cima de uma bicicleta, disse: “Ouvi dizer que você está com câncer?” Eu respondi “Fui operada. Já não tenho mais câncer, estou em tratamento e mais viva do que nunca!”

Fiquei careca. Carequinha e sem vergonha de mostrar meu crânio pelado. Usava maquiagem, vestia roupas bonitas, mas nem sempre usava uma peruca, tinha três: uma com corte pixie, uma pajem e uma comprida até o meio das costas, que era até onde iam meus cabelos, antes de perdê-los. Brincava de fazer tipo. Adorava não precisar usar secador de cabelos, pentes, achava maravilhoso não ter um “bad hair day” ou medo de chuva – foi passando por tudo isto que aprendi que tudo tem seu lado bom, só precisamos abrir bem os olhos e o coração para ver o bom das coisas, mesmo as aparentemente ruins.

Foi nessa época que eu conheci meu atual marido, através de um portal online de namoro, numa história de amor muito emocionante, que dura até hoje. Um anjo que caiu do céu para mim. Qualquer dia desses te conto por aqui como foi – quer saber? Você vai ver que as coisas acontecem quando lutamos por elas, não quando ficamos inertes esperando acontecer.

Um depoimento bastante racional sobre as vitórias na vida de Susanne Neuman depois da luta bem-sucedida contra um câncer.

Com ele corri a Alemanha de Norte a Sul, à procura de um cirurgião que oferecesse um método seguro para reconstruir meu seio. Todos os médicos, sem exceção, quando ouviam a história de como nos conhecemos, vendo-nos tão felizes e apaixonados, diziam: “O fato de você estar assim tão otimista e alegre é altamente positivo para sua recuperação, para você vencer a doença”. Desde então a positividade, a leveza do ser e evitar pessoas, situações e notícias negativas fazem parte da minha vida.

O câncer fez de mim uma pessoa melhor. Mesmo tendo sofrido efeitos irreparáveis com a quimioterapia e radioterapia, mesmo tendo desde então um dos seios completamente fora de todos os padrões de beleza.

Criei meu filho, hoje com 25 anos, de excelente caráter, com muitos amigos e uma profissão que lhe dá prazer. Hoje participo de grupos de apoio às mulheres com câncer de mama aqui na minha cidade e tento encorajá-las a lutar, serem positivas, a não se deixarem abater e a terem vontade, alegria de viver. Assim, não há doença que aguente.

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10 comentários
  1. Olá querida,vc é uma vencedora, venceu as batalhas que a vida lhe impôs, tirando algo de positivo da situação,cabeça erguida sempre,pra frente é que se anda, retroceder jamais.

  2. Oi,Susanne! Td bem? Me comovi com sua história…passei por maus bocados parecidos com sua história! Tb sou outra após o câncer de mama❤️ Valeu por nos motivar! Vc é encantadora, já estou te seguindo no Instagram 🥰Vida longa pra nós 🥂😘

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