Imaginemos tal situação: uma sociedade, após um período de caos instaurado, se restabelece promovendo o igualitarismo em setores econômico, jurídico e social, com uma acirrada campanha de reeducação pautada na propagação de igualdades. O governo, por intermédio de um Ministério específico, decide impor um ideal de beleza padrão a todas as mulheres. Nesta sociedade em questão, os cosméticos se tornam antiquados, dando lugar ao uso indiscriminado de cirurgia plástica, com intuito de eliminar qualquer possibilidade de desigualdade estética e eventual rivalidade entre as mulheres. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência, afinal a breve menção acima diz respeito ao romance distópico de 1960: “Facial Justice”, escrito pelo romancista britânico L. P. Hartley.

Tal obra, remissiva aos clássicos “1984”, de George Orwell e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, levanta questões pontuais sobre a padronização tirânica da beleza, bem como das pressões impessoais em que, não muito diferente dos tempos atuais, qualquer expressão de iniciativa individual é desencorajada pelo peso coletivo da opinião pública. Ao longo do livro acompanhamos a trajetória da protagonista Jael 97 que, diferentemente dos demais personagens, se revolta contra o regime totalitário para garantir o desejo de ser ela mesma.

As narrativas distópicas são construídas com a finalidade de, ao abordar temas verossimilhantes e potencialmente vivenciáveis, advertir para os eventuais caminhos tomados na progressiva redução de liberdades, de modo que, apesar de ter sido escrito há mais de quatro décadas, “Facial Justice” surpreende-nos pelo tom revelador, e, não menos, atual. Pensando em “Facial Justice” é que me pergunto: quantas vezes, ao abrir o Instagram, por exemplo, não sentimos aquela sensação de déjà-vu ao ver rostos e corpos que seguem um padrão de beleza tirânico; como se um Ministério da Justiça Facial assim o exigisse?

Das pequenas telas, maximizam-se preocupações excessivas com ideais narcísicos, prescrições de “curas” para obter o corpo perfeito mesmo às custas de um sacrifício que perfura e sulca a própria carne. Com apenas algumas palavras-chave no Google, por exemplo, já nos defrontamos com dados que apontam o Brasil como líder no ranking em cirurgias plásticas, liderança que se sustenta, a contrapelo do bom-senso, em pleno período de pandemia.

Dentre os inúmeros efeitos do isolamento social, o peso da pressão estética ainda é colocado nos ombros das mulheres, o que nas palavras de Naomi Wolf seria uma “perpetuação da insatisfação com o próprio corpo que, consequentemente, mira-se cada vez mais em um ideal inatingível. ” Já que estamos sob as leis de tempos tão particulares como os atuais, em que realidade e literatura se confundem, a personagem outrora referida (da obra de L.P. Hartley) nos faz perceber (como um incômodo alerta para a atualidade) de que toda padronização só se sustenta na imposição de um modelo que, se projetando, anula ou aniquila todas as diferenças.

Vista-se desta ou daquela forma; use e abuse deste ou daquele modelo; faça uma harmonização para garantir um rosto perfeito, quer dizer em outras palavras: assuma e duplique este padrão uniforme de beleza, cuja imposição aponta para o fato de que, apesar de tudo, não somos tão livres como supúnhamos.

Nas redes sociais – à maneira das grandes arenas romanas – proliferam-se uma rivalidade de desejos em que, em nome de uma falsa autenticidade, muitos caem nas teias de mecanismos que desconhecem. Assim como o Ministério pensado por L.P. Hartley, em que os padrões são criados de maneira artificial sem que sejam suspeitados, muitas das tendências atuais são como fórmulas “miraculosas” criadas em laboratório.Talvez, Hartley não imaginasse que, em um futuro próximo, os contornos de sua narrativa ganhassem vida por meio das chamadas redes sociais que, como laboratórios, reforçam a produção indiscriminada de padrões como uma cura para os males estéticos e psicológicos. A diferença é que, em vez de uma voz onisciente que vigia e obriga a intervenção nos rostos, o mundo virtual – embora estimule um potencial senso de liberdade – faz com que todos se tornem “excelsos” Ministros em nome da tirânica justiça facial.

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2 comentários
  1. INCRÍVEL seu texto! é uma realidade que assusta, algo que foi escrito no século passado e que se faz mais atual do que na própria época de sua publicação. as mulheres estão cada vez mais aprisionadas a padrões de beleza INALCANÇÁVEIS, desenvolvendo assim transtornos alimentares e até doenças PSICOLÓGICAS. Infelizmente a Indústria da beleza segue fazendo vítimas, ela faz com que nós mulheres tratemos o inimigo de forma branda, de forma que ele não exista e que no lugar seja uma solução. é uma forma de controle, de nos distrair, de nos afastar de grandes ocupações, grandes cargos políticos e darmos atenção somente a beleza, a vangloriar a imagem no espelho que nunca parece se fazer SUFICIENTE.

    1. Muito obrigada, Gabriela!
      Sim, de fato, é algo que impressiona (ainda mais sendo uma distopia). Esses padrões tem sido uma verdadeira prisão e claro que não parece ter fim, pois o próposito parece que nunca é alcançado, pois o círculo vicioso é de que há sempre modelos pronto para serem seguidos. Os transtornos psicológicos estão aí, ainda mais nesse período de pandemia que, surpreendemente, os números de cirurgias plásticas aumentaram. Lembro de um trecho do poema de Yeats que diz a seguinte coisa: “estou procurando o rosto que eu tinha”. Vejo que não é apenas para algo físico em si, mas aquele rosto que guarda a substância primeira que faz com que nos reconheçamos diante do espelho.

      Abraço!

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