Como combinado, lá estava ela, uma semana depois da primeira consulta. Logo de cara, foi me contando da semana diferente que teve. Metódica e organizada, havia comprado logo vários pacotes de lencinhos, que distribuiu em diferentes bolsas, além de deixar uma reserva no carro (essa lição eu aprendi com ela e ensino muitas mulheres, até hoje!). Com isso, passou a ir ao banheiro para urinar onde quer que estivesse e, surpresa, percebeu que não sentia mais um peso no “pé da barriga”, ao final do dia.

Opa! Essa queixa de dor, eu não tinha registrado… A posição para urinar lhe pareceu bem confortável, o xixi estava saindo com um jato mais forte e bem clarinho, por causa do volume de água que estava tomando. E surpresa maior, embora estivesse tomando muito mais água, não estava mais se levantando para urinar na madrugada.

“Como se explica isso, doutora?”
“Provavelmente você está conseguindo esvaziar bem a bexiga antes de se deitar e, tendo tomado a última porção de líquido 2h antes de ir para a cama, não terá um enchimento surpresa.”

“Ah, tem outra coisa: eu agora me deito e leio uma meia hora e, depois disso, tenho voltado ao banheiro e feito mais um xixi, antes de pegar no sono.”
“Pronto, agora matamos a xarada! Quando você repousa na horizontal por uns 30 minutos, estabelece um fluxo de sangue em seu corpo, diferente daquele de quando está em pé, e o retorno venoso (volta do sangue pelas veias da perna) é facilitado e, com isso, tem mais sangue a ser filtrado pelos rins, acelerando o enchimento da bexiga. E seria justamente esse enchimento da bexiga que você teria nas primeiras horas de sono, por isso consegue agora ter autonomia para ficar sem urinar a noite toda!”

“Nossa, quanta coisa boa em mudanças simples na minha rotina, não?!”
“Pois é, consegue imaginar até onde podemos chegar juntas, com o seu tratamento?”

“Consigo sim, e já decidi: vamos seguir em frente, qual é o próximo passo?!”
“Você está conseguindo fazer cocô fora de casa?”

“Isso está complicado, muitas vezes nem vontade eu tenho. Como eu falei, faço a cada dois dias, e só consigo em casa.”
“Entendi, vamos começar o tratamento com um programa de exercícios de fortalecimento pélvico, eu te ensino uma série e você a repete diariamente, em sua casa. Vai ser coisa de uns 10-15 minutos, aproximadamente. E te darei mais uma recomendação, e uma nova tarefa. A recomendação é: não carregue peso e nem faça grande força abdominal, até estar com os músculos pélvicos bem fortalecidos. Vamos poupá-los, para poder exigir deles todo o esforço nesses exercícios.”

“Está bem, isso eu consigo me ajeitar para fazer sem dificuldade, e a tarefa?”
“Você vai cortar uma laranja com casca em quatro e deverá comê-la todinha, jogando fora apenas a casca e as sementes, cerca de 2h após o almoço, junto com um copo de 250 ml de água.”

“Ah, é vitamina C, né?”
“Não, é pela quantidade de fibra que você vai ingerir diariamente que, junto com a água, vai ajudar a amolecer um pouco as suas fezes. E mais amolecidas, elas estimulam muito melhor os receptores que existem na sua ampola retal, a vontade vem mais forte e, se você aproveitar a vontade e for ao banheiro, as fezes vão sair mais facilmente. E ainda ganha uma dose de vitamina C, de brinde!”

“Essa tarefa também é fácil, eu gosto de laranja, vou comprar sempre e guardar na geladeira para não faltar.”
“Perfeito. E quando der uma vontade de evacuar, por menor que seja, pegue os seus lenços umedecidos e vá, certo?”

“Vou tentar, vamos ver se a vontade vem.”

E assim, parti para ensinar a primeira etapa de exercícios de fortalecimento pélvico, com uma série em que se reconhece e movimenta os músculos perineais. Não foi muito difícil que ela começasse a executar os movimentos corretamente e, em uma avaliação física mais apurada, percebi que ela tinha hemorroidas exteriorizadas.

Perguntei se sangravam e doíam, e ela disse que tudo piorava se ficasse mais tempo sem evacuar e que, com a laranja, acreditava que ia melhorar bem. Percebi que o assunto a incomodava bastante, anotei tudo em seu prontuário, acertamos o pagamento do tratamento em parcelas e ela me perguntou: “Posso fazer os exercícios a qualquer hora?”

“Pode sim, mas sugiro que escolha um horário próximo de alguma atividade que você faça rotineiramente, para não se esquecer, agora no começo. E, preferencialmente, tendo evacuado, pois a ampola retal cheia dificulta a percepção da força que você coloca no movimento desses músculos pélvicos.”

“Tá certo então, a gente se vê na semana que vem!” Nos despedimos e fui arrumar a sala para a próxima paciente, e fazer um xixi. Ao jogar o papel higiênico que eu havia usado, notei que havia um absorvente higiênico enrolado, jogado no cesto.

Achei estranho, pois era a primeira paciente do dia, mas não pensei mais nisso.
Por um bom tempo.

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