Aparentemente eram só algumas perdas de urina, mas havia um passado de vergonha e sofrimento, por trás de tudo isso…

A minha (im)paciente melhorava a olhos vistos. Depois de 6 semanas fazendo diariamente os exercícios de fortalecimento pélvico, o “peso no pé da barriga” tinha desaparecido, já fazia xixi quando dava vontade e usava seus lenços umedecidos que carregava na bolsa, não acordava mais durante a noite para urinar, as perdas de urina aconteciam com menos frequência e já sentia que a vagina apertava mais, quando fazia o toque, durante os exercícios.

Toda animada, contou que ousou fazer o contrai-relaxa durante a relação sexual e o marido gostou muito e que, nas últimas semanas, estava evacuando sem muita dificuldade, sempre em casa, pela manhã. Uma evolução muito parecida com a de outras mulheres que eu já havia atendido antes, que passavam a reconhecer a pelve como parte de si.

Sim, é bem frequente que “as partes baixas” como muitas dizem, sejam uma porção ignorada do corpo da mulher, ao longo da vida. Em nossa conversa semanal, perguntei se ela havia deixado de usar absorvente para as perdas de urina, e ela disse: “Mas eu nunca tive que usar absorvente por causa de xixi, sempre perdi muito pouco!”

E, de pronto, eu interpelei: “Mas você não usa absorvente nunca? Para nada?” Ela me olhou assustada e, em seguida, caiu no choro. Foram uns minutos ali, soluçando alto, e eu só segurei sua mão, sem entender nada. Ofereci um lenço, água e, um pouco mais calma, ouvi uma história muito triste, que eu jamais imaginaria.

“Doutora, eu faço o cocô em casa e, mesmo assim, sai na roupa. Não é pouco, só de borrar a calcinha, é muito, suja tudo e tenho que me trocar. E eu não sinto quando acontece, vivo isso há vários anos, meu marido não sabe e, como trabalho na minha empresa, volto para casa, me lavo e troco de roupa quase todo dia, quando isso acontece. Nunca contei para ninguém, tenho vergonha de que as pessoas vão perceber que estou cheirando mal, ou que não me limpo direito, mas não é isso. Não sei o que é, mas o meu ânus não segura o cocô, quando vem. E eu quase não percebo.”

E continuou: “Por isso uso um absorvente e fico conferindo, se sujou, vou me lavar. Meu marido sempre fala que eu sou a mulher mais cheirosa que ele conhece, porque tomo banho duas ou três vezes no dia, e troco de roupa, e acho que ele jamais ia entender se soubesse disso. Quando vamos ter relação sexual, faço um chuveirinho, para tirar tudo o que tiver lá dentro e nunca teve problema, mas estou o tempo todo preocupada. A senhora entende?”

Eu não só entendia, como imaginava exatamente o sofrimento daquela mulher para disfarçar por tantos anos um problema de saúde desse porte, sentindo-se inferiorizada, envergonhada e, muitas vezes, mal-cheirosa. Muito mais do que uma incontinência urinária, ela tinha uma incontinência anal, e isso iria alterar toda a nossa rota e, enquanto eu anotava tudo o que havíamos conversado, ela perguntou:

“Desde que eu comecei o tratamento, tenho feito um pouco mais de cocô no vaso e tem sobrado bem menos para sujar a minha roupa. Além disso, parece que algumas vezes estou conseguindo perceber que vai escapar um pouquinho, e tem sido mais fácil para mim. É possível que os exercícios melhorem isso também?”

Sim, com certeza o fortalecimento pélvico estava acontecendo naqueles músculos, que são exercitados conjuntamente, e isso era um bom sinal. Mas tínhamos outras etapas para vencer.

“Preciso que você faça uma consulta com um coloproctologista, eu vou sugerir alguns nomes, e você escolhe o que lhe for mais conveniente. É fundamental fazer exames para avaliar o nível de perda de esfíncter que você tem e definir o tratamento, que não será somente com exercícios. A boa notícia é que tem tratamento, e você não precisa mais ficar sofrendo em silêncio, sozinha.”

Demos um longo abraço e ela foi embora, aparentemente mais leve. E me deixou ali, me sentindo muito incomodada por ter atendido essa mulher por tantas semanas sem perceber que isso acontecia, sendo eu uma especialista na área. O que me consolou um pouco foi entender que, quando uma condição nos dá vergonha, podemos nos tornar experts em escondê-la… Mesmo dos especialistas!!

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