Quando escolhi esse título, Metamorfose, confesso que pensei mais no Kafka do que na borboleta. Ao mesmo  tempo, não dá pra negar que a menopausa é processo intenso de transformação, evolução e  renascimento de uma nova mulher. Pelo menos pra mim. 

Me enchi de coragem pra contar pra vocês como foi esse meu processo de metamorfose. Era março de 2015. Me dei conta que havia uns meses não menstruava. Liguei pra minha  ginecologista e, como fiz uma laqueadura no parto do meu 2º filho, a possibilidade de uma  gravidez aos 43 anos não passava pela minha cabeça. Em todo caso resolvi confirmar. Minha  mãe engravidou de mim aos 41….. Para a minha surpresa ela responde: “pra Deus nada é  impossível”. Quase fiquei louca, corri na farmácia, fiz o teste. Claro, deu negativo. Eu nem  cogitava a possibilidade de estar à caminho do climatério. Mudei de profissional. Acredito  mesmo que o universo conspira e acabei nas mãos de uma querida gineco antroposófica que  me acompanha até hoje. Não tinha nenhum sintoma, só a menstruação irregular. Fiz todos os  exames, tudo normal. Fui alertada a ficar atenta. O ano de 2015 seguiu sem mais tropeços. 

Em janeiro de 2016, menstruei mais de 1x no mês com fluxo muito intenso e meus calores  subiram à cabeça. Literalmente. 

Fiz exames novamente e tudo, simplesmente tudo alterado.  Não só os hormônios, mas o ferro, ferritina, vit D e vit B12. Decidi que ia passar por essa fase  sem ajuda de hormônios. Até hoje não sei se foi por teimosia ou uma intuição muito grande  que me dizia pra me enfiar de cabeça naquilo que estava por vir. Procurei me informar a  respeito, falei com as minhas irmãs, minhas primas, minha mãe, mas ninguém falava nada  com clareza. Eu, ávida por informação e por compartilhar vivências, acabei entrando nessa  sozinha. Não era e nem sou muito tecnológica. Nenhuma amiga ainda tinha passado pela tão  temida menopausa. Mas, mesmo assim, falava do assunto pelos cotovelos. Não esqueço uma  vez que, contando como eu estava a uma amiga, ela me diz: “Lívia, nunca te vi reclamar de  nada, isso deve ser muito ruim. Já decidi. Quando chegar a minha vez vou fazer reposição  hormonal”. 

Em julho do mesmo ano meu pai faleceu. Aí minha fase kafkaniana deu as caras. Não sabia se  estava de luto, deprimida ou em uma constante tpm. Muito provavelmente os 3 juntos. A  medicação antroposófica entrou em ação para o meu suporte emocional. Sentei com o meu  marido, contei que a coisa não ia bem.Tive um imenso apoio. Na época eu corria. Aproveitei,  entrei de cabeça nos treinos de 1/2 maratona, o que me ajudou muito mentalmente e  fisicamente. A dor da perda do meu pai era muito grande, precisava viver o luto e transbordar.  Sofri, chorei, me descabelei, perdi a referência de mim mesma. Quando olhava no espelho não  me reconhecia. A sensação que tinha era de ter envelhecido. Não só pelos vincos, rugas,  cabelos brancos mas pela incapacidade de reproduzir. E ai pensei em todas as mulheres que  não puderam ter filhos. Senti a dor delas. Chorei. Mas, teimosa que sou, decidi: ou renasço,  tipo fênix mesmo, ou a casa vai cair. Vi a minha vida passar como um filme na minha cabeça,  as escolhas que fiz, porque as fiz. Escolheria diferente? Talvez. Mas não seria a mulher que  sou hoje. Me vi com uma necessidade viceral de dar um exemplo de mulher pra minha filha, na  época entrando na pré adolescência, e pro meu filho, ainda criança. Como fazer isso? Eu que  tinha decidido abandonar tudo pra passar uns anos fora com meu marido, te-los por lá e  assumir 100% meu papel de mãe, mulher, esposa (plagiando a Miriam, não necessariamente  nessa ordem)? 

Mas, se eu me definisse em uma palavra seria otimista e então, não desisti. Fui ver o lado bom  daquilo tudo ( ja tinham se passado 2 anos…..) vi que a mulher que renascia tem uma história  de vida incrível, construiu uma família da qual só me orgulho, amigos maravilhosos, um  companheiro que me apoia em todas as decisões. Tive uma luz, resolvi mostrar o lado da Lívia  não mãe pros meus filhos. Contei minha história de vida, carreira enquanto existiu, escolhas.  Foi lindo ver a carinha deles me resignificando em suas vidas. Minha filha começou a fazer  parte do coletivo feminista na escola. Achei o máximo. Me fortaleci. E, como tenho uma alma  de cuidadora, resolvi cuidar de mim. Comecei por fora, o dentro ainda precisava ser acolhido.  Queria ver a beleza da mulher madura que florescia. Eu comigo, pra mim. Vestir-me de mim  mesma. Precisava apreciar a minha companhia de novo. Isso já era final de 2017. Pra  completar o turbilhão emocional dessa fase, no meio daquele ano chegou a Fiona, minha filha pet, uma buldogue inglesa super mega temperamental e dominante que veio nos trazer seu  amor e possessividade incondicional e acalmar meu coração. 

Em março de 2018 minha filha minha teve sua menarca e eu menstruei pela última vez.  Respirei fundo e virei borboleta. 

Acabei me tornando a irmã mais velha das amigas menopausantes. Desde então, gosto muito mais de mim. O tempo é generoso comigo. Me  permito. Me acolho. Me cuido. Faço escolhas. Faço piada de mim mesma. Dou muita risada. Continuo chorona. Chorei escrevendo esse texto. Experimento. Desisto. Começo de novo. Falo sobre tudo que me incomoda. Busco e troco informação. E o Inconformidades nasceu pra isso. Obrigada pela oportunidade! Sou super fã de todas vocês! 

Com carinho, 

Lívia

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