Dia desses, estava fazendo uma limpeza daquelas aqui em casa e encontrei uma pasta das antigas, com desenhos que eu fazia quando tinha cinco ou seis anos de idade. Um deles era da fada Sininho, que copiei de algum dos meus livros de histórias. Tinha jeito para a coisa. Sabia copiar direitinho, quer dizer, as coxas da Sininho estavam bem grossas, acho que tipo versão plus size, mas, mesmo nessa versão mais fofa, a fada estava linda com sua varinha de condão.

O desejo por desenhar e pintar se estendeu por muitos anos, e foi até os meus 17 anos, mais precisamente. Pintei muitos quadros, escolhia a dedo os calendários que minha mãe tinha, com muitas paisagens, flores e casinhas, prato cheio para eu copiar as imagens, colorir do meu jeito, dar meu toque todo especial.

Nessa fase da adolescência, nós já tínhamos nos mudado para um sobrado em São Paulo. A copa era o lugar onde eu podia esparramar todos os meus materiais, mala cheia de tintas a óleo, inúmeros pincéis, cavalete e muitas telas de tamanhos variados. A alegria de pintar era tanta que eu nem me lembrava de beber água ou comer. Pintar me transportava para um mundo só meu, de profunda concentração, entrega e felicidade. A arte me colocava em um lugar sagrado, de quase meditação, meu nirvana.

Eu queria que o mundo soubesse quem eu era, desejava vender meus quadros e, quem sabe, essa seria minha profissão. Na época, eu estudava processamento de dados. A arte me arrebatou e me salvou daquele mundo lógico, duro e preciso.

Foi quando eu soube de um concurso da prefeitura, em que os ganhadores poderiam expor suas obras todos os domingos em frente ao museu do MASP, ali na Avenida Paulista. As condições do teste eram levar três obras originais no dia da prova e pintar um quadro ao vivo, sem olhar em foto ou desenho algum. Era a hora da verdade.

Como eu não tinha originais, afinal, só sabia copiar dos calendários, levei com orgulho meus três mais bonitos quadros copiados. Não preciso nem dizer a tragédia que ficou a pintura que fiz na hora, afinal, como não sei desenhar, apenas copiar, meu mundo escorreu entre as tortas e desorientadas pinceladas.

Terminada a prova, uma comissão de cinco pessoas avaliava cada participante, olhando as obras originais e a que havia sido feita ali na hora. Meu coração estava acelerado enquanto olhavam as telas que trouxe de casa. Uma das senhoras disse: “Que lindo seu trabalho, meus parabéns. Mas me diga uma coisa, essas obras são originais ou cópias?”. Nisso desabei a chorar e, desmilinguida como a tela que acabara de pintar, disse que eram cópias, que eu adorava aquelas imagens e que copiei do calendário da minha mãe, mas que meu desejo de expor era muito grande, e por isso levei esses quadros mesmo assim.

Quando terminei meu relato, a senhora prosseguiu: “Ainda bem que você disse a verdade, garota. Está vendo esse senhor aqui de barba que faz parte dessa comissão? Pois então, ele é o autor das obras que você copiou”.

Meus joelhos batiam palmas de tanto nervoso e minha vontade era de me abraçar ao cavalete para me manter firme. Respirei e ouvi o que o tão admirado artista que eu copiei tinha para me dizer: “Menina, você pinta muito bem. Se aprender a desenhar, terá um grande futuro com as artes. Ah, obrigado pela preferência em copiar três das minhas obras”. Eu já estava sem respirar havia meia hora quando eles se viraram e foram para o próximo candidato.

Comecei a guardar meus pincéis na maleta, fechar o cavalete e embrulhar as cópias para ir embora. No caminho de casa, chorei. Contei a experiência para meus pais e, com um profundo desânimo, a única coisa que restava a fazer diante de tal vexame era esperar uma resposta via correio com um categórico REPROVADA com louvor!

Passados uns 15 dias, o carteiro veio com a notícia. Abri o envelope desanimada e com medo, mas, para minha grata surpresa, ali tinha um pequeno milagre, acho que uma pincelada mágica da versão fofa da fada Sininho. Eu havia sido aprovada. A única coisa que me ocorre é que ter dito a verdade, sem titubear, coloriu meu caminho de possibilidades.

(Essa crônica é do meu livro Vou Ali e Já Volto – 40 Anos no Deserto)

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