O que ficou bem claro para mim depois de ter estado nove meses em Astano e depois de ter conhecido Frédéric, foi que não haveria mais a volta para Baia Formosa, para o Carioca. Não haveria mais a sonhada “nossa” pousada. Eu teria que ir lá, sim, para pegar meus pertences, ou o que havia sobrado deles, aquilo que Carioca ainda não havia vendido para para se manter, inclusive suas cannabis.

Quando recebi aquela proposta quase irrecusável do dono do hotel (“Caribe à vista!”), Frédéric já havia viajado para Lyon, para visitar sua mãe, antes de partir para São Bartolomeu. Impulsiva que sou, logo disse a Alberto que tinha outros planos, que iria para o Caribe. Alberto, homem experiente e sábio, não fez questão de uma resposta imediata: que eu fosse para o Caribe, mas sabendo poder voltar em março do ano seguinte, caso quisesse. Uma posição definitiva seria necessária somente em meados de janeiro, pois, caso eu não voltasse, ele teria que procurar uma outra pessoa para o cargo.

Quero lembrar que, naquela época, início dos anos 1990, a comunicação entre países era complicada, cara. Embora já existisse o telefone móvel, este era privilégio de poucos. Falar com Frédéric se mostrava difícil, o endereço de sua mãe, não tinha. De Lyon, ele havia decidido ir de navio para o Caribe, viagem que levaria mais de duas semanas. No navio, estava incomunicável. Assim, decidi que contaria para ele sobre a proposta de Alberto somente quando o encontrasse em São Bartolomeu.

Uma semana depois eu desembarcava no aeroporto de Recife. Aquele ar úmido e quente típico dos trópicos bateu no meu rosto como um tapa, ao descer as escadas do avião. De ônibus, fui para João Pessoa, pois Bernadete, minha amiga, me hospedaria em sua casa. No dia seguinte, partimos para Baía Formosa, Bernadete e eu, no carro dela.

Tamanha foi a minha tristeza ao encontrar o Carioca! Estava sem um dente, magro, acabado e com os olhos vermelhos de quem acaba de fumar um baseado. Fiquei intrigada ao não ver o Prêmio vermelho parado no lugar de costume. Nas paredes da casa em que morávamos, não havia mais os quadros de antes, meus quadros. Haviam sido vendidos. Minhas poucas roupas amarradas numa trouxa e outros pertences, colocados numa caixa de papelão. Tudo estava já preparado, somente aguardando que eu fosse buscar.

“Cadê o meu Prêmio?”, perguntei. Carioca me responde que o meu carro é agora aquele buggy branco que está parado na praça. Ele precisou vender o Prêmio, pois não havia tido condições financeiras para mandar fazer um conserto que se fizera necessário. Havia então comprado o buggy, talvez pudesse fazer passeios com turistas e ganhar, assim, algum dinheiro.

Senti falta das caixas de sapatos cheias de fotos, tantas eram, aquelas fotos dos nossos momentos, de passeios feitos, de paisagens bonitas, dos campeonatos de surf que havíamos organizado juntos. As fotos dos surfistas nas ondas do Pontal, as fotos das pessoas de Baía Formosa. Carioca gritou: “As fotos? Não existem mais! Eram também minhas. Fiz uma fogueira e joguei-as todas no fogo, junto com os negativos. Você não há de levar nenhuma recordação daqui!” Não havia nenhuma condição de ter uma conversa com Carioca, tão transtornado que estava, agressivo, mesmo.

Chorei, de tanta tristeza e raiva. Fotos são testemunhas de um tempo, fotos são segundos que não se repetem, que quando captados em papel podem ser guardados para sempre! Tendo estado recentemente em Baia Formosa, que tristeza eu senti ao não existir nenhuma prova de que a primeira pessoa a fotografar as ondas perfeitas do Pontal tenha sido eu. Que tristeza eu senti em não poder mostrar para a geração atual como tudo era há 30 anos…

Fui embora de Baía Formosa para Natal no mesmo dia, de buggy, o qual vendi o mais rápido que pude, por uma bagatela. Mesmo porque o carro estava em lastimável estado! Em Natal, peguei o avião para São Paulo, para a casa da minha mãe, onde esperaria o telegrama com o chamado de Frédéric, dizendo ter conseguido um emprego para mim, dizendo para que eu fosse ao seu encontro, no Caribe.

Os dias passavam e o correio não trazia o telegrama. Passaram-se três semanas, quatro, veio o Natal, o Réveillon, eu cada vez mais triste. E nada. Nenhum sinal do Frédéric. Não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Por alguns momentos, ficava preocupada: e se houvesse acontecido algo de ruim com ele? Eu não tinha como entrar em contato com Frédéric. Nenhum número de telefone, nenhum nome de hotel, nenhum endereço.

Estava ficando cada vez mais entristecida, sem rumo, até que um dia, em visita ao sítio do meu pai, este me disse: “Filha, esquece esse cara. Ele provavelmente se enrolou com as drogas de novo, lá no Caribe. Volta para a Suíça, a vida continua, você tem uma boa oferta de trabalho. Fica lá quietinha os nove meses que duram a estação de verão e repensa sua vida, vê com calma o que quer fazer no futuro.”

Foi o que fiz. Voltei, assim que pude, no final de fevereiro de 1992, para Astano. Aquele lugar me trazia muita paz, muita serenidade. Lembrava de estar bem lá. Mesmo tendo um emprego modesto de garçonete, sentia uma leveza de ser ao levar uma vida simples, sem problemas, sem grandes responsabilidades além de fazer meu trabalho da melhor maneira possível.

Nunca mais tive notícias de Frédéric. Mas também nunca o esqueci, talvez por sempre querer saber o porquê de seu silêncio. Tudo ficou na minha lembrança como um sonho vivido. Dias belos com um homem sensível, bem-humorado e carinhoso. O que será que aconteceu com ele, me perguntava até recentemente. Quando Frédéric me vinha na mente, olhava as redes sociais, curiosa, procurando seu nome, sem o encontrar.

Até que… no dia 19 de julho de 2021, recebo a seguinte mensagem pelo Messenger do Facebook: “Oi susanne.its frederic.como VC ta”, mensagem escrita exatamente assim. O francês teve coragem de entrar em contato comigo 30 anos depois do combinado!!! Eu pensei estar delirando! Como pode, algo assim? Passada primeira indignação, o susto e na certeza de que ele sempre esteve bem, comecei a rir às gargalhadas!

O que aconteceu foi exatamente aquilo que meu pai havia pensado: Frédéric caiu no mundo das drogas novamente ao chegar no Caribe.
Atualmente, continua trabalhando aqui e acolá, como cozinheiro ajudante, pelas cozinhas do mundo, inclusive no Brasil. Decidi simplesmente não responder mais às suas mensagens, não vale um minuto sequer.
Tive mais uma vez a confirmação de que Deus escreve certo por linhas tortas. Ainda bem que ele não me chamou, pois desta forma eu me safei de uma boa! Você concorda?

A melhor coisa que fiz naquela época foi ter mesmo voltado para Astano, seguindo o conselho do meu pai. Pois lá conheci então meu primeiro marido, com o qual vivi feliz por muitos anos e com o qual tive um filho, hoje com 24 anos, rapaz de boníssimo caráter, inteligente, bem-sucedido, feliz.

Eu contei para você aqui, neste maravilhoso site, metade da minha vida. A outra metade, talvez até mais movimentada, você vai poder ler no livro que será publicado no final deste ano ou início do próximo. Com certeza você vai ficar sabendo quando este estiver no mercado.

E agora, só me resta agradecer por ter acompanhado minha história até aqui e desejar a você um excelente 2022, cheio de saúde e paz interior. Saiba que o mais importante na minha escrita é você, prezado leitor. Do fundo do meu coração, obrigada. Não estou me despedindo, pois sempre que possível voltarei aqui, escrevendo sobre assuntos diversos.

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15 comentários
  1. Gostei de acompanhar suas histórias, Susanne. Também de ter passado pela sua vida como aluna de inglês na cidade de Baía Formosa/RN e de ter sido registrada pelas lentes de sua máquina fotográfica.
    Desejo saúde e felicidade na vida. Beijos, querida! Deus te proteja, sempre!
    Cris

  2. Bela jornada narrada até aqui nesse, digamos, primeiro ciclo de Susane no mundo, à busca da felicidade e da paz. Embora diferentes, Frederic é Carioca comungam de uma coisa em comum : egoísmo. Ambos precisavam aprender a amar. To eram oportunidade, mas preferiram outros caminhos. Aguardando o livro desde já . Beijos Susane.

    1. Deva, querida. Acho que os dois sofriam (sofrem?) de um profundo síndrome de Peter Pan, se recusam a serem adultos. Obrigada por me acompanhar até aqui. E vamos às teclas!

  3. Queridona!
    Te desejo mto sucesso. Tens o talento para escrita- despertas nossa curiosidade e nos mantém atentos!
    Quero ter o prazer de ter teu livro em minhas mãos e pensar – vi está escritora nascer! Sucesso minha querida amiga na distância

    Beijos

    Mary

  4. O importante é seguir em frente!
    Novo ciclo, novo projeto, novas metas.
    Vida que segue!
    Obrigada por momentos maravilhosos lendo sua história.
    Vc mora no meu coração ❤
    Boas vibrações! Muita Luz!
    👯‍♀️✨💫🌟

  5. Ahhh querida Suzanne, muito obrigada por partilhar com sabedoria a sua história. E sim Deus escreve certo por linhas tortas, podemos não entender no momento, mas mais adiante temos a resposta.
    Torço do fundo do ❤️ para o lançamento do seu livro que já digo que estarei na fila para autógrafo. 🙋🏽‍♀️🥰 📕
    Muito obrigada por seus maravilhosos textos e conversas.
    Um grande abraço fraterno abraço 🫂

  6. Querida!!!!! Sabia que um dia você publicaria um livro!!!! Parabéns do fundo do meu coração! E claro lançamento no Brasil, né??? Sucesso!!! ❤️

  7. Ahh que demais querida ! Parabéns pelo lançamento do livro ! Com certeza será um sucesso ! Foi uma delícia acompanhar sua história por aqui ! Um grande bj ! Cax

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