Pais e filhos: Filiação e Maternidade

Hoje me peguei pensando que não sou mais filha de ninguém. E é claro que eu sei que a gente não deixa nunca de ser filho dos nossos pais, mesmo depois que eles morrem, ainda mais quando se teve a sorte de experimentar uma relação de tamanho amor, companheirismo, atenção e amizade. Não é isso. Percebi a seriedade da conclusão do meu papel, desse ciclo, e como é difícil processar essa outra perda, imaginar toda uma vida futura não sendo o que me identificou como ser humano desde o primeiro dia com eles.

A filiação é uma condição. Talvez por isso seja tão desconcertante conseguir nos encontrar (e nos enxergar) além dela. Dessa imposição que para alguns sortudos é uma experiência maravilhosa e para outros um fardo. Não é uma escolha. Ela costura a nossa existência até depois que ficamos órfãos e precisamos lidar com o luto, com a saudade, ou a culpa. Porque a verdade é que somos o reflexo e o adverso daqueles que nos criaram. Marcados irreversivelmente.    

O curioso da vida é que ela sabe muito bem onde encaixar as novas peças do jogo, é dinâmica, regendo soberana suas próprias intenções. No momento que começamos sucumbir à vulnerabilidade da falta da “retaguarda parental”, sem mais nem menos, somos seduzidos pela emancipação da nossa liberdade. Como se agora como primeiros da fila, apesar da exposição, o horizonte ficasse mais claro, compreendêssemos o sentido e poder dessa autonomia plena. Foi o que descobri.   

Eu encerrei o meu aprendizado filial. E daqui seguirei, revendo o que restou no meu prato, estou nesse movimento, decidindo o que fica e o que ficou para trás com quem não sou mais. Transformando também a minha maternidade, porque essa sim foi uma vontade, e talvez eu tenha muitas vezes confundido o que realmente implica esse compromisso, projetando a minha bagagem pregressa nos meus excessos de mãe. Esses pequenos pecados que cometemos fingindo não perceber, na maioria das vezes desculpáveis, mas claustrofóbicos. Preciso me ater a ser apenas amor e impulso. 

No final das contas, nossos filhos não merecem herdar e viver outra história que não seja aquela escrita por eles mesmos. Para sermos todos livres, ávidos apenas do privilégio das nossas companhias.

Paula Mazzoli

Leia também: Ser mãe é um ato de resistência

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