Olá, chegamos ao final do mês e, certamente, você já sabe que junho é o mês do orgulho LGBTQIA+. Como colaborador desse projeto lindo que é o Inconformidades me submeti a uma pressão, totalmente interna, de escrever um texto de impacto que celebrasse todos os arcos-íris que têm me inebriado nas mídias sociais.

Acontece que não vi nenhum arco-íris no céu neste mês de junho, só vi a diversidade das cores na tela do celular… e isso me bloqueou. Não queria escrever um texto mal-humorado e rabugento, reclamando do Estado homofóbico em que vivemos, do recorde de assassinatos de pessoas trans no Brasil ou do enorme endopreconceito que existe dentro da nossa própria comunidade LGBTQIA+ (já já explico do que se trata).

Consegui encontrar alguma inspiração nas últimas semanas ao me envolver no lançamento do programa de pessoas aliadas da empresa onde trabalho, inspiração que recebeu um boost matinal quando li o post do meu primo amigo amado Gustavo Graça. Resolvi explorar então o conceito de allyship, sem uma boa tradução para o português, que representa o movimento de apoiar de forma substancial causas que extrapolam a vivência individual de cada um, unindo vozes aos grupos minorizados.

Mas o que significa ser uma pessoa heterossexual aliada ao movimento LGBTQIA+? É muito mais do que gostar de Madonna ou assistir Ru Paul’s Drag Race. É muito mais do que ter amigos gays brancos de classe social econômica privilegiada e se divertir com eles nas férias ou valorizar sua sensibilidade nos momentos difíceis.

Aliar-se a qualquer causa ou bandeira de um grupo minorizado passa primeiro pelo letramento, por educar-se de forma proativa e com humildade, reconhecendo que é a fala do outro que determina o tom e lidera as discussões. Ser uma pessoa aliada ao mundo LGBTQIA+ (sim, somos um mundo diverso e desigual que navega em meio a essas siglas que representam pessoas e vidas) começa por entender e validar a existência de cada uma das letras, que só crescem não é mesmo? Não reclame! E familiarizar-se com as nuances que envolvem os conceitos de orientação sexual, gênero e auto-expressão.

Aliades, para introduzir uma linguagem neutra, precisam se comprometer. Compromisso de levantar a voz sempre que se deparem com agressões contra o nosso grupo, mesmo que se trate de micro agressões, que na perspectiva da pessoa aliada seja algo inofensivo ou tolerável. Ser uma pessoa aliada não é postar o arco-íris no Instagram, é ensinar os filhos a não compactuarem com práticas de bullying na escola e exigir das escolas políticas claras de acolhimento a crianças e jovens LGBTQIA+.

E por que precisamos de pessoas heterossexuais aliadas? Porque não conseguimos combater a violência sozinhos. Porque precisamos amplificar nossas histórias usando vozes privilegiadas que podem alcançar lugares onde não estamos, seja no congresso nacional ou na mesa do almoço de domingo na casa dos avós.

Aliadas

Mais do que isso, precisamos ser aliados de nós mesmos e dos nossos grupos. O preconceito contra a população LGBTQIA+ não vem apenas de fora, vem de dentro também. Lidamos e praticamos o endopreconceito constantemente. É o preconceito contra os meninos mais efeminados e as meninas menos femininas, de acordo com padrões artificiais e impostos. É o estigma contra os portadores do HIV, ou o total desinteresse e falta de visibilidade dos corpos dissidentes. É a piada que ridiculariza a bicha pobre da periferia e a objetivação sexual do homem negro. Sem falar na exigência exagerada de um físico e aparência exaustivos e superficiais que, na maior parte das vezes, só causa baixa auto-estima, insegurança e frustração nas relações…

Se por um lado, a ideia de ter pessoas aliadas é muito forte e necessária, pois não se luta sozinho, por outro, a compartimentalização desse compromisso entre grupos e raças, gêneros e causas é reflexo de um interesse limitado pelo espectro humano. Devemos ser aliados de todos, todas, todes. Devemos ser aliados de nós mesmos e dos nossos iguais. O que nos diferencia é infinitamente menor daquilo que nos une. E você, é uma pessoa aliada de quem?

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