Algum tempo atrás, Laura, uma amiga 50+, me disse em tom de reclamação: “Queria entender por que sou excluída da programação de amigos casados”.

Como assim? Tomei um choque com a frase. Tentei puxar pela memória, mas, de fato, não consegui me lembrar quando foi a última vez que eu e meu marido convidamos uma pessoa solteira para sair, jantar em casa ou apenas tomar um sorvete. Geralmente saio sozinha com as minhas amigas solteiras.

Seria culpa dos decoradores e das lojas de móveis? Parece que as nossas mesas sempre foram calculadas para receber um número par de pessoas. Ou você já viu projetos com uma mesa para três?

Laura me disse que, quando um casal a convida, ela já sabe a intenção: apresentá-la a “um amigo maravilhoso, que acabou de se separar e que combina muito com você”. Ou seja: o jantar, em geral, um tanto constrangedor, não é a três, é a quatro. “Sabe quantas vezes eu ouvi: ‘Está na hora de você namorar alguém’?”, desabafou. “Parece que estão me dizendo: ‘Só volte aqui quando arrumar um par’”.

O que os casados querem dizer com essa imposição?, ela me perguntou, já dando as alternativas: Casamento é tão bom que desejamos isso a você também. Ou admiramos a sua vida louca, sem horários, com total liberdade, e precisamos acabar logo com isso. Eu escolhi sem pestanejar a primeira opção, mas argumentei que casamento não é exatamente uma ciência exata. Outra amiga, com uma união já bem longa, repetia que “casamento tem prazo de validade, nunca maior de dez anos. Mais que isso é enganação de rede social.”

Não tinha me dado conta que, em 20 anos de amizade, Laura tinha sido convidada por nós para jantar somente uma vez. Fomos comer uma pizza. Ela quis esticar para um barzinho, mas, com filho em idade escolar e aula no dia seguinte, não conseguimos acompanhar seu pique. Por isso, sem perceber, os casais vão criando uma bolha de pessoas com o mesmo estado civil e, principalmente, com a mesma grade horária.

Muitas vezes são novas amizades criadas pelo casal, e não os amigos solteiros que trazemos pela vida. Quando nascem os filhos, então, o quadradinho fica mais segmentado. Aí os amigos solteiros voltam quatro casinhas. Acho até que a recíproca também chega a ser verdadeira. Os solteiros deixam de ver os casados como companhias interessantes.

“Mas você é uma pessoa inteligente, bonita, simpática, astral, leve”. Laura é tudo isso, só que você percebeu o “mas” no começo da frase? Esses atributos não fazem com que ela seja obrigada a estar casada e que tenha tido “a sorte de encontrar alguém”. Sua reivindicação é legítima: “Por que não posso circular também no grupo de amigos casados?”

Ficamos uma boa meia hora fazendo várias conjecturas e não chegamos a conclusão alguma. Hoje cedo veio a grande surpresa. Laura me contou que quer apresentar o francês que conheceu pelo Tinder. Saíram algumas vezes e estão “passionés”. Virá jantar esta noite em casa. Parece que vão se casar.

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4 comentários
  1. Uma verdade vergonhosa, não é mesmo? Porque será que alguns casados evitam uma companhia plus one? Insegurança? Aqui em casa felizmente temos lugar vip para os solteiros(e as fofocas são bem mais interessantes),minha távola é redonda.

  2. Sim. Noto mesmo isto: Raramente convidamos nossos amigos solteiros para sairmos a três. Vou repensar. Gostei muito do texto, para refletir. Obrigada.

  3. Bom, finalmente Laura vai se encaixar na bolha dos casados. Quem já foi uma Laura sabe bem como é. Vivi está fase. Só que nunca fiquei chateado por ser a sem par. Até porque vivo em uma cidade de solitários . Talvez também por isso nunca me importasse de passeios na melhor companhia, a minha. Bonne chance à Laure!

  4. É isso mesmo! Parece que essas bolhas acompanham as fases de nossas vidas… recém casados, depois com filhos pequenos , e assim por diante. Já passei pela fase divorciada e realmente, raramente a mesa era oara 3 . Bem observado ! Bjs

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