Jamais fui a amiga engraçada, aquela que chega e vai contando coisas que fazem todos rir. Mas em alguns momentos da vida minhas histórias fizeram algumas pessoas pararem e prestarem atenção, pois falavam de gente, de invenções biotecnológicas, de terras distantes, do meu terror numa noite de tufão e, em algumas das vezes, elas riram. Hoje penso que o mundo precisa de leveza, de temas que nos façam rir, nos façam voltar a lugares que conhecemos ou viajar aos ainda desconhecidos –lendo, assistindo filmes ou simplesmente sonhando.

Esses longos meses pandêmicos têm deixado todos nós prisioneiros de incertezas em estatísticas de mortes, em redes sociais que mais parecem obituários. Por que, então, não deixar um pouco a memória voltar no tempo e nos permitir goles de alegria?

E onde ou como começa a alegria? Nas lembranças, num dia sem sol embora cheio de gratidão, num sapato cor de laranja, numa calça flare do brechó, num abraço demorado, em um beijo cabernet… Em tudo que nos faça feliz, inclusive quando saímos da “aldeia”. Sim, saímos da “aldeia” e colecionamos infinitas histórias – e aqui só valem as leves. Tá pronta (o) para me acompanhar “por onde andei” depois que saí da aldeia? Let’s go!

Lá estava eu tentando editar um vídeo para um exercício, utilizando passagens com imagens de estoque. Não era um bom dia, só que de repente uma excelente notícia caiu no meu colo. O professor me chamou e perguntou: “Deva san, o que você acha de ir conosco (apontando para outros três colegas) a um jantar com carne de bode, típico de Okinawa?”

Fiquei sem saber o que responder, pois nunca havia comido carne de bode e isso me deixou um pouco enjoada só de pensar. Mas recusar conhecer uma casa típica daquela região do Japão seria um pecado. Não perdi tempo ao perguntar onde e quando, pois vi na pergunta um convite que já havia sido aceito por três colegas (nossa turma tinha 10 estudantes e cada um de nós de um país).

Fui logo questionando mais detalhes do tal jantar e as respostas sobre o prato principal, apesar de me desencorajar, não foi o suficiente para impedir minha curiosidade em entrar em uma casa e ver como vive uma família da Ilha de Okinawa, foi maior.

Inclusive, isso respondia o porquê de ter visto algumas vezes dois ou três bodes sendo transportados em pequenos caminhões circulando nas ruas de Urasoe (cidade onde eu morei por alguns meses enquanto fazia o curso de vídeo técnico, como bolsista do governo japonês, na ilha de Okinawa).

Após a aula, tomei uma ducha rápida e coloquei uma calça de linho branca e uma batinha. Dei um jeitinho nas melenas e desci para o hall do prédio onde moravam os estudantes (havia uma ala só para mulheres e outra só para homens, como se não fosse possível ficar todo mundo junto e misturado) à espera do pequeno grupo que havia sido convidado.

Além de mim, um colega da Colômbia, um das Filipinas e outro da Turquia, fomos com o sensei Maekawa san, amigo do anfitrião e que estendeu o convite para os alunos. Como eu era a única mulher do grupo, deixaram o lugar da frente no carro pra mim.

Aí, me plantei à espera da porta da direita ser aberta. Eu ali plantada e todos à espera que eu resolvesse deixar o sensei Maekawa entrar no carro, pois ele iria dirigir.

Só me dei conta que havia esquecido que no Japão o carona vai no assento à esquerda, ficando a direita para o motorista, porque os colegas começaram a rir. Me desculpei. Fiz a volta no carro e lá fomos nós por ruas e ruelas estreitas de Urasoe à casa do amigo de Maekawa para o tal “churrasco de carne de bode”.

Desde a entrada na casa, localizada em uma ruelinha estreita, até chegar à garagem (numa espécie de pilotis) fomos várias vezes cumprimentados, recebendo as boas vindas. Eu não escondia a curiosidade em dar espiadelas para dentro da casa, espichando os olhos à decoração minimalista.

A família e amigos estavam reunidos na garagem e algumas partes da casa só serviram de caminho – o que não me impediu de mais tarde voltar para ir ao banheiro, onde os botões do assento do vaso sanitário renderia outro texto. Aliás, só o tema “banheiros de lugares por onde andei” renderia pelo menos umas duas histórias que, se não são de rir, são pelo menos curiosas.

Mas voltando ao lavabo dos anfitriões, quase não dava vontade de sair: tinha um confortável vaso sanitário que daria para ler um capítulo de livro, pois estava aquecido. Era o legítimo banheiro tecnológico.

Aliás, no Japão, banheiros merecem um parágrafo: os públicos (em aeroportos, bares, estações de metrô, museus) são super limpos comparados a de outros países e as privadas seguem o modelo tradicional – o que significa dizer que são no chão e que você não senta e sim fica acocorada(o), de frente para a válvula da descarga, equilibrando o corpo nos dois pés.

Depois de especular o lavabo tecnológico (hoje já usado no Brasil, mas ainda nem tão comum) voltei para o pilotis onde as pessoas estavam reunidas. Antes, porém, espichei os olhos para o “tokonoma” uma parte com pequena elevação rente a uma parede por onde já havíamos passado e que serve como sala para receber convidados. A decoração era minimalista: dois quadros e uma ikebana. Até hoje lembro da delicadeza daquele pequeno espaço com quase nada e que dizia tanta coisa.

De volta à garagem, vi meus colegas devotados a uma biiru (cerveja). E todos já saboreando o tal churrasco de carne de bode – que na verdade era um bife assado em uma pequena churrasqueira daquelas de quintal. Não conseguia me imaginar comendo aquele prato e a fome já estava, como dizem os gaúchos, deixando meu estômago colado às costelas.

Sentei em um zabuton (almofada), pois os convidados -a maioria familiares e amigos muito próximos -estavam à volta da chabudai (a tradicional mesa japonesa, baixinha, com pernas curtas). E aí começou minha saga para tentar explicar que não comeria carne. Como um convidado vai para um jantar típico de Okinawa e não come carne de bode? Pior: fazer essa desfeita aos anfitriões? Pois é… Lá estava eu.

E agora? Agora eu estava ali, com um copo de biiru na mão, tentando achar alguma coisa para mastigar e, no pouco que falava em japonês, agradecia quando o prato com carne assada passava.

Difícil não é? Pois vocês nem sabem o quão difícil ficou com um prato que a anfitriã nos trouxe: yagi sashimi. Ou seja, um prato feito à base de carne de cabra crua. Se o churrasco de bode eu sequer havia colocado na boca, imaginem o yagi sashimi. Estava pensando sobre um certo odor do animal… Socorro! Explico melhor: no yagi sashimi as fatias de carne de cabra crua são apresentadas da mesma forma que um sashimi de peixe ou frutos do mar.

Mas como eu poderia seguir dizendo não a tudo que me ofereciam? Não sei. Mas um quase milagre aconteceu: chegou à mesa uma bandeja com caqui. Foi mesmo um alívio ouvir o sensei dizer: “Deva san, você aceita kaki (caqui)?”. Sim, respondi imediatamente. E, quando estiquei a mão para pegar a fruta, o anfitrião perguntou como chamávamos aquela fruta no Brasil. Respondi que praticamente igual, com leve diferença na acentuação.

Estou livre do bode, pensei, depois daquele rápido bate papo com o anfitrião -amigo de longa data do sansei. Mas não. Não estava.Afinal, como aquela Burajiru Hito (brasileira), a primeira (e talvez a única) que visitava a família, sairia de lá sem provar as iguarias com carne de bode? Eu estava literalmente ralada.

Lá veio novamente o yagi sashimi. E eu, num ato de coragem e pedido aos céus de que eu não passasse nenhum mico, coloquei a carne no molho e… Consegui engolir. Sob olhares de aplausos, tomei coragem e finalmente coloquei em uso o hashi. Antes não tivesse feito: após biiru, caqui e yagi sashimi, meu dia amanheceu numa correria entre a cama e o banheiro. Eu estava literalmente bodeada.

Reuni forças, tomei um banho e me desloquei para a ala destinada às salas de aula. Quando atravessava a longa escadaria entre o alojamento dos estudantes e a ala onde se realizavam os cursos, encontrei a coordenadora que, preocupada com meu atraso decidiu ir, literalmente, me buscar no alojamento. “Deva san, estamos esperando você para começar a aula”, disse com aquele jeitinho doce e taxativo.

Sem condições de explicar que a culpa do meu atraso se devia ao yagi sashimi, tratei de dizer que estava indisposta devido “aqueles dias”. Certamente ela não entenderia que eu estava bodeada, mas entenderia uma mulher com cólicas (mesmo que na realidade as cólicas tivessem outra causa). E lá fui eu, tentando esquecer o yagi sashimi que insistia em subir e descer do meu estômago.

A menos que você seja aquela criatura que nada maltrata seu estômago, a menos que você saiba responder que não gosta do prato do anfitrião sem magoá-lo ou que você tenha chá de boldo e todo um aparato para evitar um piriri, não embarque na aventura de um yagi sashimi. Mas não se anime, é possível que lendo “por onde andei” depois que deixei a aldeia, o resultado do yagi sashimi seja só uma história.

Imagine você louca de vontade de fazer xixi em uma estrada sem nenhum posto, nenhum barzinho, nada, num carro onde somente você é a passageira e os demais são todos passageiros. Imaginou? Esta sou eu, a caminho de uma fazenda em Ghana, na África. Outro dia conto. Por hora só queria mesmo contar coisas que tirassem você do rami rami pandêmico, mesmo que fosse para contar como é ficar bodeada fora da aldeia.

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11 comentários
  1. Obrigada por Nos levar com você nas suas avEnturas pelo mundo. Amei. Viajei junto. Só não comi Do tal do bode… (linda escrita.)

  2. Gostei, como sempre, tens a habilidade de nos levar aos teus lugares com folga. mas a MELHor parte foi te imaginar bodeada, com piriri e sem pode dizer a causa. Aguardo ansioso outras histórias tuas querida.

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