Comemorei uma década de casada numa viagem romântica para a serra, nosso primeiro final de semana longe das meninas, um ano depois do nascimento da mais nova. Seríamos só nós dois trancados no “Chalé Selva”, frio de julho, lareira, massagem marroquina com óleo de argan, jantares à luz de velas preparados pela talentosa chef/dona da pousada.

Queríamos mesmo nos perder na possibilidade de não precisar pensar em nada durante aqueles três dias, ainda mais depois do último ano, equilibrando nossas atenções entre um bebê e uma abalada irmã mais velha de seis anos. Pular da cama para o ofurô e nele permanecer até a garrafa de vinho acabar.

Era só o que eu pensava, animada com a vida que pouco a pouco começava a entrar nos eixos, me proporcionando novamente a sensação que de alguma forma conquistara o direito de voltar a ser eu. Minhas pequenas cuidadas, protegidas na casa da avó, e nós, mais uma vez, um casal. A delícia de viver sem culpa duas realidades que nunca deveriam se tocar: filhos e sexo.

Quando finalmente chegamos no lugar, lindo como as fotos, a recepção não poderia ter sido melhor. Um imprevisto no check-in atrasou a entrega do nosso quarto e os donos, muito simpáticos, nos convidaram para almoçar com eles na copa da sua enorme e charmosa cozinha. Um cantinho que devia ser muito usado para convidados especiais. Exatamente como estávamos nos sentindo.

E entre taças do melhor vinho branco que até hoje experimentei, contaram, divertidos, a história do casal de adolescentes que até então tinham ficado no nosso chalé. Para a minha surpresa, o mesmo que na madrugada anterior quebrara a cama king com dossel estilo safári. Minha cama, pesquisada para ser palco da minha lua de mel decenária, sendo consertada naquele instante. Violada pelo furor juvenil daqueles estreantes.

Essa história nunca me saiu da cabeça. A lembrança da felicidade daquela dupla, aproveitando aos quinze e dezessete anos o romantismo da natureza, uma boa gastronomia, podendo se amar com privacidade, longe das interrupções e olhares dos pais. Cedo demais, talvez, mas minhas considerações hoje sobre esse caso são completamente diferentes do absurdo que pensei existir na decisão da mãe da menina ao oferecer a estada como presente de iniciação sexual dos dois.

Tão claramente genial, gritando “irresponsabilidade” para os meus ainda recalcados e protetores instintos, embaralhando os tais mundos que eu preferia manter separados. Como se o que eu estivesse fazendo, também, dois chalés depois, fosse outra espécie de ato, reservado, conhecimento adquirido secretamente (o que não deixa de ser verdade).

Poder ter tempo para aprender as primeiras lições do sexo deveria ser incentivado e me faz refletir sobre as pré-concepções que ainda carregamos por aí, nos impedindo de conversar francamente com as nossas crianças. Fingindo ser prematura essa discussão fundamental.

Colocamos o bem-estar, educação e saúde dos nossos filhos em primeiro lugar, mas falhamos, quando esquecemos de incluir nessa lista bem-intencionada a importância do aprendizado do prazer. Do conforto e graça de nos sentirmos verdadeiros- na hora e parceria certas- sexualmente. Eles vão, sim, transar, certo como dois e dois são quatro, mais cedo que pensamos. Felizmente.

O que devemos às gerações futuras é fácil e simples: desenrolar o que complicamos, pais e educadores. Para que não se percam como a nossa, lutando ainda para encontrar o que nos venderam como proibido ou desnecessário. Para que seja bom e bonito como deve ser. Porque tudo é do corpo e será sempre belo.

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1 comentário
  1. Também não orientei meus filhos de forma natural e leve, se fosse hoje faria diferente, orientando para que cada um descubra os estímulos que possam agradar e tirarem proveito dessa fase maravilhosa.

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