Um dos maiores desafios no trabalho de Orientação Vocacional é conduzir a expectativa dos pais frente a escolha do filho, especialmente quando os pais têm filhos que são, em princípio, herdeiros de seus negócios ou quando têm expectativa de que eles sejam médicos, advogados ou engenheiros. Sim, ainda há uma legião de pais que veem nas carreiras tradicionais, e somente nelas, uma possibilidade de carreira bem-sucedida.

Mais do que para mim, enquanto psicóloga conduzindo o processo, é dos jovens o grande desafio de não corresponder aos desejos dos pais. Não há filho que queira decepcionar o pai, por outro lado, não ter espaço para se diferenciar e se apropriar de sua identidade e aspirações é frustrante para o jovem.

Uma adolescente saiu de meu consultório entusiasmada ao descobrir a Fonoaudiologia como carreira. Ficamos de explorar esta possibilidade na sessão seguinte. No entanto, quando retornou, ela me disse: “Não vou mais olhar a fono. Meus pais não querem, preferem que eu veja a Medicina”. Então perguntei como ela se sentia com essa decisão, ela respondeu: “Não quero ser médica, mas não poderei ser fono. Podemos ver outra profissão?”.

Podemos sempre ver outra e outras profissões. São muitas as possibilidades de carreira e todas elas têm seus encantos e suas adversidades. Mas o ponto mais delicado aqui é como ajudar os pais a refrearem suas projeções e perceberem seus filhos além de seus próprios ideais.

Qual a reflexão para os pais?
Naturalmente quando temos filhos há sim a idealização do que esperamos para eles. Queremos que sejam bem formados, estabeleçam belas carreiras, que sejam éticos em suas condutas e felizes em suas vidas pessoais. E que bom que nutrimos estes sentimentos. Eu sou mãe de dois adolescentes e sempre desejei tudo isto a eles. Então, onde estaria o conflito?

O conflito acontece quando os pais não conseguem perceber que o desenvolvimento profissional descrito acima pode acontecer com a carreira que o filho vier a escolher, e não necessariamente com a carreira que os pais imaginaram para ele.

Existe uma preocupação com o mercado de trabalho e estabilidade financeira, essa é uma preocupação legítima e é discutida na orientação. Mas a escolha de carreira pode ir além da Medicina. Quando se escolhe uma carreira cujo percurso não é tão claro quanto nas profissões mais tradicionais, é possível trabalhar com o jovem a construção de seu mercado.

Muitos pais acreditam que, ao escolher cursos tradicionais ou pressupor que o melhor caminho seja o filho assumir seu legado, estão protegendo seus filhos. No entanto, ao invés de protegidos, os adolescentes se sentem anulados, desqualificados.

Os medos e as vivências dos pais podem e devem ser compartilhados com os filhos, mas não projetados neles. Ou seja, os adolescentes não devem tomar para si inseguranças que são de seus pais, contudo podem trazê-las para ponderação.

Frente a estas reflexões, deixo um convite aos pais: permitam-se acreditar que sim, os adolescentes podem transformar suas percepções, e sim, os herdeiros podem atravessar sucessões. Os filhos querem apenas encontrar em seus pais a legitimação por suas escolhas, e não a aprovação.

Lembrem também que a vida tem artes, animais, ciência, livros, sabores, números, a vida tem muita coisa e temos que escolher aquilo que nos deixa assim tão vivos!

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