Espero que você se lembre que, em 1970, quando meninota de 10 anos, fui para Baía Formosa com a minha família, onde meu pai tentou realizar uma de suas grandes ideias. Contei isso no episódio “O pulo do gato”. E hoje, eu vou te contar o resultado dessa tentativa.

Em Baía Formosa, ficamos morando numa casinha muito simples na Praia do Porto, onde os pescadores chegavam com seus barcos cheios – ou não – de lagostas vivas presas por armadilhas feitas pelos próprios pescadores com ripas de madeira e arame. O “Gringo”, como meu pai era chamado no povoado, era tido como um homem que cumpria sua palavra. E, nós, a família, podemos confirmar isto, de certa forma: meu pai primeiro pagava os pescadores. Conforme a quantidade de dinheiro que sobrasse, nossa cesta de compras ficava mais cheia – ou mais vazia. Ou não íamos às compras.

Moramos em Baía Formosa somente pelo período das férias escolares. Meus irmãos e eu amávamos o lugar, a liberdade e a natureza típica. Meu pai, porém, achava que a escola local não estava à altura de seus filhos. Portanto, alugou para nós um apartamento em João Pessoa.

Durante a semana, meu pai ficava trabalhando em Baía Formosa. Minha mãe, como sempre, muito preocupada com o bem-estar do meu pai, achou melhor procurar alguém que cuidasse da casinha dele em Baía Formosa; que cozinhasse para ele, que lavasse e passasse suas roupas. Uma mocinha de 16 anos se apresentou: Noa. Noa era muito alegre, dava uma impressão de muito ágil e esperta. Foi contratada.

Nosso apartamento em João Pessoa era grande, cheio de luz, num prédio de luxo recém-construído próximo à lagoa, bijoux da cidade, onde moravam as famílias mais ricas do munícipio. “Perfeito para nós!”, disse meu pai. Matriculou-nos na escola particular da elite local. Tudo ótimo. Ou quase: não possuímos móveis. Dormíamos sobre colchões no chão. Comíamos com os pratos no colo, sentados no chão.

Isso por alguns meses, até que minha mãe se cansou das promessas do meu pai: “Vamos logo, logo, poder comprar móveis de excelente qualidade.” Ela foi à feira local e comprou lá um conjunto com uma mesinha e quatro banquinhos de madeira, tudo muito simples, para que nós, as crianças, pudéssemos finalmente comer sentados, à mesa. Lembro-me de termos dividido, várias vezes, um fiambre em lata por cinco e comê-lo com pirão de farinha de mandioca com água e sal. Lembro-me de sentir fome. Várias vezes.

A vida em João Pessoa era muito constrangedora para todos nós: morar em um edifício de luxo cheio de adolescentes “filhinhos-de-papai” e sem poder convidar nenhum deles a entrar, era horrível. Brincávamos juntos pelos corredores ou no pátio do prédio, mas, na hora de entrar, tentávamos esconder a sala vazia com nossos corpos ainda pequenos grudados na fresta da porta…

Meu irmão do meio, com 13, fez muitas amizades, não parava em casa. Visitava apartamentos lindos e nos contava sobre eles com os olhos brilhando. Mas, de repente, seu comportamento mudou: fechou-se no quarto, só saía para ir à escola: haviam zombado dele, pois usava sempre a mesma calça jeans e o mesmo par de sapatos. E ficou público que a escola sempre mandava cartinhas cobrando a mensalidade. Quanta vergonha sentíamos!

Meu pai nunca nos levava junto com ele para a “sua” praia. Mas, meu irmão do meio teve por vez a honra de acompanhá-lo à Baía Formosa. Lá estando, ele estranhou com quanta liberdade e naturalidade Noa cuidava da casa. Como se fosse sua! E não demorou muito, até que um pescador contou para o meu irmão, que Noa agora era a namorada do meu pai. Voltando para casa, meu irmão nos chamou no quarto, e nós, os três irmãos reunidos (15, 13 e eu já com 11 anos) fizemos pacto de não contar nada para minha mãe. Nosso medo maior, como o de toda criança: a separação dos nossos pais.

Moramos em João Pessoa exatamente por um ano escolar, até que não houve mais dinheiro suficiente para pagar o aluguel e escola. Meu pai fez-nos abandonar tudo, saindo de fininho numa madrugada, na pick-up vermelha, agora já envelhecida pela maresia, ignorando as dívidas. O que só foi possível porque não tínhamos móveis para levar.

Mudamo-nos para a praia do Janga, próximo à Olinda, e moramos a partir daí, por algum tempo, sem pagar aluguel, numa casa em condições bastante precárias, onde estavam os viveiros das lagostas que esperavam ser embaladas para o despacho para Paris. Nesse ano letivo não frequentamos escola, que era longe e não havia dinheiro para pagar o ônibus.

A pesca da lagosta ia de mal a pior. A pescaria agora acontecia por mergulho com galões de oxigênio, tecnologia cara e moderna, que a empresa do meu pai não pôde acompanhar. Foi então o fim de mais uma tentativa do “Gringo” para ficar milionário!

Minha mãe, agora aos 49 anos, estava sem dentes, estava acabada, envelhecida e triste com tanta decepção e miséria, embora ainda não soubesse da “outra”, que, a essa altura, já existia na nossa vida há três anos. Como nós, crianças, poderíamos aprender que a felicidade é possível, vendo a pessoa mais querida sofrer tanto?

E quando a lagosta definitivamente saiu da nossa vida, entrou a produção de batata-palha no fundo do quintal, onde cada um de nós tinha uma função definida. Mas isso vou te contar em uma próxima vez… se quiser.
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47 comentários
  1. ANTIGO EDIFÍCIO CARICÉ EM JOÃO PESSOA.. FOI O MUST DOS RICOS DA ÉPOCA, MORAVA NUMA RUA ATRAS, BEM PERTINHO… LENDO SUA HISTÓRIA ME LEMBREI DE TANTAS COISAS.. ATÉ DE GENTE SONHADORA COMO SEU PAI.. RSRSR
    ESTOU ADORANDO…

  2. Muito bom ler seus textos. Apesar das dificuldades, como sua história tornou-se rica. Você merece agora uma vida leve e alegre, isso q importa… cuide-se. bjs

  3. Susane,

    Penso nas suas histórias como um longo fio que compõe uma bela tapeçaria; não deixo de ler as histórias pois cada fio tem seu encadeamento e liga com outras narrativas.
    Obrigada por compartilhar MAIS um recorte da sua trajetória.
    aBRAÇO!

    1. Que delicia! Sim, uma colcha de retalhos, um tapete de varios fios. Vida! É meu propÓsito escrever episódios aleatórios e nÃo necessariamente em ordem cronológica, mas que, como voce mesma percebeu, formam uma só hIstória! Muito obrigada!

    1. Oh! Me emociona o fato de emocionar. Arrancar risos ou lágrimas, pois quem é capaz de se emocionar, É capaz de sentir… Muito OBRIGADA!

  4. Oi Susanne, sua história é emocionante. Estou digitando em caixa alta, pois não consegui mudar…rs. A gente sempre aprende ao ouvir o outro! O seu JEITO de narrar até nos faz imaginar o que nos CONTA. Siga sua história, é seja feliz! Ainda estou tentando pular corda como você…RS

  5. Nossa que Historia ! E saber que muitas familias passaram por isto, como Voces conseguiram segurar este segredo por tantos anos? BEijos amiga😘

  6. Suzanne A Maneira que Você conta a sua história E Linda, dá vontade dd saBer mais, cHeia de iMprevistos, um pai mega aventureiro.
    Obrigada por compartilhar, estou curiosa para saber da adolescência e adulta…parabéns!

  7. Gosto mto de ler tua história. Acredito que vc fez uma boa limonada neste limão que te tocou no inicio da vida. Me eNcantaS e imagino as dores emocionais que passaram. Não foi facil ser filha de teu pai. Ele era um sonhador e a mãe devia Sofrer mto, ela era o elo de realidade. Vc tirou o melhor de ambos. Um beijo com carinho

  8. Muito emocionante. Lendo essas linhas eu realmente percebo que ou o nosso passado nos destrói ou ele nos faz forte para vencermos no futuro. E fico feliz que você como eu escolheu vencer.

    Continue pois eu quero ler mais. Forte abraço.

  9. Querida Susanne adorei, como semPre você escreve muito bem fazendo que devoremos as palavras para chegar logo ao fim. Quando poderia imaginar que aquela menina que conheci na Alemanha em 1982 pudesse ter tido uma vida/infância tão difícil. Parabéns pela sua história e pela mulher que se tornou. Aguardo, ansiosamente, o próximo episódio.🥰❤️

  10. Eu amei essa HISTÓRIA ! Nao li as anteriores mas irei ler com certeza. Posso IMAGINAR O quão dificil foi….sua mãe tão nova….poderia ter refeito a vida. Mas vcs muito pequenos para entender tudo e ainda decidir.

    Mas tenho certeza que tudo isso ccontribuiu para ser a mulher que você é hoje.
    Muito obrigada por compartilhar !

    1. Eu me identifiquei com sua história, pois eu sempre estudei em escola particular mas ia a pé pra escola, às vezes ia de carona, não tinha dinheiro pro lanche e morria de vergonha da minha casa sem móveis… era deprimente..

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