2021 sem Réveillon nem Carnaval. Não sei lidar. Neste ano vai ser uma corrida pela imunização e o papo das ricas em iates em Angra, decks em Búzios ou latifúndios na Gávea será: “Já se vacinou?”. E assim vai ter o momento ostentação. “Claro, mudei minha residência para São Paulo e me vacinei primeiro por lá”.

Aqui no Rio a vacina ainda demora um pouco. E eu encafifada penso: “Não vou gastar nem olho nem varanda esperando o ano novo”.  Sei lá, quero que a dezena mude, mas foi tão ruim esse duplo 20 que nem sei se tenho roupa pra adentrar o ano bom, tudo ficou congelado, frio, cinza. Vou repetir cada festividade novamente pois esse gosto de bala com papel é bem estranho.

Minha filha nem comemorou seus 21 anos. O marido nem ergueu taça nos 90 da mãe e eu congelei meu sorriso numa cara de Monalisa amarela.

Tudo insistiu em parecer melancólico. E foi. Tantas covas, partidas, adeus. Um luto estéril, sem choro nem vela. E o finito ficou higienizado em missas virtuais, velórios pelo zoom e adeus sem lágrimas.

Cristalizamos nossa dor e empurramos sentimentos como a pá de sujeira que varre a poeira das noites. Deprimi. E como vou pular minhas 7 ondas, queimar meu defumador, jogar minhas oferendas pra ela, a minha Iemanjá?

E essa mulher madura que precisa ter Chronos ao seu lado, afinal, vai dar tempo de fazer um monte de coisas de sua wish-list? Desde aprender a dirigir (não ri, mas tem muita mulher que não sabe); fazer uma tatuagem tribal no pescoço; visitar Inhotim ao lado das amigas ou alugar uma casa de campo na Serra? Isso sem falar em experimentar um sexo grupal, tomar ayahuasca e aprender a fazer Kombucha? 

E eu que nem sei o que pedir. Ah, já sei: que tenha vacina pra todos – todos, eu disse– e não apenas para essa gente do andar de cima, afinal, o Rio é feito de favelas, ruelas, vielas e comunidades e precisamos de uma medida para todos, sem injeção de privilégios. Vou cobrar. 

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