“Existe um tempo para o luto, um para a cura e outro para recomeçar”, foi a resposta que eu consegui dar a ela, enquanto equilibrava no ar aquela pobre xícara de café -agora nem fria, nem quente- que aguardava ansiosa o término do meu raciocínio para finalmente desaparecer num gole só.

Não me parecia sensato extrair tamanha indignação de um pedaço simplório de torta, começar uma discussão -que já tinha feito a senhora da mesa ao lado torcer o nariz desaprovando seu comportamento desvairado- à troco de nada. Ou quase nada. A verdade dos nossos filhos adolescentes parece obedecer as mesmas regras que um dia também nos fizeram gritar num restaurante cheio.

Mas não era esse o meu incômodo, embora não concordasse com a sua abordagem explícita, não era a sua incredulidade que me perturbava. Ela tinha razão. Minha rebelde de 20 anos. Estava certa. Eu tinha me amarrado em desculpas, falsas promessas, prolongado a minha dor e não percebi a bobagem que havia se tornado essa minha reticência em não preparar mais o que diziam ser minha melhor receita de Natal. Por 11 anos.

Quando aprendi a ler, aos cinco, seis anos, uma das primeiras coisas que senti vontade de fazer com essa minha nova habilidade foi poder enfim entender o que estava escrito no caderninho vermelho de receitas que minha avó um dia presenteou minha mãe, guardado como tesouro numa gaveta da cozinha. Não precisaria mais de ajuda para saber quais ingredientes cabiam em cada preparo, os que combinavam entre si, os segredos que faziam nossos jantares comemorativos tão saborosos.

Com a torta de nozes foi assim. Eu a descobri por entre alguns recortes de revista escondidos na sua contracapa e decidi que estaria ali o meu cartão de visitas gastronômico. Minha marca. Aquele doce que eu poderia perpetuar na memória afetiva dos meus futuros filhos e netos. Com sua fina e branca como a neve cobertura de açúcar cristal. O mais esperado da noite do dia vinte e quatro de dezembro. Desde quando meus anos não completavam duas mãos completas.

Sim, existe um tempo para o luto, um para a cura e outro para recomeçar. E por mais que o motivo que me fez impor esse castigo bem-intencionado fosse tão somente nutrido por amor e fidelidade, à quem não poderia mais desfrutar do sabor e da nossa companhia (meu pai, que nos deixou precipitadamente numa madrugada de inverno, muitos feriados atrás) em volta da mesa natalina, estava na hora de enterrar, também, dolorosamente, o meu rancor. Um novo início, nascido, veja só, nos ensinamentos da minha jovem e sábia primogênita.

O vento morno de dezembro não entregará apenas o verão, na casa das Mazzoli. Virá enfeitado como nunca antes, com uma guirlanda de confeitos verdes e vermelhos entrelaçadas com pequenos pedaços partidos ne nozes, sobre aquela mesma tradicional calda açucarada. E eu poderei então, por mim, por nós, por ele, ter paz.

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