Thereza Kachindamoto é a “Inkosi”- chefe sênior- do distrito de Dedza, numa região central do Malawi onde aproximadamente 900.000 pessoas vivem em situação de extrema pobreza. Onde metade das meninas já estão casadas antes dos 18 anos de idade, ostentando tragicamente um dos maiores índices de matrimônio infantil do mundo.

Caçula de uma família de 12 irmãos (descendentes de chefes de aldeias da Monkey Bay), ela trabalhava há quase três décadas como secretária de uma escola em Zomba, criando tranquilamente seus cinco filhos, quando se viu eleita para o cargo. Reconhecida da sua “boa relação com pessoas”. Foi quando passou a dedicar seu tempo e esforço para erradicar a prática – culturalmente aceita, embora ilegal desde 2015- que vinha afastando, cruelmente e desde tão cedo, tantas crianças inocentes da vida escolar, roubando suas infâncias, transformando-as forçosamente em mães e esposas.

“Me prometi que não haveriam mais casamentos infantis por aqui”, ela sustentou, enquanto lutava contra a resistência de muitos pais que viam esses arranjos como única solução para a miséria em que viviam. Ameaçando demitir qualquer chefe que que continuasse sancionando tais costumes, afastando aqueles que se negaram acatar as novas regras.

Durante a sua chefia, Kachindamoto, mesmo sob ameaças, conseguiu anular cerca de 3.000 casamentos. Fez valer a nova lei, obteve um acordo com 50 sub-chefes que assinaram pela abolição dos casamentos precoces da região, alertou sobre os riscos dos partos prematuros e absurdo dos “kusasa fumbi”- campos de treinamento e iniciação sexual para as futuras noivas. Bravamente acompanhou a volta vitoriosa de muitas delas para a escola, ajudada por uma rede de apoio de “pais e mães secretos” que criou para ajudá-la nessa fiscalização.

Em 2016, recebeu o Jesse and Helen Kalisher Humanitarian Award.
Em 2017, recebeu o Leadership in Public Life Award, na décima sexta cerimônia anual do Vital Voices Global Partnership, Washington.
Em 2018, foi uma das quatro ativistas a receber o XVI Prêmio internacional de Solidariedade “Navarra”.
Em 2019, foi homenageada no World Connect´s 5th Annual Benefit Dinner em NY. Também homenageada na série documental “Courage to Question”, de Megan Sullivan.

“Quando essas meninas têm acesso à educação, tudo passa a ser possível”. Esse é o sonho dessa grande e admirável mulher. “ E se você educa UMA delas, está educando toda uma região”. Tão óbvio, infelizmente ainda muito custoso.

A nova era – essa, utópica, mas real nas nossas convicções, boas intenções e esperança- é sobre isso. Resgatar a força e o lugar do que é certo, do que é justo, tentar recuperar a potência do sagrado feminino. A generosidade, compaixão, compreensão da nossa humanidade. Corajosamente como a extraordinária Thereza.

Porque o mundo dos homens não deu certo.

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