Eu me apaixonei pela série catalã “Merlí” em 2017, não sossegando até terminar o último episódio, hipnotizada desde os primeiros minutos. E solucei como nunca, emocionadíssima, ao me despedir dessa turma: a filosofia, o mestre, e seus alunos dedicados (batizados por ele de “peripatéticos”).

Merlí

Aprendi nessas três temporadas o que já havia esquecido, o que desconhecia, e um pouco sobre a dinâmica adolescente com suas inquietudes e questionamentos. Platão, Nietzsche, Sócrates, bullying, sexualidade, ansiedade, depressão, estão todos lá, e é imperdível, apesar do comportamento duvidoso desse irreverente e charmoso professor.

Quando imaginei não existir futuro para essa história (afinal o que seria da série sem seu personagem título), fui surpreendida com o lançamento da sua continuação, focada na ida do pupilo favorito para a universidade. Uma primeira temporada interessante, com uma das cenas mais sexy de self pleasure que já vi (de uma mulher madura, um rapaz, e uma jovem, acontecendo cada qual na sua casa, concomitantemente), nada demais, apenas hot hot hot.

Mas foi a segunda leva de episódios que me fez levantar da cadeira, ao perceber a coragem do que acabara de acontecer com o protagonista. E peço desculpas se estou discursando fora do meu aquário, embora tenha a impressão que aqui dentro ainda falamos muito pouco sobre esse outro vírus tão nosso conhecido.

Mesmo depois de quase cinco décadas de descaso e mortes. Ainda assim fugimos do enfrentamento sério desse assunto. Fingimos não fazer parte da nossa realidade hipócrita o risco, como se fôssemos deuses, como se não batesse à nossa porta também a possibilidade. Os roteiristas da série tiveram a sensibilidade de mudar o rumo de um discurso previsível, batido, poderiam facilmente ter contado a história do amigo, do conhecido, de um personagem secundário.

Mas não. Brilhantemente é Pol (Carlos Cuevas), personagem central da trama, o mais gato, sensual e inteligente dos alunos do saudoso Merlí, que se descobre HIV positivo. Mais real impossível. Explicito, inescapável, no centro da tela. Belo na fragilidade do seu despertar. E ele sofre, sofre e se desespera. Mas renasce, aberto à uma nova e melhor vida, merecedor do amor, das alegrias e da saúde que todos nós igualmente procuramos.

“Sapere Aude”, ouse saber, atreva-se conhecer, era o que propunha Kant, e é o título dessa sequência merlíliana que tanto me encantou. Talvez, quem sabe, esse tapa na cara ajude a iluminar (desculpa o trocadilho) a razão dessas mentes que andam por aí resistindo emergir da lama de suas menoridades intelectuais. Pelo menos é o que eu espero dos que me cercam, da nossa humanidade. “Merlí: Sapere Aude” pode ser visto no HBO Max.

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