O romantismo açucarado que vemos nos seriados e filmes é carta fora do meu baralho diário de possibilidades. Restou confinado às comemorações, quando lembrado, ressuscitado sazonalmente no furacão que de vez em quando nos visita, ainda, aquele que virou ventania, depois brisa. Talvez por isso continue sentindo uma sensação incômoda, misto de aflição e inconfessável nostalgia, toda vez que assisto essas cenas de entrega absoluta, promessas de amor eterno, gestos extremos, rompantes inimagináveis de furor sensual. Coisas que já passaram por mim. Porque viver o amor longevo não envelheceu a vontade. Apenas mudou as cores da chama e foco das minhas predileções.

Ser romântica-raiz prejudicou o meu “chi” desde que comecei a fantasiar com as histórias de amor que assistia e lia. Essas narrativas encantadas que desde a infância confundem o nosso aprendizado amoroso deveriam se prestar somente ao traço recreativo do que propõem: divertir-nos com belas paisagens, diálogos poéticos, olhares intensos, música de cortar ou derreter o coração. Inspirar-nos. Nada mais. Mas moldaram a nossa expectativa sobre a atenção que pensamos ser a ideal, sugerindo uma norma exemplar de entrega, disponibilidade, troca. Por muito tempo me fez desejar o mesmo modelo de dedicação que eu oferecia, enquanto cobrava o que achava merecer, ignorando a fluidez que caracteriza o bom afeto, o respeito à individualidade das partes, a importância do silêncio, da pausa, do entendimento plural da linguagem amorosa, que nem sempre é clara como a fantasia.

A boa notícia é que atualmente a propaganda da paixão avassaladora não carrega o mesmo apelo arrebatador que vinte anos atrás fez a minha geração idealizar ingenuamente com o inverossímil. “Anos dourados”, “Em Algum Lugar do Passado”, “Pretty Woman”, “O Guarda Costas”, arrancando-nos suspiros, semearam entre nós a ideia que a felicidade seria mais fácil no encontro do par, o salvador, degustada em beijos calorosos e pequenas doses de sofrimento e angústia. Hoje não, nossas meninas já nascem emancipadas emocionalmente, donas da própria felicidade, dos seus sonhos, desbravando destemidas a variedade de oportunidades e caminhos que o mundo as oferece.

Eu precisei reconfigurar a percepção que tinha das minhas necessidades, tardia mas finalmente, para encontrar dentro de mim o que passei anos esperando dos outros. Arranquei muitos dos conceitos enraizados que limitavam o meu olhar, minha voz e entrega. E me vi admirando a plenitude das minhas conquistas, enfim, inteira, leve. Pude amar mais, me divertir mais, ser mais eu do que nunca, para quem sabe me embaralhar toda outra vez, e outra vez, e outra vez.

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