Quantos rótulos podemos descartar e abandonar ao longo de nossas vidas? Quanto podemos nos desapegar, recomeçar, redefinir? Quantas vezes mudamos de opinião? Imagino eu que você, assim como eu, muitas. E, em geral, cada uma delas significa que aprendemos ou vivenciamos experiências novas. E que essas experiências nos possibilitaram pensar e perceber algo diferente do que víamos anteriormente. Nos possibilitam desafiar nossa posição, experimentar o novo ou desconhecido. Mudar faz parte da essência humana.

E por que motivo seria diferente em nossas escolhas profissionais? Seguindo este pensamento, pergunto sobre quantas vezes na sua vida você já leu, ou ouviu, o caso de alguém que não estava feliz no trabalho e, em função disso, resolveu mudar? Passou a investir em uma nova carreira para se realizar profissionalmente? Agora pense qual a palavra que vem à sua mente quando pensa nessas pessoas que vivem movimentos na carreira: coragem, loucura, inspiração, fracasso, medo? E se você tivesse que escolher apenas uma palavra, qual seria?

A minha palavra sempre foi inspiração. Acompanhar um processo de mudança de carreira me inspira. E acredito que inspire outras pessoas que, também desejam passar por esse processo, e nem sempre tem coragem (ou loucura?) para encarar isso. Pois é… É preciso coragem e, talvez, uma pontinha de loucura quando decidimos mudar o rumo de nossa vida profissional. Porém, mais do que isso, mudar de carreira demanda organização, foco, consciência, estudo, desapego. E para ter isso tudo, quase sempre, um tempo de preparação.

E quando falamos sobre mudar de carreira realizada com mulheres que já passaram dos 40 anos? É nesta situação em que as perguntas se tornam mais complexas. São questionamentos que muitas vezes confrontam, expõe e dificultam o processo. É que ainda é difícil para a maioria das pessoas a compreensão de que, hoje, mulheres de 45, 50, 55, 60 anos de idade são muito ativas física e intelectualmente. Os tempos mudaram e, ao contrário de um passado não tão distante, a imagem da avó de cabelos brancos, sentada vendo a vida passar não se encaixa mais para mulheres mais velhas. Equívoco imenso, mas que ainda se reflete no mercado de trabalho.

E trago alguns dados:

A população brasileira é formada em 51,5% por mulheres. Percentual que aumenta quando falamos em população idosa, onde 56,7% é de mulheres. Apesar disso, apenas 14% das mulheres ocupam cargos de liderança em empresas. São índices que traduzem perfeitamente a falta de oportunidades para mulheres no trabalho formal. Apesar de sermos a maioria numérica da população, somos minoria em posições profissionais de liderança.

E se já há diferenciação antes de 40 anos, é depois dessa idade – em que as habilidades e experiências acumuladas deveriam ocupar posição de protagonismo profissional – que passamos a ser bastante ignoradas. De forma velada, seguidamente.

Em entrevista ao G1, no ano passado, a executiva de RH e especialista em Pessoas e Cultura Mariciane Gemin comentou que ainda é necessário um amadurecimento expressivo do mercado para que as empresas considerem os profissionais acima de 50 anos, e afirmou que é baixo o número de empresas que têm programas estruturados para a contratação deste público. “Ainda temos algumas pessoas presas a um tempo atrás, olhando pessoas com 50+ comparando-as com outras gerações, sendo que a gente está falando de outra coisa. Hoje, a longevidade das pessoas, o acesso à saúde, entretenimento, bem-estar, fazem com que a expectativa de vida venha aumentando. Uma pessoa com mais de 50 anos, está no auge da produtividade”.

O preconceito etário é fato na vida de uma maioria da população feminina. Algo que empurra muitas de para novas carreiras, a medida em que são vistas e tratadas como obsoletas ou desnecessárias.

Não é apenas por falta de oportunidades ou preconceito que, a cada dia mais, mulheres mudam de carreira na maturidade. A realidade é que as carreiras são – quase sempre – escolhidas quando temos 16 ou 17 anos e zero experiencia ou vivência. É muito cedo para definirmos o trabalho de vida inteira e isso impacta em uma fase em que tudo fica mais perceptível. Às vezes, é com a maturidade e autoconhecimento que as mulheres conseguem identificar alegrias e desgostos profissionais que, lá no inicio da carreira, julgavam normais ou passageiros. A idade traz diversas respostas e algumas certezas. E é por isso que a mudança de carreira se torna um passo natural para muitas de nós.

Outro ponto que aumenta a transição de carreira de mulheres na maturidade é o fato de, normalmente, terem mais responsabilidades familiares que os homens. A medida em que as mulheres passam a acumular dupla ou tripla jornada, tendo casa e filhos para cuidar, é comum que não consigam se dedicar à profissão como gostariam. E neste processo, passam-se anos sem que conheçam a tão sonhada realização profissional. É apenas quando termina a fase de “cuidar dos outros” que muitas mulheres conseguem pensar em cuidar mais de si, olhar para suas próprias vontades e buscar por carreiras que ficaram guardadas unicamente por falta de oportunidade.

Olhar para nossa carreira com cuidado, perceber o nível de satisfação, entender se desejamos ou não fazer mudanças, é apenas mais um dos tantos desafios que nós mulheres encaramos na maturidade. E pode ser muito motivador. A partir deste mês estarei aqui no Informidades, conversando com vocês sobre carreira e maturidade, só mais um dos tantos tabus que precisamos derrubar.

Ilustração: Tyler Spangler

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2 comentários
  1. Essa inconformidade em relação a carreira não só aflinge aquelas que tiveram um trabalho formal mas como também aquelas que trabalharam informalmente, conhecidas como “as donas de casa”. Essa categoria continua esquecida e menosprezada que nem entra nas estatísticas. A síndrome do ninho vazio é um fase de insatisfação e questionamentos que permeia a vida destas mulheres. O que fazer agora se minha missão foi cumprida? Qual é o meu propósito? Escolhi ser dona de casa? Posso fazer e ser mais? Quero ser mais!!!

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