Ando lembrando dos meus sonhos ultimamente. Durante muitos anos tive o hábito de anotá-los. Não sei onde coloquei minhas notas antigas, tentei resgatá-las sem sucesso; uma pena… Mas o tempo passou e voltei a pensar em anotá-los de novo. Meus sonhos de hoje se misturam aos meus devaneios; meus filtros diários que nada mais são que um escape mental desse tempo no qual estamos vivendo.

Sonhos tem um tempo ilógico, o inconsciente se manifestando na sua forma pura e no seu tempo. Ou melhor, no tempo exato para que o consciente o processe. Sonhos são metafóricos apesar de serem por muitas vezes esclarecedores. São imagéticos porque a imagem tem força. Mas se até os sonhos tomam seu tempo, por que a gente corre atrás dele?

Resolvi escrever esse texto depois que vi um post da minha querida Claudia do @cool50s citando Brené Brown no que ela diz: “O tempo é agora”.

Quando crianças, queremos fazer 10 anos pra encher as duas mãos.
Quando adolescentes queremos fazer 18 pra sermos independentes; até descobrirmos que isso não é bem verdade. Quando adultos corremos atrás de construir algo (isso, a gente, geração X) carreira, família, filhos ou não, mas sempre correndo atrás de decisões que, naquele tempo, pareciam ser “pra sempre”. Mas como dizia Cassia Eller, “o pra sempre, sempre acaba”.

Daí o tempo passa e tudo que corremos atrás, como num passe de mágica, perde o sentido de urgência. Até aqui construímos uma história bacana e nos orgulhamos, na maioria das vezes. Mas o tempo nos acelera e nos esquecemos do quão bacana foi o nosso percurso. Por sorte temos as fotografias captando as imagens dos nossos sonhos realizados.

Lá vem o tempo outra vez e nos trás junto a ele o turbilhão emocional da maturidade. Colocamos tudo num saco, sacudimos e acolhemos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença o nosso amadurecimento. Aí pensamos: agora que eu nem vi o tempo passar não posso perder mais tempo, cheguei na segunda metade da vida.

Então vem a pandemia como uma profecia pra nos fazer parar. O tempo agora, como nos sonhos, parece ilógico, têm outro significado. O temos e não precisamos mais correr atrás dele. Esse tempo de hoje que corre lado a lado ao caos nos causa uma sensação de paralisia. Um mal estar mental ao qual não estamos acostumados e nem precisamos nos acostumar, porque vivemos em um tempo doente.

Seguindo com as minhas licenças poéticas, cito agora Cazuza: “O tempo não para”. O que precisamos é aprender a dar tempo ao nosso tempo interno, que é único, como cada um de nós. E, acima de tudo aprender a respeitá-lo. Antes tarde do que nunca.

Eu, que gosto sempre de ver o copo meio cheio, acredito que hoje vivemos um tempo no qual podemos tirar nossos sonhos no papel, porque agora temos tempo pra executá-los de fato. Precisamos é de maturidade pra lidar com ele.

Não podendo ser diferente, termino esse texto com outra música: “Tempo amigo, seja legal, conto contigo, pela madrugada, só me derrube no final…” Pato Fu

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6 comentários
  1. Querida Lívia,

    Texto necessário e tocante! Sim, agora mais do que nunca estamos pensando no tempo; deixando de fazer planos para o futuro, vivendo o agora, um dia após o outro… Lembrei do poema “O tempo”, de Mário Quintana que fala justamente sobre a importância de aproveitar cada momento e não deixar ser consumido pelo tempo:

    “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
    Quando se vê, já são seis horas!
    Quando se vê, já é sexta-feira!
    Quando se vê, já é natal…
    Quando se vê, já terminou o ano…
    Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
    Quando se vê passaram 50 anos!
    Agora é tarde demais para ser reprovado…
    Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
    Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…”

    Abraço!

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