Estou sentada nessa cadeira desde o almoço, como se tivessem nela amarrado todo o meu corpo, como se não pudesse mais respirar, me mover, não ouço, não enxergo, não falo, não tenho vontade de ser.

Então é isso? É aqui o lugar que escolhi para abandonar de vez o meu ânimo, a minha coragem? Sentir a dor das minhas fraquezas costuradas em mim, a sensação de que fiz tudo errado, minha lápide?

Eu fugi. Talvez tenha sido esse o meu maior erro, evitar enxergar o que não podia mais ser consertado, me acomodar no conforto falso do tempo, tão ingenuamente. Preferi a ilusão de uma história que já não estava mais sendo escrita à dor da verdade. Quem me culpará?

Tentei desesperadamente, erradamente, nos salvar, em vão. Mas a vida não seguiu o meu roteiro, déspota, egoísta, vil.

Hoje o que me resta é assistir a ruína da fantasia que criei para tentar ser feliz. Nossos personagens despidos, revelados, reais, cruéis, me acusando injustamente por uma culpa que não é só minha. Não posso carregar sozinha esse fardo.

Preciso recuperar a minha origem, retomar o meu eixo, minha força, escolher um caminho, seguir em frente, mas é tão difícil, sofrido, me sinto fraca, incapaz. E o medo que me rodeia, faminto, aguardando uma nova chance de poder me engolir por inteiro, me tortura sem hesitação. Se diverte por entre o que sobrou de mim.

Estou sentada nessa cadeira desde o almoço.
Qualquer hora me liberto, mas não agora, ainda tenho tempo.
Quem sabe alguém me tira daqui.
Quem sabe adormeço.
Ou esqueço.

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O que eu mais quero, dentro desse momento congelado e dos rostos familiares na velha fotografia da minha infância, é nunca ter de perdê-los.